A pátria em chamas: queimar a história na história recente do Brasil

Infelizmente acordamos, os que sem saber da tragédia dormiam, na segunda-feira (3) com a triste notícia de que as chamas consumiram anos de história, impressa em objetos e sentimentos, presentes no Museu Nacional no Rio de Janeiro. Ironia, na semana em que, em muitas cidades, é acesa a “chama da pátria”, símbolo da Semana da Pátria que culmina no dia 7 de setembro, data da suposta Independência do Brasil.

Absurdo fato, cujos riscos já se haviam sido divulgados, em meio a um processo de sucateamento das universidades e das pesquisas públicas, com profundos cortes no âmbito da política de austeridade de Temer. Esta semana da pátria acendeu uma chama cujo alimento foi a história que provava, entre outras coisas, que não nos tornamos independentes de fato.

Um país que queima museus, queima indígenas, queima florestas, queima orçamento público em obras de estádios em lugares que nem tem um time de futebol, queima recursos públicos para pagar uma dívida externa e interna impagável; queima recursos para construir trilhos para um transporte público e depois para retirar os mesmos trilhos, visto que não haverá mais o moderno transporte, como sabem os cuiabanos. Aliás, um país que teve um Ruy Barbosa que mandou queimar os registros sobre a compra e venda de pessoas escravizadas. É o eterno fogo!

Após golpes em direitos, quando há poucos dias um tribunal aprova aumentos de salários para si e flexibiliza as relações de trabalho onde, sabidamente, as perdas serão para os trabalhadores e trabalhadoras, falar em independência soa uma piada mal contada. Nada de risos, só lágrimas.

Lágrimas, derramadas por aqueles e por aquelas que dedicaram suas vidas para que o mundo tivesse história; lágrimas dos funcionários, que com zelo limpavam com todo o cuidado cada espaço, sabendo, ou não, que seu trabalho e cuidados significavam o cuidado com peças impossíveis de valorar financeiramente; lágrimas do país, pátria golpeada, que vê milhões de anos de história sendo queimados enquanto estádios e outras obras superfaturadas, cujos desvios de dinheiro encheram os bolsos de políticos hoje presos,  seguem muito bem conservadas.

Minha solidariedade aos povos indígenas que perderam registros insubstituíveis de suas línguas e culturas; aos pesquisadores e professores Dr. João Pacheco de Oliveira e Dr. Antônio Carlos de Souza Lima, ambos do Museu Nacional e que conheço pessoalmente. Através deles, minha solidariedade a todos e todas que doam suas vidas para que outras histórias não virem cinzas.

Um 7 de setembro, dia do Grito dos Excluídos e das Excluídas, com um grito preso na garganta. Não um grito de gol, mas de Basta de Privilégios! Basta de golpes!

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