A pandemia trouxe a conta. E o pagamento é à vista

Heitor Peixoto*

A pandemia de covid-19 ainda mostra seu catálogo de danos mundo afora, e o faz de maneira mais dramática em países como o Brasil, onde as ações e estratégias vindas do plano federal são ora pífias (deseducando a população e mandando-a, se não às favas, à morte), ora estapafúrdias (por exemplo, na fanática crença em mitos, como o da salvação a partir de medicamentos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus).

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Enquanto as classes médias se (re)encontram em telas, teleconferências, lives, as periferias se agarram como náufragas em pacotes de dados de internet insuficientes para lhes conferir algum nível de existência neste “novo” mundo. E na urgência ainda maior, a das necessidades nada virtuais, falta o de sempre: alimentos, itens de higiene pessoal, produtos de limpeza, além dos novos “luxos”: álcool em gel e máscaras.

É mais do mesmo para essa gente, de quem só se vê invisibilidades. Por paradoxal que seja, a “inexistência” desses é pré-existente. Porém, ela foi miseravelmente aprofundada, em proporção equivalente às mazelas provocadas por uma doença mortal, e de escala planetária.

Um cenário que a professora Eveline Araújo conhece bem. Foi na periferia paulistana que entre 2012 e 2014 a jornalista e professora desenvolveu seu projeto de doutorado em saúde pública pela USP, tratando de uma das mais negligenciadas dimensões da saúde humana: a do desenvolvimento cultural. 

O campo escolhido para a pesquisa foi o distrito de Sapopemba, na zona leste de São Paulo, local marcado pelos altos índices de mortes violentas. Na base do projeto, a realização de produções de cinema pelas mãos dos jovens do território. 

Por óbvio, as escutas dessas moças e rapazes evidenciaram toda a sorte de privações individuais e sociais. Inclusive a privação de sonhos, relegados que são esses jovens aos mesmos empregos precários de seus pais e mães. 

Da época, ficaram para Eveline as experiências transformadoras com as quais pôde contribuir (como a de jovens que conseguiram oportunidades de trabalho e de formação acadêmica até então “vetadas” para eles), e a proximidade com as periferias, que se mantém até hoje. 

Agora, no contexto de pandemia, ela acompanha os grupos de apoio que atuam nessas regiões, num trabalho de dar voz e visibilidade para comunidades vulneráveis. “Estamos montando com alguns colegas um coletivo nesse sentido chamado ‘Mais Comunicação’, para atuar em várias frentes, em que se faça necessário o papel da comunicação como um processo de mediação de campo, e de aglutinador de ideias para soluções sociais. Eu particularmente atuo em um projeto que idealizei há 7 anos, o ‘Cine Tornado Festival’, um festival internacional de cinema que trabalha com narrativas sociais a partir do sequenciamento de filmes. Esse festival acontece em Curitiba anualmente”, explica.

Ao Congresso em Foco, a professora fala sobre os impactos do novo coronavírus em localidades já marcadas por carências extremas, e das iniciativas de lideranças comunitárias para a gestão da crise (em razão das omissões do poder público). Eveline aprofunda também a leitura sobre os problemas "de sempre" vividos pelas periferias, a partir do que acompanhou no doutorado. 

Leia abaixo os pontos principais da entrevista, ou veja a íntegra no vídeo a seguir:

 


Relação precária entre a saúde pública e os moradores de periferias

Neste momento da pandemia, agrava-se muito. Já não havia essa relação antes. Eles só vão procurar [atendimento] se estiverem morrendo, porque eles sabem que não têm atenção. 

Tem toda uma gestão que precisa ser pensada, que é usar as UBS’s como uma base do território para fazer pró-ativamente essa busca, dando orientação e condição para que possa ser feito o isolamento, para que isso não chegue a virar um caso grave. Infelizmente, casos que não iriam a óbito estão indo, porque não têm a condição de atendimento no início. 

Quando ficar em casa é o próprio risco

Se eu tenho uma casa com 8, 10 pessoas, e aparece um caso de covid-19, essa pessoa rapidamente tem que ser isolada, para que aquilo não se alastre numa proporção maior. 

É tanto a dificuldade do espaço físico, com muita gente no mesmo apartamento, no mesmo casebre, na mesma residência, quanto não ter suporte para sobreviver. Muitos foram demitidos, alguns já eram profissionais autônomos, ou eram precários. Além disso, há um aumento grande de violência doméstica, tanto contra mulher, quanto contra criança. 

Mobilização de comunidades contra dois inimigos: pandemia e abandono social

O melhor exemplo que temos em São Paulo está sendo na comunidade de Paraisópolis. Eles fizeram um sistema de “presidente de rua” (estão chamando assim porque dizem que não têm um presidente), como quem diz “a gente é que vai fazer a gestão que não vem sendo feita pelo poder público”. Esse presidente de rua cuida de 50 casas: administra se tem doentes, se falta comida, se alguém precisa de locomoção para hospital. Eles fazem toda essa estrutura. Recebem um treinamento do pessoal que é liderança da comunidade, e fazem esse atendimento. 

É uma iniciativa ótima, só que ela não foi copiada em todas as comunidades daqui. A gente tem Heliópolis, Sapopemba, Jardim Ângela, Jardim Miriam… são todas comunidades que não se organizaram. O único trabalho que vem sendo feito regularmente é o de assistência (fornecimento de comida, álcool gel, kit de higiene), mas tem todo um outro lado que precisa de ser atendido.

A questão da banda larga, por exemplo. O governo federal poderia ter liberado de imediato banda larga gratuita nessas regiões periféricas. A maioria usa dados, não tem dinheiro para pagar banda larga. 

Esses R$ 600,00 [do auxílio emergencial]: eles têm que optar se vão gastar isso em comida ou se vão pagar aluguel. O custo de vida aqui em São Paulo é muito alto.  

O passivo social de sempre, agravado pela pandemia

É como se todo o nosso processo histórico-político estivesse agora com uma conta a ser paga à vista. Toda a falta de investimento ao longo de décadas, falta de infraestrutura, de lazer, de espaços, agora estão vindo à tona. 

É importante ressaltar que essa privação é bem anterior. Eu fiz o meu doutorado em Sapopemba, entre 2012 e 2014, com jovens da periferia na produção de cinema, e a escuta já era essa. A educação é muito fraca. Eles são tratados meio assim como um “pacotão que tá incomodando”. 

A questão do estereótipo é uma coisa muito agressiva. Se uma moça vai grávida a um posto de saúde, é tratada como vagabunda. Isso tudo é uma queixa muito grande. Esse estereótipo que a própria mídia muitas vezes endossa, reitera. Para eles, isso machuca, obviamente. Eles querem sair desse lugar, desse estereótipo, mas eles não conseguem achar os meios de viabilizar isso. 

A primeira hipótese deles [no planejamento dos vídeos] era: “ah, a gente quer mostrar tudo que tá errado aqui dentro”. Fizemos muitas rodas de conversa para eles irem elaborando qual seria o impacto disso para fora da comunidade. Eles foram vendo que, se fizessem isso, estariam reificando o que a própria mídia fazia com eles. Como que inconscientemente, estavam tendendo a repetir uma ação midiática.

Daí eles foram compondo outras narrativas, e no doutorado eu analisei exatamente esse processo de escolha do que entra e do que sai, e essa composição da narrativa foi tendendo para uma construção de um sujeito. Eles precisavam se construir enquanto sujeitos: “Pera, eu quero mostrar o que eu sou capaz de fazer com o que eu tenho ao meu redor”. 

Na primeira oficina de vídeo para o Festival do Minuto, eles fizeram com manobras de skate pelas vielas do lugar, mostraram os grafites, mostraram o que tinha de bom, mas na composição de todas as imagens, eles tinham, por exemplo, imagens de lugares que tinham lixão, cachorro abandonado, descuido. Na hora da edição, eles foram deixando isso de lado, e fizeram uma composição onde entrou mais o aspecto artístico que eles conseguiam mostrar do lugar.

Eles têm muita dificuldade de projeção de si como futuro. Eles se projetam já no trabalho precário, porque isso é quase uma determinação social. Bem poucos conseguiram se projetar na área da própria comunicação, de cinema. Eu tive depois jovens que foram para a área de educação, mas naquele momento a projeção não ocorria. O sonho é sempre tolhido. “Não, você não tem o direito de sonhar. Por que você está sonhando?”. 

Sapopemba foi escolhida por mim como campo por conta do tanto de mortes por causas externas. Isso inclui tanto acidentes, atropelamentos, como a questão da violência. Durante o percurso em que eu estive lá, nós tivemos um óbito de um jovem por questão de violência e um caso de gravidez na adolescência. Em um período de dois anos, relativamente longo, foi estatisticamente pequeno [o número das perdas]. A gente preferia não ter perdido ninguém, mas infelizmente aconteceu. 

Veja mais:

>> Documentário produzido por Eveline Araujo, com as produções de grupos de jovens em 2012:

>> Produções dos grupos de 2014

>> Eveline Araujo entrevista Joana Machado Rodrigues, voluntária da ONG Novos Sonhos, sobre ações desenvolvidas na região da Cracolândia, em São Paulo

>> Artigo de Eveline Araujo sobre ausências do poder público na periferia de São Paulo durante a pandemia

*Heitor Peixoto é jornalista.

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