A palavra apropriada não é intervenção, mas desratização

Vamos supor que os dirigentes da principal confederação futebolística de um país futebolístico estivessem juntando os cacos depois da pior humilhação sofrida pelo dito cujo em 100 anos de história e mais de mil partidas disputadas, daí resultando a demissão dos integrantes da comissão técnica responsável pelo fiasco.

Se fossem homens decentes, escolheriam os profissionais mais aptos para tirarem o prestígio de seu selecionado do fundo do poço. Se fossem o contrário, certamente aproveitariam as chances propiciadas pela renovação que se impõe.

Como quase todos os jogadores da última campanha teriam sido reprovados, não causaria estranheza se um grande número de promessas fosse testado nos amistosos e competições seguintes.

Depois de eles vestirem algumas vezes a camisa amarelinha, um agente hábil poderia colocar esses jovens a peso de ouro no mercado internacional. Grana preta à vista!

Evidentemente, tal atividade seria incompatível com o exercício de uma função de comando sobre as futuras seleções, mas bastaria o fulano fingir que abandonou a antiga profissão, passando a esconder-se atrás de testas-de-ferro. Para quem conhece todos os pulos-de-gato do submundo esportivo, isto é facílimo de fazer.

Só que o novo técnico precisaria fazer parte do esquema, ou, pelo menos, ser com ele condescendente.

É bem provável que treinadores respeitados – os preferidos pelos torcedores nas pesquisas encomendadas por jornalões – não quisessem sujar as mãos. Mas, sempre haveria algum velho conhecido para assumir tal papel, talvez sem sequer participar do rateio do butim.

Poderia ser alguém que quisesse dar a volta por cima de um retumbante fracasso anterior, mas que nunca teria tal chance pela via da competência ou por ser um profissional atualizado, pois não a possui nem o é.

E, como parece ser mais difícil efetuar a desratização de entidades esportivas do que derrubar presidentes da República, é bem provável que um quadro semelhante a este se apresentasse em 2018 – supondo-se que o selecionado em questão não sucumbisse nas eliminatórias. Para tudo há uma primeira vez.

Por último: esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência... embora um Sherlock Holmes talvez pensasse o contrário, e até visse motivos para uma conversinha com o inspetor Lestrade.

Uma 3ª Era Dunga? Cruz, credo!

Dunga foi um volante mediano e raçudo, assim como Felipão foi um zagueiro raçudo e mediano.

Em 1990, simbolizou o futebol tosco que levou a Seleção Brasileira a ser eliminada por uma decadente Argentina (sobrevivia à custa dos derradeiros lampejos do Maradona) nas oitavas-de-final. A campanha desastrosa ficou apropriadamente conhecida como a Era Dunga.

Voltou como capitão e xerife do escrete em 1994, caindo como uma luva no esquema de jogo super-ultra-hiper-cauteloso de Carlos Alberto Parreira: dois na frente (Bebeto e Romário) e o resto atrás. Foi a Copa que o Brasil venceu sem jogar como Brasil, tanto que a decisão se deu na loteria dos pênaltis, depois de intragáveis 120 minutos de 0x0.

Do Mundial de 1998, seu lance mais lembrado é a cabeçada que deu em Bebeto na partida contra os galinhas mortas do Marrocos (um árbitro mais atento o expulsaria sem pestanejar). Consequência: os ressentimentos voltaram à tona no pior momento possível, o vestiário da final.

O técnico Zagallo acertadamente escalou Edmundo no lugar do convulsionado e depois entorpecido Ronaldo Fenômeno, mas voltou atrás sob vara do cartola-mor Ricardo Teixeira. Dunga tentou liderar o elenco numa tomada de posição para que jogasse quem tinha condições, mas Bebeto encabeçou a ala dos discordantes. Com o elenco dividido, prevaleceu a vontade do Teixeira e o Brasil entrou em campo com os jogadores nem se olhando na cara uns dos outros. Só podia dar França.

Limitado como jogador, limitado como técnico – igualzinho ao Felipão. É mais um expoente da velha escola da Pátria em chuteiras, da raça no lugar da técnica, da transpiração acima de tudo e dane-se a inspiração!, do primarismo em termos de organização tática. Com ele, não passamos das quartas-de-final em 2010. Quem entende de futebol o considerou, simplesmente, um técnico burro. A segunda Era Dunga acabou tão mal como a primeira.

Agora, os antenados com os bastidores da Cloaca Brasileira de Futebol (vide aqui) garantem que, na próxima 3ª feira, começará uma terceira Era Dunga... cruz, credo!!!

* Jornalista, escritor e ex-preso político, mantém o blog Náufrago da Utopia.

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