A outra face de Brasília: das pontes à Ponta de Picolé

Pacotão A Sociedade Armorial Patafísica Rusticana Pacotão é um bem imaterial nosso, sim, sem decreto, sem burocracia, símbolo maior do nosso carnaval-de-rua-na cidade-sem-ruas (quem disse?). Fundado em 1978 por um grupo de jornalistas como uma “deferência” ao famigerado Pacote de Abril, série de decretos de Ernesto Geisel. O presidente vitalício e fictício da agremiação carnavalesca de rua de Brasília é Charles Preto, uma singela homenagem ao então diretor do Departamento de Turismo do GDF, Carlos Black, que não permitiu que o Pacotão desfilasse na W3 Sul. Polícia não é doida de bater em jornalista e, sabendo disso, eles desfilaram na W3, sim, e na contramão. Mas aquele Pacotão de outrora não é mais o mesmo. Com a chegada de muitos de seus membros ao poder, com a eleição de Lula, as críticas ficaram menos ácidas e a irreverência menos irreverente. Mas há claramente uma tentativa de voltar ao velho e bom e extremamente libertário Pacotão. Tomara.

Palhaços O sinal se fecha, outros se abrem. Para os palhaços nos semáforos, a lona do circo é o céu de Brasília. Bolas, argolas, fumaças, buzinas. Olhares se acendem, fogo no asfalto. Passam o chapéu. Eu sempre contribuo. É arte, sim, senhor. Gracias. O sinal se abre, outros se fecham.

Palmeiras Minha praça tem palmeira onde canta o buriti. No Distrito Federal ocorrem 14 espécies de palmeiras e nos Estados Unidos, mil e oitocentas vezes maior, existem exatamente 14 espécies! Da menor palmeira brasileira, a coco-de-raposa, até imponentes gerivás, gueirobas e buritis, por aqui você encontra também o perfumado coco-babão, com seus saborosos frutos de nome delicioso e atraente: coquinho-de-catarro. Disputado por humanos, gambás, tatus, ratos e outros animais de pequeno porte. Temos ainda babaçus, ariris, jussaras, guaricangas, bocaiúvas, butiazinhos, catolés, indaiás, cocos-de-vassoura. Minha praça bem que poderia ter mais palmeiras.

Pardal Temos aqui duas espécies de pardais: um que não voa, não tem pena e faz ninho em poste, onde vive preso. Só tem um olho. Verdadeira praga urbana, muito rentável. O outro voa, tem pena e faz ninhos em qualquer lugar. Vive solto. Também é praga, mas não é rentável. Os dois são importados.

Parque da Cidade Maior que o Central Park e o Ibirapuera. E sabe por que lá não foi construído o Sudoeste? Porque o governador (indicado) Elmo Serejo Farias não deixou. Resistiu a todas as investidas da até hoje poderosíssima indústria imobiliária local. E não há em todos os 420 hectares do maior parque urbano do mundo uma só placa, um marco, em homenagem ao governador. Deve ser falta de espaço.

Passagem subterrânea Uma das poucas obras construídas exclusivamente para o pedestre em Brasília, um total de 16 nas duas asas. Aí está o seu grande mérito, utilíssima para quem precisa cruzar o Eixão, sem riscos. Eixão, essa verdadeira highway, que transforma Brasília numa simples cidade de beira de estrada.

PDS Não é a sigla de nenhum partido político. Essa mania do brasiliense por sigla. Significa mais do que o nome de um bar – Pôr do Sol – no “quadrilátero do álcool”, na 408 Norte. Lotado de universitários – a UnB fica perto – artistas, poetas inéditos e jovens despreocupados. Gente que curte o Face, gosta da Ellen Oléria, vai ao Porão do Rock, ouve Móveis Coloniais de Acaju, usa cabelo dread... Passo por lá e gosto do barulho. De ver gente na rua. Parece até que estamos em uma cidade qualquer.

Pedra fundamental JK tinha tanta pressa em construir Brasília (se não transferisse a capital no seu mandato, adeus...) que aconteceram coisas incríveis. Não se sabia exatamente onde seria a sede do Correio Braziliense no Setor de Indústrias Gráficas, ainda não delimitado, mas Assis Chateaubriand e JK queriam logo lançar a pedra fundamental do jornal. JK desceu de helicóptero nas proximidades de onde é hoje o Fórum, e na beira do Eixo Monumental descerrou a Pedra Fundamental (um pequeno totem). E a pressa era tão grande que JK levou a Pedra Fundamental para outro evento. O que importava era tirar a foto e registrar o fato. O fato consumado. E mostrar para o Brasil e o mundo que Brasília e sua vontade eram irreversíveis.

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Perda Brasília já é uma cidade. Chora seus mortos, lamenta suas perdas. Jorge Ferreira saiu da mesa do bar, não se despediu e nem voltou. Não era isso o combinado. Devia ter ficado mais. Afinal, a festa estava boa. Jorjão era a festa.

Pessoal da limpeza 1979. Inauguração do Teatro Nacional. Grande pompa. Noite de gala. O presidente Figueiredo chama o ajudante de ordens e pergunta: quem é aquele pessoal ali? O auxiliar olha rapidamente para um grupo de jovens punks e mais rápido ainda responde: é o pessoal da limpeza, presidente. Cai o pano.

Pezão Francisco Morojó ou simplesmente poeta Pezão, seu criado, como se apresentava. Foi uma mistura entre Maiakovski, Bukowski e Leminski, mas não tinha sangue eslavo. Era paraibano. Fez história no underground poético 120 121 local. Eu o encontrava por aí e ele dizia: “Você é o príncipe dos poetas, mas eu sou o rei”. Quando soube da sua morte, em 2003, pensei no ato: foi cirrose. Errei. Indo de carona para a feira de trocas de Olhos d’Água, o nosso poeta desceu para dar lugar a duas moças, que iam para o mesmo destino. Um gentleman. Pegou carona com outro carro, que capotou – e Pezão foi o único que morreu. Viva Pezão!

Piscina com Ondas - 1980Piscina com Ondas - 1980 Foto: Wilson Pedrosa/CB/DA Press

Piscina com Ondas Ou, na boca do povo, Piscina de Ondas. Estava localizada no Parque da Cidade, onde funcionou de 1978 a 1997. Chegou a receber, nos áureos anos 80, cerca de 9.000 pessoas por fim de semana. De 45 em 45 minutos uma sirene anunciava o início das ondas artificiais, que atingiam 1 m de altura e duravam até 10 minutos. Foi fechada por má administração da empresa gestora. Hoje não passa de um lugar abandonado. A onda passou.

Pipas Mais de uma pessoa já me disse: “Quando a gente chegou a Brasília, bem no começo, um programão era ir de tardezinha soltar pipa no Eixão”. Acredite se quiser.

Placa da Mercedes Amor é amor, mesmo pago. Era lá, na placa da Mercedes, depois do Núcleo Bandeirante, na direção de Goiânia, que os candangos o encontravam. Amor barato, disponível e contagioso. Atraídas pela grande quantidade de dinheiro em circulação e pelo número de homens solteiros, já ouvi relatos que falavam numa população de cerca de oitocentas prostitutas naquele local de bares e diversão. Exagero. Os candangos se identificavam tanto com a figura, quase mítica, de JK que muitos garantiram que o viram por lá. Conversa. JK apreciava, sim, o gênero feminino, mas não era doido de se expor em tal lugar. Mais: diziam que JK tinha até suas preferidas, alimentando o mito do homem dos três emes: macho, mineiro e médico. Hoje lá não tem mais placa, não tem mais oficina da Mercedes Benz.

Plano Piloto ou Brasília? “Vou ao Plano” é o mesmo que dizer “Vou ao centro histórico de Brasília?” Não é tão simples assim. Plano Piloto é só a área do aviãozinho? E a Octogonal? E a Vila Planalto? E o Cruzeiro? Os Lagos Sul e Norte? São parte do Plano Piloto? Começou a confusão. Afinal, onde fica Brasília? Lembre-se que as placas dos automóveis no Distrito Federal não circulam com os nomes Planaltina, Taguatinga ou São Sebastião. É tudo Brasília. Quando se está fora do quadradinho as pessoas dizem: vou a Brasília. As cidades em volta do Plano Piloto seriam então super-bairros? E o Plano Piloto apenas um bairro a mais? “Ah, mas eu sou taguatinguense”, revela o saudável sentimento nativista crescente das antigas cidades-satélites. E o Entorno? Não. Fale “região geoeconômica”, mas o termo, mesmo pejorativo, pegou. Desisto. Este verbete mais confunde que explica. Vai na contramão da racionalidade de Brasília. Faltou um Plano... 122 123

Poder “Em Brasília existem pessoas do poder e pessoas de poder”, disse o artista plástico Bené Fonteles. Não, a gente não cruza com o presidente da República no supermercado, não encontra o ministro no posto de gasolina, não topa com o senador no churrasquinho da esquina. Em Brasília, os poderosos, os do poder, se escondem.

Poeira e Batom Esse é o título de um belo documentário que virou livro, escrito por Tânia Fontenele Mourão e Mônica Ferreira Gaspar de Oliveira, ambas nascidas em Brasília. A saga da construção já foi inúmeras vezes contada por homens. Agora com a palavra, as pioneiras, verdadeiras candangas, que aqui chegaram entre 1956 e 1960. Maravilha de livro, vídeo forte e sensível.

Poética do Cerrado Livro de arte inédito onde o artista e educador Rômulo Andrade propõe diálogos entre as artes visuais e a poesia. Reúne obras de três gerações de artistas brasileiros, evocando a força de vida e a beleza do bioma Cerrado.

Pombal de Dona Eloá Dona Eloá, a esposa do presidente Jânio Quadros, pediu ao Niemeyer um ninhal para as pombas da Praça dos Três Poderes. Aquele monumento (!), que mais parece um prendedor de roupa, foi a única obra que Jânio Quadros fez em Brasília nos 207 dias do seu mandato, pois renunciou.

Ponta de picolé Vendo. Excelente oportunidade. Diretamente com o proprietário. Preço de ocasião. Localização privilegiada. Só o brasiliense sabe do que se trata esse anúncio. Ponta de picolé é a unidade imobiliária localizada na extremidade que dá para o Paranoá nos conjuntos habitacionais dos Lagos Sul e Norte. Tem o terreno em formato retangular de um sorvete solidificado, o picolé.

Pontes A ponte JK, sobre o lago Paranoá, não é terceira ponte, como muitos dizem, mas sim a quarta. Senão vejamos: a primeira, do Bragueto; a segunda, das Garças; a terceira, Costa e Silva e finalmente a quarta, ponte JK, por muitos ainda chamada de “Ponte dos Remédios”. É que na época de sua construção foram usados recursos destinados à área de saúde do DF para concluí-la, daí o apelido.

Presidente Bossa Nova De Juca Chaves: Bossa nova mesmo é ser presidente / Desta terra descoberta por Cabral / Para tanto basta ser tão simplesmente / Simpático, risonho, original. // Depois desfrutar da maravilha / De ser o presidente do Brasil, / Voar da Velhacap pra Brasília, / Ver a alvorada e voar de volta ao Rio. // Voar, voar, voar, voar, / Voar, voar pra bem distante, até / Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas / Dançam como debutante, interessante! // Mandar parente a jato pro dentista, / Almoçar com tenista campeão, / Também poder ser um bom artista exclusivista / Tomando com Dilermando 124 umas aulinhas de violão. // Isto é viver como se aprova, / É ser um presidente bossa nova. / Bossa nova, muito nova, / Nova mesmo, ultra nova!

Presidentes Curiosidades sobre três presidentes depois de JK. Jânio Quadros: gostava de ficar no Palácio da Alvorada vendo filmes de faroeste e tomando uísque de canudinho em garrafas de guaraná Antárctica. Se o filme era ruim, saía de fusca, sozinho, em disparada, de madrugada, pelos eixos de Brasília. João Goulart: preferia passatempos mais amenos – nos fins de semana ia pescar com os amigos no rio São Bartolomeu. E Castelo Branco: foi o único presidente da República que morou na Vila Planalto, numa bela casa de madeira. Por um curto período, com a filha.

Pressa O trem de alta velocidade entre Brasília e Goiânia foi apelidado de Expresso Pequi, nome que constava até em documentos oficiais. Seriam 210 km percorridos em 1 hora e 30 minutos, ou seja, a 180 km/h. Anunciado em 2009 numa ação conjunta do Estado de Goiás e o Governo do Distrito Federal, o Expresso Pequi nunca saiu do papel, tendo consumido milhões de reais em projetos e consultorias. Agora aquela perguntinha: pra que tanta pressa para chegar a Goiânia?

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