A nova política e um novo fazer para o Brasil

Beto Albuquerque*

Seja a mudança que você quer ver no mundo
Gandhi

Sistemas entram em colapso quando não circulam. Emperram, congestionam e perdem o prazo de validade se não forem legitimados. Sistemas são remexidos quando não acompanham as demandas do tempo ou diminuem suas relações com as bases e seus princípios fundadores. Isso serve para governos, partidos políticos, empresas e organizações civis. Ao perderem o fio de contato com seus canais de interlocução eclodem alertas com graus variados de atenção. Prova de que os sistemas, quando vitais, também podem se regenerar.

As reivindicações que sacudiram as ruas de junho, mesmo difusas, sem comandos nos moldes das lideranças tradicionais, todas convergem para o alerta veemente de uma crise sistêmica que pretende chegar o mais próximo possível da raiz dos problemas: não basta a democracia representativa; deseja-se uma democracia efetiva comprometida com a cidadania participativa, visível em serviços de qualidade, fundamentada em ética vivenciada, aberta em seus processos de decisão com mecanismos e ferramentas que permitam o amplo acesso a informações. O país exige por uma nova forma de ser e agir dos agentes políticos, com ética, transparência e sentimento coletivo de zelo com coisa pública a serviço do coletivo.

O país vive crises na afirmação de sua identidade institucional: 1 - a população não vê legitimidade na grande maioria de seus representantes e no sistema político cheio de vícios; 2 - a sociedade acha que não há zelo na gestão do dinheiro público, onde corruptos e corruptores raramente são punidos e, 3 - há uma crise na qualidade dos serviços públicos, principalmente na educação, saúde e transporte público.

O choque na gestão pública é urgente e evidente. Há um clamor de demandas reprimidas ou desviadas no atendimento tanto na escala macro das grandes linhas quanto no cotidiano mais simples da vida comum. Um choque a exigir outros olhares sobre velhas questões, novas posturas e estratégias com reflexos diretos na atitude do gestor. Mudança de atitude para estabelecer outros códigos na administração. Abrir janelas para receber, de fora, ventos férteis com novos pontos de vista. Diminuir o tempo das falas de cima para baixo no exercício plenipotente das “verdades prontas” e aumentar o tempo de escuta dos cidadãos em respeito permanente de troca, pertencimento e compartilhamento.

Mudança de atitude na administração é começar, por exemplo, por combater a burocracia que imperra o Estado. Ela é a arma dos incompetentes e irmã dos mal intencionados, fonte de corrupção e malversação dos recursos públicos. Precisamos fortalecer e consolidar as carreiras de Estado, preenchidas mediante concurso público, onde o mérito se sobrepõe aos apadrinhamentos.

O impacto atual vai além da reflexão e determina a execução de medidas concretas que hibernavam e, enfim, entraram nas agendas do Estado e da sociedade. O cidadão está cansado da velha politicagem, fisiológica e casuística, onde o interesse público passa longe e o privado é o que prevalece. A velha política feita com o umbigo, ou pior, o bolso deve ser trocada pela nova política, de corações e mentes sintonizadas com o sentimento de inclusão produtiva, transparência e justiça social.

O nosso sistema político atual é lento e pouco irrigado pelo fluxo de vitalidade que vem das ruas. Precisamos desconstruir a velha república. Este é um processo que começa por dentro e exige uma nova atitude de cada um de nós. Os ventos não querem só mudanças de personalidades. O vendaval quer mudança de comprometimento no exercício de uma nova política com a visão da vida em primeiro plano e o valor do humano inspirando suas práticas.

A vida não para, quando a impedem: dispara!

* Beto Albuquerque é líder do PSB na Câmara dos Deputados.

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