A morte de Frei Tito e o desfile de tanques no 10 de agosto

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.”

A frase do filósofo irlandês Edmund Burke abre este texto como expressão de uma angústia que, sei, não me é particular. Muitos, como eu, estão incomodados ao ver pessoas, insanamente, defendendo a volta do regime militar ao Brasil, sem ter a mínima noção do que ocorreu no período de trevas da ditadura que aqui se instalou com o golpe de 64. Regime defendido e até homenageado pelo mandatário do atual desgoverno do Brasil.

Trago esse tema não pela despropositada tentativa de intimidação às instituições com o desfile de tanques na Esplanada dos Ministérios na última terça-feira, mas sim porque exatamente essa data de 10 de agosto marcou o aniversário de 47 anos da morte de Frei Tito de Alencar Lima, meu conterrâneo cearense, frade dominicano que foi vítima das mais violentas e inimagináveis atrocidades patrocinadas pelos porões da ditadura.

E aqui destaco o texto por ele escrito, quando decidiu denunciar os horrores das torturas, a marca registrada do regime ditatorial: “É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram tortura. Muitos, como Schael Schreiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. (…) Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite, amanhã, a triste notícia de mais um morto sob torturas”.

O 10 de agosto de 2021 marcou os 47 anos da morte de Frei Tito, ocorrida na França, em meio às alucinações e sequelas provocadas pelas torturas sofridas quando de sua prisão no Brasil, sob a acusação de organizar o clandestino 30° Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), em 1968. Frei Tito é um mártir brasileiro, um herói na luta pelas liberdades democráticas na história do nosso País.

Ao lado de outros frades dominicanos como Frei Betto, Frei Ivo e Frei Fernando, Tito encarnou o evangelho do Cristo na sua mais extensa expressão. Foram 14 meses de prisão, sofrendo as mais violentas torturas e as mais degradantes violações.

O que Frei Tito escreveu sobre a tortura que viveu na prisão tornou-se documento símbolo da luta pelos direitos humanos. Libertado em dezembro de 1970, o religioso cearense foi incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, que havia sido sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Banido do Brasil, passou pelo Chile, Itália até ser acolhido no Convento dominicano Sainte-Marie de La Tourette, na França. Sua luta contra a ditadura militar custou-lhe a vida. Frei Tito não suportou a dor do exílio e nunca superou as cicatrizes que marcaram sua alma como efeito colateral das torturas físicas sofridas no cárcere.

Agora, 47 anos depois da morte de Frei Tito, temos no Brasil um governante que faz a apologia da tortura como profissão de fé, que enaltece torturadores como heróis nacionais e ainda os premia com promoções indevidas para melhorar as pensões pagas a familiares dos mesmos violadores de direitos e executores de torturas.

Aqui, creio ser necessária uma reflexão profunda sobre o presente e o futuro de nossa Nação. Chegamos a um ponto de inflexão (como definem os físicos) onde podemos definir o que queremos para o Brasil e para a nossa gente. Não resta nenhuma dúvida que o obscurantismo e a degradação humana na defesa de valores para a convivência democrática chegaram ao seu ápice.

É a apoteose dos horrores, é a própria negação à vida, nas mais diversas expressões, seja na ignorância científica, nos orçamentos paralelos para a cooptação parlamentar ou mesmo na falta de empatia e o mínimo sentimento de humanidade.

O nosso Ceará, conhecido como a Terra da Luz pelo ato pioneiro da abolição da escravatura, nos emprestou o exemplo de vida de Frei Tito, um ofício de fé e amor ao próximo. O ensinamento bíblico nos remete à percepção de que “prova de amor maior não há do que doar a vida ao seu irmão”. Foi o que fez Frei Tito. É o que nega, peremptória e recorrentemente, o atual governante da nação. O que estamos vendo atualmente está a desafiar, cotidianamente, a todos nós, naquilo que podemos refletir: apostar na vida ou na morte, espelhar o amor ao próximo ou destilar o ódio visceral, inspirar para a ação do bem ou conduzir para a militância do mal.

O Brasil está nesta verdadeira encruzilhada. Só nos resta definir qual lado da história queremos protagonizar: buscamos a inspiração humanitária de Frei Tito ou capitulamos e perdemos a oportunidade de correção de rota na condução dos destinos do País, como verdadeiros cúmplices deste modelo torpe e inumano de querer governar pelo ódio e pela mentira?

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