À luz da Inspiração

Marivaldo Pereira e Teresa Cristina*

Negro acorda

é hora de acordar

Não negue a raça

Torne toda manhã dia de graça

(Dia de Graça - Candeia)

 

No dia 20 de novembro é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra. A data deste ano é a mais importante desde sua instituição, pois é o momento de refletirmos sobre as inúmeras ameaças proferidas e defendidas por aqueles que lideram a onda extremista que se espalhou pelo país. São ameaças que nos prometem um cenário sombrio pela frente, no qual as mazelas causadas ao nosso povo pelo racismo estrutural serão aprofundadas para nos excluir ainda mais.

As feridas da escravidão do povo negro jamais foram devidamente tratadas pela nossa sociedade. A abolição da escravatura não foi sucedida por qualquer tipo de política pública ou processo de inclusão social e as consequências deste fato se fazem presentes até hoje. A maioria dos desempregados são negros.[1] O salário médio dos negros é quase a metade dos salário dos brancos.[2]

A renda de mulheres negras equivale a 42% da renda de homens brancos. Em 2016, a taxa de analfabetismo entre negros era de 11%, enquanto a de brancos era de 5%. No mesmo ano, 70,7% dos brancos com mais de 14 anos frequentavam a escola, enquanto a taxa entre negros era de pouco mais de 50%.[3]

O percentual de negros no ensino superior equivale a menos da metade daquele verificado entre os jovens brancos, apesar de o acesso de negros ter quase dobrado entre 2005 e 2015, graças à implementação das políticas de cotas. Na idade em que deveriam estar na faculdade, 53,2% dos negros estão cursando o nível fundamental ou médio.[4]

É também a população negra a maior vítima dos homicídios em nosso país, registrando uma taxa duas vezes e meia superior àquela registrada entre não negros. De 2006 a 2016, a taxa de homicídios entre negros cresceu 23,1%, enquanto entre não negros caiu 6,8%. Entre as mulheres, a taxa de homicídios subiu 15,4% entre as negras, enquanto caiu 8% entre as não negras.[5] São também os negros as principais vítimas da violência policial, com mais de 76% dos mortos pela polícia em 2016.[6]

Diante de governantes que nos equiparam a animais, que pregam contra as religiões de matrizes africanas, que são contra as políticas afirmativas, contra o direito dos quilombolas às suas terras e que defendem abertamente os grupos de extermínio e as execuções sumárias, agora é o momento de resgatarmos a memória daqueles que construíram nossas histórias de lutas e de conquistas para nos organizarmos e fazer frente a este momento político.

Mais do que nunca, é hora de falarmos da luta de Laudelina de Campos, fundadora do primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do Brasil e uma das lideranças responsáveis pela garantia de direitos aos empregados domésticos entre nós.[7]

De falarmos de Tereza de Benguela, líder quilombola do século XVIII no Mato Grosso,[8] e de Maria Firmina dos Reis, nascida em São Luís do Maranhão e considerada a primeira escritora brasileira, pioneira na crítica antiescravista no século XIX.[9] De nos inspirarmos em Dandara dos Palmares, que lutou contra o sistema escravocrata no século XVII ao lado de Zumbi dos Palmares,[10] cuja liderança é símbolo da nossa luta.

É o momento gritarmos bem alto: Marielle, presente! E de darmos seguimento à luta de nossa jovem vereadora cruelmente assassinada em razão da sua luta pelos direitos dos moradores das comunidades, pelos direitos das mulheres e pelos direitos do nosso povo negro.

A história do nosso povo é uma história de luta. Luta pela sobrevivência, para dar um futuro melhor aos nossos filhos, para romper com as correntes do passado e do presente que insistem em nos manter excluídos.

Mais do que nunca é hora de tomar consciência. Consciência de que é necessário nos organizarmos para resistir, de que devemos nos unir e retomar o diálogo com o nosso povo mostrando que ele é o verdadeiro alvo da violência, dos cortes de gastos, da intolerância e do ódio propagado pelos governantes eleitos na onda do extremismo.

A exemplo daqueles que se levantaram diante das injustiças praticadas contra nosso povo em diversos momentos da nossa história, é nosso dever estar na linha de frente na defesa dos direitos e conquistas da população negra num momento político tão sombrio.

*Teresa Cristina é cantora e compositora. Twitter: @1teresacristina. Instagram: @teresacristinaoficial

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[1] https://g1.globo.com/economia/noticia/637-dos-desempregados-no-brasil-sao-pretos-ou-pardos-aponta-ibge.ghtml

[2] https://g1.globo.com/economia/noticia/negros-ganham-r-12-mil-a-menos-que-brancos-em-media-no-brasil-trabalhadores-relatam-dificuldades-e-racismo-velado.ghtml

[3] http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-11/educacao-reforca-desigualdades-entre-brancos-e-negros-diz-estudo

[4] http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-12/percentual-de-negros-em-universidades-dobra-mas-e-inferior-ao-de-brancos

[5] http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2018/06/FBSP_atlas_violencia_2108_Infografico.pdf

[6] http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2018/10/ANUARIO_11_2017.pdf

[7] https://www.geledes.org.br/laudelina-campos-de-melo-heroina-negra-que-lutou-para-garantir-direitos-as-domesticas-no-brasil/

[8] https://www.geledes.org.br/tereza-de-benguela-uma-heroina-negra/

[9] https://www.geledes.org.br/quem-foi-maria-firmina-dos-reis-considerada-primeira-romancista-brasileira/

[10] https://www.geledes.org.br/dandara-a-face-feminina-de-palmares/; https://www.ceert.org.br/noticias/genero-mulher/9467/negros-no-brasil-quem-foi-dandara-dos-palmares

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