A inveja e a mesquinharia

Dia desses deparei-me com curiosa frase de Machado de Assis: “Está morto, podemos elogiá-lo à vontade”. Eis aí um daqueles conjuntos de palavras que instigam a mente – e assim lá fui eu viajar pelos tempos afora, buscando aquela iluminação que só a memória traz.

Comecei na Grécia clássica, recordando Sócrates – com quem o conhecimento humano tem um imenso débito. Foi ele a nos mostrar como usar a razão, um dos precursores da lógica e criador da dialética. Sua obra filosófica ainda hoje nos cativa. Porém, a humanidade foi ingrata com seu filho ilustre: de 500 homens livres sorteados entre a população de Atenas, 360 votaram por sua morte. E ei-lo tomando cicuta, vítima da mais refinada mediocridade.

E que dizer de Pitágoras? De seu famoso teorema à introdução da prova na matemática, da descoberta dos números irracionais aos seus estudos filosóficos, tínhamos nele um gênio – que morreu exilado no distante Metaponto, dizem alguns que até queimado vivo em um incêndio provocado por manifestantes.

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Não nos esqueçamos de Galileu. A este devemos o aprimoramento do telescópio e obras fabulosas sobre mecânica e astronomia – que, sem medo de errar, deram vigoroso impulso a uma verdadeira revolução científica que se alastraria na Europa, com reflexos até os nossos dias. Porém, também aqui fomos ingratos: Galileu morreu pobre, cego e em prisão domiciliar.

Há também um certo Alan Turing, a quem devemos o desenvolvimento do computador – inclusive do que decodificou os códigos secretos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, permitindo a vitória da liberdade. Em reconhecimento pelo imenso bem que fizera à Humanidade, foi processado por homossexualidade e acabou cometendo suicídio um pouco antes de completar 42 anos de idade.

Lembra das chapas de raios-x, que tantas vidas salvam? Foram fruto do trabalho de Wilhelm Conrad Röntgen. Detalhe: ele recusou-se a patentear qualquer coisa relacionada com a produção ou o uso de raios-x, acreditando que eles deveriam ser usados para o benefício da Humanidade. Morreu pobre, lá na Alemanha, desamparado pelo povo a quem tanto orgulho dera – e dá.

Do outro lado do planeta, temos o exemplo de Kung-fu-tsé – que conhecemos como Confúcio. Ao longo de sua existência produziu reflexões magníficas sobre como é possível conduzir a vida sem recorrer à especulação metafísica. Seus ensinamentos ainda hoje, passados já dois mil e quinhentos anos, encantam. Paradoxalmente, passou a vida buscando – sem sucesso – empregar-se de forma estável em algum lugar, qualquer que fosse. Morreu melancolicamente, amparado apenas por seus discípulos.

Na Itália, Nicolau Maquiavel recebeu como paga pelos textos eternos que escreveu morrer miserável, assistido apenas por alguns poucos amigos. Na Espanha, Cristóvão Colombo morreu na mais completa pobreza – uma recompensa por ter proporcionado à raça humana a descoberta da América. No Brasil, Landell de Moura inventou o rádio, transmitindo a voz humana dois anos antes de Marconi transmitir meros sinais telegráficos – para ter sua invenção destruída por brasileiros que o acusaram de ser bruxo e até louco.

Após este devaneio pelos tempos passados retornei ao presente com uma nota de pesar no coração, pensando no quanto custa a mediocridade ao desenvolvimento da raça humana. Concluí, absolutamente convicto, que Machado de Assis tinha razão e que, perdoando a tosca rima, homem bom, correto e honrado, só muito velho ou enterrado!

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