A farra no Reino Unido e no Brasil

Três assuntos diferentes e sem conexão entre si. Em comum, apenas o fato de serem, na modesta opinião do acima assinado, temas interessantes e dignos de atenção. Junto-os aqui num texto só, na esperança de obter a sua. Vamos nessa...



A farra lá e cá   



O jornalista André Petry, que já chefiou a sucursal da Veja em Brasília e hoje é correspondente da revista em Nova York, dá uma excelente contribuição para a análise do comportamento do Congresso Nacional em relação à farra das passagens aéreas, que o Congresso em Foco revelou com exclusividade em uma série de reportagens, publicadas ao longo dos últimos meses.



Na última edição de Veja, em texto com o título “Farra comparada”, Petry faz uma analogia entre os abusos cometidos pelos parlamentares brasileiros no uso da cota de passagens e o recente escândalo que atingiu o Parlamento britânico, deflagrando, conforme o jornalista, “a maior crise” dos seus 700 anos de existência. O caldo entornou nas terras de sua majestade quando o jornal The Daily Telegraph começou a mostrar como os membros da Câmara dos Comuns vinham utilizando a verba de moradia, paga com dinheiro público. Os recursos foram gastos em coisas como aluguel de filmes pornográficos, aquisição de móveis, pagamentos de serviços em suas casas particulares ou mesmo foram discretamente embolsados, a pretexto de pagar hipotecas já quitadas.



André Petry destaca algumas semelhanças entre os dois casos: “A exemplo da farra brasileira das passagens aéreas, em que mais de 250 deputados fizeram turismo no exterior à custa do contribuinte, o escândalo inglês também não faz discriminação partidária. Pegou trabalhistas, conservadores e democratas liberais. Até os cinco deputados do Sinn Fein, partido republicano irlandês, que se recusam a assumir a cadeira no Parlamento, não se recusaram a meter a mão no dinheiro. Alugaram três casas em Londres, todas da mesma família, pagando 11.500 reais por imóveis que não valem 4.500”.



E sublinha as diferenças entre o tratamento dispensado aos fatos pelo Parlamento britânico e pelo Congresso dos peemedebistas Michel Temer (SP) e José Sarney (AP). O presidente da Câmara dos Comuns, Michael Martin, renunciou ao cargo na última terça-feira (19) “porque, sendo presidente da Casa, tinha responsabilidade pela bandalheira, além de ser conhecido pela infinita tolerância com gastos abusivos”, relata Petry. Ele continua:



“Em Londres, os envolvidos vêm sendo punidos com a proibição de se candidatar à reeleição por seus líderes partidários, a opinião pública está indignada e estuda-se mudar a gestão do Parlamento. (...) uma comissão independente do Parlamento pode ficar encarregada de definir as normas dos gastos. Em Brasília, todos que usaram as passagens aéreas em benefício pessoal estão anistiados, ninguém foi criticado por líder nenhum, a opinião pública parece mais cansada do que indignada e estuda-se uma regulamentação mais clara para o uso das passagens. É melhor do que nada. Mas falta debater medidas que, indo ao fulcro da questão, resultem em instituições cujo funcionamento independa da boa vontade e da honestidade de uns e outros. Uma comissão independente para fazer as normas, como se estuda na Inglaterra? Um órgão externo para fiscalizar o Congresso administrativamente, como já acontece na Justiça? Sem uma discussão fértil, desperdiça-se o potencial pedagógico dos escândalos. Na Inglaterra, pode-se antever que o caso resultará num Parlamento melhor, ou menos galhofeiro. No Brasil, é uma pena que não se possa dizer o mesmo”.



Respeitosamente, pergunto aos presidentes da Câmara e do Senado: Srs. Temer e Sarney, vossas excelências estão mesmo determinadas a se tornarem os maiores pizzaiolos da história da nossa república? Aqueles que, na sanha de poupar os que torraram milhões pelos céus do planeta, não se importam em produzir não uma pizza, mas uma pizzaria inteira!? Em caso negativo, o que estão esperando para investigar quem desviou o dinheiro dos contribuintes para atender a interesses particulares? 



Silvio Santos e Maisa



Para quem não viu, eis os vídeos dos programas em que o empresário e apresentador de TV Silvio Santos desrespeitou a artista mirim Maisa, uma das estrelas da programação do SBT. No primeiro deles, Silvio faz a menina chorar ao chamar ao palco um garoto mascarado. No outro, expõe cruelmente a menina, chegando a chamá-la de “medrosa” em coro com o seu robotizado auditório, sempre às ordens para obedecer à vontade do “patrão”.



No último dia 22, data em que Maisa completou sete anos de idade, a Vara da Infância e da Juventude de Osasco (SP) proibiu o SBT de gravar ou exibir qualquer participação da apresentadora no Programa Silvio Santos. Segundo a emissora, porém, Maisa continua liberada para fazer seus dois programas infantis.



Acho muito estranho esse negócio de se permitir o trabalho de crianças, ainda mais tão novinhas assim. Intriga-me o comportamento dos pais que sujeitam seus filhos a situações que podem trazer sérios danos emocionais, e até físicos, ao seu amadurecimento. Podem me chamar de careta, e careta é certamente o que a cada dia eu mais sou, mas neste assunto mantenho a opinião dos meus pais e avós: criança tem que brincar e aprender, não trabalhar.



Zé Rodrix         



Na mesma sexta-feira 22, morreu aos 61 anos o músico Zé Rodrix, com quem fecho este mosaico. E o faço trazendo Elis Regina pra este diversificado bonde do Bezerra. Elis aparece neste vídeo, gravado em 1972 pela TV Globo e disponível no You Tube, cantando “Casa no Campo”, o maior sucesso de Zé Rodrix. A edição também inclui trecho de uma entrevista da cantora, falecida em janeiro de 1982.



Quando gente de talento vai embora, sabemos que ficam “coisas”. Coisas que marcam e inspiram. É um conforto apreciá-las, podendo reforçar o espírito e perseguir a sabedoria, até pra espantar o medo causado pelos Temers e Sarneys de plantão.

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