A crônica não anunciada do colapso neoliberal

O colapso do neoliberalismo tornou-se crônico e, só não se anuncia oficialmente, devido à oposição da mídia hegemônica que detém o monopólio da negação do óbvio, dificultando a saída da crise e tornando o debate uma farsa, um jogo de cartas marcadas. Esta é a posição do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos debatedores que, esta semana em Sampa, discutiram no Seminário “Neoliberalismo, um colapso inconcluso”, promovido pela Carta Maior e PUC-S.Paulo, e que contou com a participação ainda de Emir Sader (Uerj), Samuel Pinheiro Guimarães (Itamaraty), Ignacy Sachs (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais - Paris), Ladislau Dowbor (PUC-SP), entre outros.

E Belluzzo vai mais longe ao afirmar que o consenso em torno de certas ideias de dominância financeira – idéias que estão na origem da atual crise – não seria possível sem sua difusão massiva pela mídia. Não se trata de uma teoria conspiratória. Isso se deu através de um processo social em que as camadas dominantes impõem as idéias dominantes (como eu mesma já afirmei em várias colunas).

Ele adverte que não se pode perder a dimensão da luta social, como ela se desenvolve e como maneja os símbolos, os significados, as palavras. Tome-se como exemplo da queda da taxa de juros brasileira: isso produziu espanto em certos jornalistas, em outros, indignação. As mais escandalizadas foram aquelas pessoas que sempre ouviram o contrário, “que era um perigo, que seria a ruína”. O fato é que as ideias têm uma força material enorme  – a força material das idéias dominantes.

O sociólogo Norberto Elias afirmava – e com razão – que é muito difícil desconstruir um consenso como este, daí o papel crucial da luta social e política. Ou alguém ainda acha que a crise vai se resolver automaticamente por si própria? Não há tal magia. É preciso formular alternativas. A solução dita ‘normal' é previsível, segundo o economista americano Doug Henwood, que assina a newsletter sintomaticamente chamada 'Left Business Observer'.

Henwood foi encarregado de escrever sobre Wall Street, antes e depois da crise. É muito fácil, diz ele: Antes da crise, Wall Street era o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Depois da crise, Wall Street continua sendo o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Não é estranho? Como se Wall Street NÃO FOSSE o próprio centro do furacão!

Henwood comenta que um repórter que te entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses interesses aqui e ali, hesita em publicar, e se o faz, enche o texto de ressalvas. Afinal, esse jornalista – que não sabe pensar por si mesmo – foi condicionado durante anos a repetir sempre o mesmo mantra. A seguir a cartilha neoliberal como única fonte de pensamento (do Pensamento Único, claro).

Aliás, o neoliberalismo foi a ideologia mais bem sucedida da História Mundial, e por várias razões, sobretudo a partir do monopólio tecnológico - não é que seja boa ou dê certo, a não ser para os ricos; ao contrário, ideologicamente, é desastrosa, suicida e perversa, tanto para o homem como para o planeta.

Belluzzo conclui que o problema da mídia  no mundo inteiro é o monopólio das empresas que veiculam a visão dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo, havia uma mídia diversificada, que expressava posições políticas distintas, como 'Avanti!', 'La Unità'. Havia debate político. Hoje não há debate: o que você tem é uma farsa!

Falando em farsa e pra não dizer que não falei dos onze anos do Onze de Setembro e sua Fajutíssima Gerra ao Terror – cruzes, fazem onze anos que a multiplicação de trouxas no mundo tem crescido de forma exponencial! – arremato com algumas conclusões de Slavoj Zizek (constantes em “Bem-Vindo ao Deserto do Real!”) que afirmava já em 2001: a verdadeira catástrofe político-ideológica do 11 de Setembro foi européia (confirmando a diversidade jornalística também européia aludida por Belluzzo) – o resultado do 11 de Setembro foi um fortalecimento sem precedentes da hegemonia americana em todos os aspectos. E a Europa sucumbiu à chantagem ianque: “O que está em jogo agora não são diferentes opções econômicas ou políticas, mas nossa própria sobrevivência – na guerra ao terrorismo, ou vocês estão conosco ou estão contra nós”.

Esta é a verdade da globalização: pós-Berlim, a construção de novos muros isolando os europeus prósperos do fluxo de imigrantes. Tem-se a tentação de ressuscitar aqui a velha oposição “humanista” marxista entre “relações entre coisas” e “relações entre pessoas”: na celebrada livre circulação aberta pelo capitalismo global, são as “coisas” (mercadorias), é o dinheiro que circula livremente, ao passo que a circulação de “pessoas” é cada vez mais restrita.

"O que “eles” (norte- americanos e europeus adesistas) não contavam era com a Crise de 2008 e com a ainda pior que vem por aí. E respondendo a uma colunista (cujo nome realmente me escapa, porque não dou cartaz pra trouxa) aqui do Congresso em Foco: Banco Central independente “de quem”, cara pálida? BC independente do governo do próprio país – isto é, de qualquer governo de qualquer país –, ergo sob a égide dos EUA. Me poupe. Tás igualzinha àquele “jornalista-autista” retro referido por Doug Henwood da 'Left Business Observer'. Pra seu governo, a única liberdade, seja de país,seja pessoal, é a econômica (os americanos que o digam!). Desatrelar (e desregular) o BC das leis federais é entregar o país novamente ao bom e velho Consenso de Washington!

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