A China, a revolução solar (…e nós?)

Em menos de dois anos, a China tornou-se líder no mercado internacional de energia solar. Em 2010, passou a dominar 50% do mercado e estima-se que até o final deste ano possa chegar a 65%. As consequências dessa investida foram particularmente sentidas nos EUA com a falência de vários fabricantes de painéis solares, entre as quais a Solyndra, da Califórnia, que recebera subsídios do governo federal muito criticados pelos republicanos que defendem os interesses das empresas de petróleo e carvão. O governo norte-americano está acionando a China na Organização Mundial de Comércio (OMC), evocando empréstimos em condições especiais de bancos estatais, terrenos públicos cedidos a essas indústrias e outros apoios que, afinal, nada têm de muito diferente daquilo que a China vem fazendo em outros setores e que lhe permite, junto com seu ainda baixo custo de mão de obra, estabelecer preços altamente competitivos.

No caso solar, sua queda média nos preço de painéis foi de 42% desde o ano passado e está prestes a vencer aquela histórica barreira que tornava a energia solar economicamente pouco competitiva frente a energias sujas como o carvão. Na China, o quilowatt solar ainda custa o dobro, mas as curvas estão convergindo rapidamente na medida em que o solar cai e o carvão – que a China já começa a importar –  aumenta. Visitei duas destacadas fábricas solares chinesas. A Shanghai Solar e a Yngli, perto de Pequim. A primeira pertence à empresa aeroespacial chinesa e seu forte é pesquisa e inovação. Monta as placas com modelos diferentes de fotovoltaicas poli e mono cristalinas.

Já a Yngli, a segunda maior da China, controla praticamente todo o ciclo fotovoltáico: processa pedras de silício recém-mineradas em blocos compactos que refinam, purificam e realham para produzir as células mono e poli cristalinas que transformam a luz do sol em eletricidade. Logo, com seus robôs, a uma velocidade alucinante, monta-as em painéis famosos no mercado pela sua confiabilidade. A Yngli é totalmente privada e comandada manu militari por Miao Lian Sheng, um peculiar capitão de indústria, amigo do presidente Hu Jintao. Ex-oficial, Miao conserva um tanque no pátio de sua fábrica e bota seus operários em ordem unida. Todos usam o uniforme azul marinho da empresa com garbo. Em 2008, a empresa produzia menos de 20 megawatts/hora em painéis, sua produção de 2012 está programada para chegar a 1.7 gigawatts/hora, este ano, e 2,7 em 2012. Vem investindo constantemente em inovações para aumentar o rendimento e a vida útil das células fotovoltáicas, bem como no armazenamento cada vez mais eficiente de energia solar. Fui apresentado ao Flyweel, um cilindro com dispositivo de rotação em altíssima velocidade que substitui as baterias, um ponto vulnerável das instalações solares atuais.(mais detalhes abaixo)

Senti inveja... O Brasil, com suas condições de insolação privilegiadas e abundante disponibilidade de silício de boa qualidade, deitado em berço esplêndido enquanto Alemanha, Espanha, EUA e China passaram a investir e competir no solar, quer em usinas quer – no que me parece ser seu uso mais adequado – na aplicação urbana, descentralizada, em telhados e fachadas, conectadas a uma rede elétrica “inteligente” ou servindo diretamente às edificações. Ficamos vergonhosamente para trás. Já não há tempo para reinventar a pólvora e nos tornarmos competitivos em termos de produção de painéis. Também não parece o caso de adotarmos as tarifas feed-in que remuneram o solar até quatro vezes mais o preço da energia convencional. Já temos tarifas muito caras e também recursos de pesquisa e desenvovimento nas concessionárias que podem subsidiar o solar numa primeira fase.

Precisamos viablizar a produção distribuída nessas redes “inteligentes” capazes de receber a produção do consumidor, medi-la e abatê-la de sua conta de luz. As concessionárias deverão comprar essa produção pelo mesmo preço por quilowatt que lhe vendem a sua. Devemos estimular o solar nos equipamentos e edificações de apoio da Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e, de uma forma combinada com o aquecimento solar da água, em programas de habitação. O sol bate à nossa porta também. Vamos deixar que entre?

Veja vídeo sobre energia solar na China:

Relatório da visita à Ingly

(do relatório do Itamaraty, sobre minha visita à China)

A China é a maior fabricante mundial de painéis fotovoltaicos (aproximadamente 50% da produção global), ao passo que a Alemanha é o maior mercado, com capacidade instalada atual de aproximadamente 17 GW. O setor passa atualmente por momento decisivo devido a quatro fatores principais: ganho de escala, com a capacidade instalada mundial prevista para atingir 64 GW em 2011; rápida queda de custos de geração e dependência cada vez menor de subsídios (preço da eletricidade para consumidor final na Alemanha € 0,23-0,25/kWh; tarifa subsidiada € 0,30/kWh); baixa recorde do preço do silício, principal insumo para a produção de células fotovoltaicas (US$ 500/kg em 2008; US$ 35/kg em 2011); competição acirrada entre os principais fabricantes, que deverá levar à consolidação de poucos grandes conglomerados.

A Yingli é a quarta maior fabricante mundial de painéis fotovoltaicos, após a Suntech (CN), First Solar (US) e Sharp (JP). Listada na Bolsa de Nova Iorque, a empresa tem 21.000 empregados, ativos de US$ 4,8 bilhões e faturamento previsto de US$ 2 bilhões em 2011. Seus principais mercados são a Alemanha (60%), a China (20%) e os EUA (15%). A capacidade de fabricação de painéis fotovoltaicos da empresa, que atualmente corresponde a 1,7 GW por ano, está em rápida expansão, devendo chegar a 2,7 GW em 2012 e 5 GW nos próximos anos.

A Yingli enviou recentemente um funcionário para o Brasil, onde deverá permanecer por seis meses para estudar o mercado nacional. Respondendo a pergunta de colaborador meu, funcionários da empresa esclareceram que a Yingli não tem planos de investir na produção de células fotovoltaicas no Brasil (nem em qualquer outro país), preferindo concentrar toda sua produção na China.

Sob o aspecto tecnológico, a Yingli difere da maioria das demais fabricantes chinesas (incluive a Suntech) por dominar todas as etapas do processo produtivo. A empresa fabrica com tecnologia própria grande parte das lâminas de silício de alta pureza e espessura microscópica (180 micra) utilizadas na fabricação das células fotovoltaicas, principais componentes dos painéis de geração. O perfil inovador da empresa é reconhecido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MOST), que apoiou a instalação do primeiro laboratório de energia solar da China nas dependências da empresa, em Baoding.

Segundo funcionários da Yingli, a aposta fundamental da companhia na área de geração são as células fotovoltaicas de silício monocristalino e policristalino, tecnologias que, na visão da empresa, seguirão dominando o mercado pelo menos pelos próximos dez anos (a empresa não produz equipamentos com a tecnologia de “filme fino” [“thin film”], principal alternativa às células de silício). Os painéis de silício monocristalino e policristalino da Yingli apresentam eficiências de 16% e 14%, respectivamente, com vida útil de 25 anos, desempenho comparável ao dos melhores fabricantes mundiais.

No tocante às novas tecnologias atualmente em estudo, destacam-se os investimentos em sistemas de armazenamento de energia, essenciais para a superação dos problemas de sazonalidade associados à energia solar. A principal aposta nessa área são os volantes de inércia (“flywheels”), tecnologia alternativa às baterias que armazena energia mecânica em êmbolos que giram a alta velocidade levitando sobre campos magnéticos. Outro campo de estudo promissor são sistemas integrados que aproveitam o calor residual dos painéis fotovoltaicos para o aquecimento de água.

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