A chave do paraíso também serve no inferno

Ainda sobre os movimentos de massa, quero aqui discutir o pensamento de Slavoj Zizek, tal como formulado em artigo recente publicado no London Review of Books – a tradução é da turma da Vila Vudu.

Diz ele que os problemas e protestos dos últimos anos são sinais de que se aproxima uma crise global, logo não se tratam de simples obstáculos a serem ultrapassados com intervenções locais. O mais notável nas erupções é que estão acontecendo não nos pontos fracos do sistema, mas em pontos que, até aqui, eram percebidos como histórias de sucesso. Sabemos por que as pessoas protestam na Grécia ou na Espanha; mas por que há confusão em países prósperos e em rápido desenvolvimento como Turquia, Suécia ou Brasil?

Antes da atual onda de protestos, a Turquia era quente: modelo ideal de Estado estável a combinar pujante economia liberal e islamismo moderado. Pronta para a Europa, em contraste com a Grécia, mais “europeia”, só que presa num labirinto ideológico e andando rumo à autodestruição econômica. Sim, é verdade: aqui e ali sempre se viam alguns sinais péssimos (a Turquia, sempre a negar o holocausto dos armênios; prisão de jornalistas; o status não resolvido dos curdos; chamamentos a uma “grande Turquia” que ressuscitaria a tradição do Império Otomano; imposição, vez ou outra, de leis religiosas). Mas eram descartados como pequenas máculas que não comprometeriam o grande quadro.

E então explodiram os protestos na praça Taksim. Não há quem não saiba que os planos para transformar um parque em torno dessa praça no centro de Istambul em shopping center não foram o estopim naqueles protestos, porém um mal-estar muito mais profundo ganhava força.

Nesse ponto, Zizek analisa os movimentos no Brasil: “O mesmo se deve dizer dos protestos de meados de junho no Brasil: foram desencadeados por um pequeno aumento na tarifa do transporte público e prosseguiram mesmo depois de tal aumento ter sido revogado. Também nesse caso, os protestos explodiram num país que – pelo menos segundo a mídia mundial – está em pleno boom econômico e com todos os motivos para se sentir confiante quanto ao futuro. Nesse caso, os protestos foram aparentemente apoiados pela presidente Dilma Rousseff, que se declarou satisfeitíssima com eles.”

Aqui é engraçado como Zizek está certo & completamente errado!

Mas ele prossegue: “O que une protestos em todo o mundo — por mais diversos que sejam aparentemente — é que todos reagem contra diferentes facetas da globalização capitalista”.

Aí ele acerta na mosca!

O autor observa com precisão que é crucialmente importante não vermos os protestos turcos meramente como um levante da sociedade civil secular contra o regime islamista autoritário apoiado por uma maioria islamista silenciosa. O que complica o quadro é o ímpeto anticapitalista dos protestos: “Os que protestam sentem intuitivamente que o fundamentalismo de mercado e o fundamentalismo islâmico não se excluem mutuamente. A privatização do espaço público por ação de um governo islamista mostra que as duas modalidades de fundamentalismo podem trabalhar de mãos dadas. É sinal claro de que o casamento “por toda a eternidade” de democracia e capitalismo já caminha para o divórcio”. (Zizek também enxerga longe, não acham?).

Mas seu pensamento prossegue de forma sutil: também é importante reconhecer que os que protestam não visam nenhum objetivo “real” identificável. Os protestos não são “realmente” contra o capitalismo global nem “realmente” contra o fundamentalismo religioso nem “realmente” a favor de liberdades civis e democracia, nem visam “realmente” qualquer outra coisa específica. O que os que participaram dos protestos “sabem” é de um mal-estar fluido generalizado que sustenta e une várias demandas específicas.

A luta para entender os protestos não é apenas epistemológica, tipo articulistas e críticos tentando explicar seu “real” conteúdo: é também a luta ontológica pela própria coisa, pra dar nascimento a esta coisa fluída e ainda sem nome. É apenas outra luta contra governo/políticos/etc. corruptos? É luta contra governo islâmico autoritário? É luta contra a privatização do espaço público? Os maus serviços idem? A questão se mantém em aberto. Como for respondida, dependerá o resultado dum processo político em andamento.

Em 2011, quando irromperam protestos nos EUA, Europa e todo o Oriente Médio,  muitos não quiseram tratá-los como instâncias dum único movimento global. Em vez disso, argumentaram que haveria uma resposta específica para cada situação específica. É fácil ver o quanto essa particularização dos protestos serve bem aos defensores do status quo: não há nenhuma ameaça direta à ordem global como tal. Só uma série de problemas locais separados…

O capitalismo global é processo complexo que afeta diferentes países de diferentes modos. O que une todos os protestos, por diferentes que sejam, é que todos reagem contra as diversas faces da globalização capitalista. A tendência geral do capitalismo global é hoje expandir o mercado, invadir e cercar o espaço público, reduzir os serviços públicos (saúde, educação, cultura) e impor cada vez mais firmemente um poder político autoritário.

Contudo, nenhum desses protestos pode ser reduzido a uma única questão. Todos lidam com uma específica combinação de pelo menos dois problemas: um econômico (da corrupção à ineficiência do próprio capitalismo), e outro, político-ideológico (da demanda por democracia à demanda pelo fim da democracia convencional multipartidária).

O mesmo se aplica ao movimento Occupy. Na profusão de declarações (muitas vezes confusas), o movimento manteve dois traços básicos: 1) o descontentamento com o capitalismo enquanto sistema, não apenas contra a corrupção geral e/ou particular;

2) a consciência de que a forma institucionalizada de democracia multipartidária não tem meios para combater os excessos capitalistas.

Em outras palavras, é preciso reinventar a democracia. O fato de a causa subjacente dos protestos ser o capitalismo global não significa que a única solução seja “derrubá-lo”. Nem é viável seguir a alternativa pragmática, que implica lidar com problemas individuais enquanto se espera por uma transformação radical. Essa ideia ignora o fato de que o capitalismo global é necessariamente contraditório e inconsistente: a liberdade de mercado anda de mãos dadas com o fato dos EUA protegerem seus próprios agronegócios e agronegociantes; pregar a democracia anda de mãos dadas com apoiar o governo da Arábia Saudita etc.

Essa inconsistência abre um espaço para a intervenção política: onde o capitalista global é forçado a violar suas próprias regras, ali há uma oportunidade para insistir que ele obedeça àquelas regras. Exigir coerência e consistência em pontos estrategicamente selecionados, nos quais o sistema não pode pagar para ser coerente e consistente, é pressionar todo o sistema. A arte da política está em impor demandas específicas que, ao mesmo tempo em que são perfeitamente realistas, ferem o coração da ideologia hegemônica e implicam mudanças radicais.

Tais demandas, por mais que sejam viáveis e legítimas, são, de fato, impossíveis. Caso exemplar é a proposta de Obama para prover assistência pública universal à saúde. Por isso as reações foram tão violentas.

Um movimento político começa com uma ideia, algo por que lutar mas, com o tempo, a ideia passa por transformação profunda – não apenas alguma acomodação tática, mas uma redefinição essencial. Digamos que uma revolta comece com uma demanda por justiça, talvez sob a forma de demanda pela rejeição de uma determinada lei. Depois do povo estar profundamente engajado na revolta, ele percebe que será preciso muito mais do que a demanda inicial para que haja verdadeira justiça. O problema então é definir, precisamente, em que consiste esse “muito mais”.

Ficaríamos muito felizes se os políticos da extrema-esquerda nos EUA fossem capazes de reformar o sistema oferecendo assistência universal à saúde, redistribuindo efetivamente a riqueza mais equitativamente com um sistema tributário redefinido, restringindo o financiamento privado de campanhas eleitorais, autorizando o voto universal, tratando com humanidade os trabalhadores migrantes e levando a efeito uma política externa multilateralista que integrasse o poder dos EUA dentro da comunidade internacional, etc. Ou seja, intervindo sobre o capitalismo mediante reformas profundas, de longo alcance.

Não se trata de “derrubar” o capitalismo. Mas de construir lógicas de uma sociedade que vá além dele. Isso inclui novas formas de democracia.

Duas armadilhas a serem evitadas: o falso radicalismo (“o que realmente interessa é abolir o capitalismo liberal-parlamentar; todas as demais lutas são secundárias”) & o falso gradualismo (“no momento temos de lutar contra a ditadura militar e por democracia básica, todos os sonhos de socialismo devem ser, agora, postos de lado”).

Só uma política que tome plenamente em consideração a complexidade da sobredeterminação merece o nome de estratégia. Quando se embarca numa luta específica, a pergunta chave é: como nosso engajamento ou desengajamento nessa luta afeta outras lutas?

A regra geral é que quando uma revolta contra regime semidemocrático começa – como no Oriente Médio em 2011 – é fácil mobilizar grandes multidões com slogans (por democracia, contra a corrupção etc.). Mas muito rapidamente temos de enfrentar escolhas muito mais difíceis. Quando a revolta é bem-sucedida e alcança o objetivo inicial nos damos conta de que o que realmente nos perturbava (a falta de liberdade, a humilhação diária, a corrupção, a ausência de futuro) persiste sob novo disfarce. E aí somos forçados a ver que havia furos no próprio objetivo inicial.

Representantes da ideologia reinante mobilizam todo o seu arsenal para impedir que cheguemos a essa conclusão radical. Dizem-nos que a liberdade democrática implica suas próprias responsabilidades, que tem um preço, que é sinal de imaturidade esperar demais da democracia. Numa sociedade livre, dizem eles, devemos agir como capitalistas e investir em nossa própria vida: se fracassarmos, se não fizermos os necessários sacrifícios, ou se, de algum modo, não correspondermos, a culpa é nossa.

Há um ponto onde a política verdadeiramente começa: a questão é como empurrar ainda mais adiante depois que passa a primeira excitante onda de mudança; como dar o passo seguinte, sem sucumbir à tentação “totalitária”; como avançar além de Mandela, sem virar Mugabe.

O que significaria isso num caso concreto? Citando Brecht em sua Elegias Hollywoodenses (1942): A vila de Hollywood foi planejada segundo a ideia
de que o povo aqui seria proprietário de partes do paraíso.

Ali chegaram à conclusão de que Deus, embora precisando de céu e inferno,

não precisava planejar dois estabelecimentos, mas só um: o paraíso.

Mas esse, para os pobres e infortunados, funciona como o inferno.

(Também me lembra Borges que escreveu, privilegiando a inteligência,

que “os pobres não vão para o paraíso porque não o compreenderiam”).

Para o autor, esses versos descrevem bastante bem a “aldeia global” de hoje: aplicam-se ao Qatar ou Dubai; playgrounds para os ricos, que dependem de trabalhadores imigrantes em estado de escravidão. Exame mais detido revela semelhanças entre Turquia e Grécia: privatizações, o fechamento do espaço público, o desmonte dos serviços sociais, a ascensão de políticos autoritários. Num plano elementar, os que protestam na Grécia, Turquia ou Brasil estão engajados na mesma luta.

Contudo, do Egito ao Brasil, a ação nas ruas impulsiona a mudança, mas a organização é essencial, ou a ação será sequestrada ou desarmada. Sem política, o protesto fica à mercê das elites.

Ou seja, uma idéia que, modestamente, há anos, eu mesma formulei em meus escritos – que a chave do paraíso também serve no inferno.

Como as infinitas mutações do capitalismo – que de tudo se apropria, simultaneamente degrada e sublima –, este é um dispositivo infinitamente poderoso.

E naturalmente amoral. Afinal, anjos e demônios são farinha do mesmo saco.

 

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