A certeza da vida

Sempre que uma notícia de tragédia é anunciada, logo a perplexidade toma conta de todos. Como explicar morros sepultando sonhos e pessoas, mares revoltados a destruir cidades ou prédios desabrigando vidas? Como justificar a morte de crianças e de adolescentes que apenas iniciavam a vida? Afinal, como dizer que o futuro estampado no rosto da pessoa que amamos agora é apenas um nostálgico passado?

É realmente impossível ficar insensível à morte que surge sem qualquer motivação lógica. Até porque não se tem, salvo pela explicação abstrata da fé, qualquer certeza sobre o futuro da alma que deixou prematuramente o corpo. São dúvidas e mais dúvidas a inquietar o já inconformado coração.

Ainda assim uma certeza se torna forte nestes momentos de agonia e desespero. É a certeza da vida, a certeza de que a vida permaneceu ativa no coração de alguém durante algum tempo. Nada pode apagar do mundo esse fato até óbvio, a vida aconteceu para alguém, ainda que o seu corpo ateste o contrário.

E quando a vida nasce para alguém, independentemente da sua duração, um fenômeno fantástico a acompanha de forma indissolúvel. É fenômeno que batizei como sendo o dom da transmutação da vida em outras vidas. Uma vida tem o poder de fazer novas vidas, alterar o destino de outras, absolver as características de várias, incorporar-se às de algumas ou até mesmo construir um outro tipo de vida.

Como dizer que uma mãe não renasceu em sentimentos e experiências durante a gravidez? Mesmo o nascimento de seu filho não conseguirá apagar de sua memória a certeza de que fora capaz de produzir uma nova espécie de luz. A vida que dela brotou também fez dela um novo ser.

Como dizer que um filho não contribui e modifica a vida de um pai, fazendo-o sentir um pouco do gosto de ser Deus, por ter reproduzido alguém à sua imagem e semelhança? Como retirar de nossa carga genética, emocional ou cultural as vidas de nossos antepassados? Como esconder que aprendemos com os amigos, os amores e os professores que já passaram por nossas vidas?

As descobertas, os sorrisos, os espaços conquistados ou perdidos ao longo de uma vida não são destruídos pela morte do corpo. Da mesma forma, as decepções, os choros e as dores de quem amamos, pois nos marcam com tão intensidade que ficam tatuados em nossas vidas como se fossem por nós diretamente adquiridos. Definitivamente, a nossa vida é também o somatório de outras vidas.

Como consequência, enquanto estivermos vivos elas estarão vivas conosco. E enquanto as pessoas com quem convivermos estiverem vivas, nós também teremos a certeza de que continuaremos vivos, mesmo após o incerto dia em que dirão que morremos. E estes com quem compartilhamos a nossa vida, transferindo um pouco de nós, certamente viverão conosco em outras vidas, até a eternidade.   É a vida transmudada em outras vidas.

É este o sentimento que me consola quando sou avisado da morte de um amigo, ou mesmo diante da dureza de uma tragédia coletiva. Me acalenta saber que a vida permanece ativa, mesmo depois que o corpo se foi. A tarefa de quem fica é manter acesa a chama que alimentou aquela vida, fazendo com que ela continue útil e imortal.

Conservar e colecionar as fotografias são atos importantes na manutenção da lembrança dos traços físicos. Reviver e relembrar as aventuras, as idéias, os sonhos e lições ensinadas também. Mas não deixar morrer a história de quem fisicamente partiu passa ser uma das mais importantes missões de quem ficou.

Sempre reaprendo, nessas horas em que a morte nos faz lembrar da fragilidade do corpo, que devo cada vez mais compartilhar a minha vida. Quanto mais abrirmos a vida para o próximo, mais vivos continuaremos transmudados em outros corpos e corações. O antídoto para a morte seria continuar nascendo e crescendo em outras vidas.

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