“Mais Médicos” ou mais e melhores professores?

Carlos Frederico Nalepinski Widholzer *

Depois do programa Mais Médicos, o governo federal anuncia uma espécie de programa “Mais Professores”, certamente com menos vantagens aos prováveis candidatos, num país onde o governador do estado do Rio Grande do Sul, ex-ministro da Justiça, ex-ministro da Educação não paga a seus professores o reles piso salarial que ele próprio criou. No ano que vem, quando chegar a Copa, provavelmente será anunciado o programa “Mais Policiais” para conter as turbas de furiosos manifestantes. É impressionante a irresponsabilidade e a desfaçatez com que o governo federal trata as questões mais agudas de nossa população.

Pelo andar da carruagem, me parece que nossas crianças haverão de ser alfabetizadas em espanhol (cubano!). Sim, porque somente loucos ou cubanos haveriam de empreender tal aventura. Por outro lado, me parece claro que qualquer cidadão brasileiro ficará feliz em receber um médico, com ou sem as competências e habilidades necessárias, da nacionalidade que for, onde não havia nenhum. Assim vem acontecendo há décadas com os professores que, tal como os cubanos, não por vontade própria, mas por absoluta necessidade, submetem-se uma galhofa dessas, com nuances de trabalho escravo.

Cada vez mais eu penso que a ignorância em muitos casos é uma bênção: não seria melhor a todo esse povo desassistido morrer sem saber que no seu caso haveria, quem sabe, uma solução simples, talvez aquele medicamento que falta nas prateleiras das farmácias dos serviços públicos de saúde?

Não me parece que o fracasso do programa do governo federal na atração de médicos do exterior se deva a uma aparente xenofobia dos médicos brasileiros, afinal, todos os países desenvolvidos atraem para si o melhor do que há no mundo em todas as áreas de conhecimento. É assim nos Estados Unidos da América (e há muitos bons médicos brasileiros lá!), na Alemanha etc. Aliás, por razões óbvias, o Brasil há muito passou a ser exportador de talentos.

Ao que me parece, o que há é uma crise de vocações em nosso país. A medicina é apenas a bola da vez! Há muito, a carreira médica deixou de ser uma questão vocacional, deixando ao cargo filhos de médicos muito bem conceituados localmente e muito bem assentados; não significando, entretanto, que estes sejam bons médicos. Daí a grande crise que ora se percebe: são poucos os médicos capazes de enfrentar desafios, tanto mais pelas condições encontradas fora de seus “ninhos”. São poucos os médicos que não perseguem a carreira de seus pais e no mesmo local. Trata-se apenas de uma questão econômica, em todos os sentidos que possa ter. O mesmo acontece com engenheiros, advogados, agrônomos, veterinários e, particularmente, com políticos, estes todos certamente “destinados” ao Distrito Federal. Somos um país de currais, de pequenas ilhotas de bem-estar, de individualismo.

A medicina, particularmente, é um caso emblemático: sobram vagas de residência para socorrista, infectologia, clínica geral, obstetrícia, nutrologia e geriatria (em um país que, cada vez mais, está se tornando velho!) em detrimento de especialidades como a cirurgia plástica, psiquiatria, cardiologia, oncologia e tantas outras especialidades médicas; enquanto o que mais mata no país continua sendo a septicemia, os acidentes vasculares cerebrais e os de trânsito. Quantos “pacientes” recebem cargas enormes de antidepressivos e ansiolíticos por conta, apenas, de intolerância ao glúten ou por uma insuficiência da tireóide? Mas a clínica geral continua sendo uma “área menor ou, quem sabe, para os tolos ou sem ambição” entre o meio médico.

Prevenção por que, se o que dá lucro é quando o sujeito está “na capa da gaita”? Afinal, se estiver morrendo, dará tudo o que tiver; e o que não tiver, os parentes darão! Não fosse por isso, a categoria não insistiria tanto na Lei do Ato Médico, afinal de contas, qualquer enfermeira, atendente de enfermagem ou, ainda, os chamados “terapeutas alternativos” oferecem melhores respostas do que muitos “doutores”. Todos esses sabem o significado de “anamenese”, e que isso não cabe na “hora” de 30 minutos (ou menos!) daqueles.

Quem não reconhece o trabalho honesto e dedicado de um fisioterapeuta, por exemplo? Mas o seu plano médico somente pagará as sessões com a indicação de um médico fisiatra, no mais das vezes, donos das clínicas de fisioterapia! Qual desses realmente “bota a mão na massa”, consome horas e horas no contato e na recuperação do paciente? Quem ganha mais? Todos esses são graduados e ou pós-graduados, mas quem recebe o título de doutor após a graduação?

Dez mil reais, mais a possibilidade de uma especialização! Tenho certeza de que esse programa seria um sucesso se fosse aberto, também, aos enfermeiros, fisioterapeutas, homeopatas, fitoterapeutas, biólogos sanitaristas, entomólogos, parasitologistas, bioquímicos, farmacêuticos, veterinários, agrônomos, engenheiros sanitários, arquitetos urbanistas, acumpunturistas, quiropráticos, nutricionistas, massoterapeutas, terapeutas holísticos, advogados (por que não?) etc.

A verdade é que esse programa não visa à saúde da população, mas simplesmente a presença simbólica de médicos em postos de saúde! Não há como conceber-se a saúde sem a presença desses vários profissionais e, nesse ponto, concordo inteiramente com os argumentos dos conselhos profissionais de medicina: não há como exercer a medicina sem as mínimas condições materiais para tal. Por que, então, privilegiar a profissão médica? Essa é mais uma manobra política que visa apenas à manutenção do poder, pura demagogia.

Eu, como biólogo, e mais, professor de biologia para diferentes áreas de conhecimento (com muito orgulho!), tenho a mais absoluta certeza de que vários dos meus ex-alunos estariam ávidos a candidatarem-se a um programa como este. Quantos profissionais, particularmente professores do ensino fundamental e médio percebem tal remuneração e tais vantagens? Quantas mazelas de nossa população, seja na saúde ou não, poderiam ser poupadas por meio de uma educação de qualidade? Quantas vocações são ceifadas por uma distribuição de renda absurda? O que faz de um deputado federal, palhaço por profissão e vocação, melhor do que qualquer cidadão brasileiro? Por que este recebe uma remuneração, direta e indireta, maior do que um professor doutor, quando ele próprio questiona suas possibilidades no cargo e, palhaço por palhaço, declara preferir seguir sua vocação de divertir o público? Pão e circo no país das bolsas!

Para todos aqueles que dizem ouvir o “clamor das ruas” (poético, não?), aos que falam em “agendas positivas”, proatividade, celeridade na Justiça e tantas outras bobagens, um pequeno recado: nós, povo brasileiro, exigimos nem mais um mínimo de ética, pois essa é praticada quando todos estão vendo, mas sim caráter, por que isso é o que fazemos quando ninguém está olhando. Se não for assim, podem ir preparando o programa “Mais Policiais” porque a "casa vai cair". Bem-vindo 2014, ano de Copa mas, também de eleições! Assim esperamos.

* Carlos Frederico Nalepinski Widholzer é doutor em Ciências e professor da Universidade Federal de Pelotas.

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