​Doença grave – A olímpica enfermidade do Rio de Janeiro

Fui apresentado ao Marceu Vieira pelo Fernando Brito​,​ do​ blog​ Tijolaço. Foi uma paixão imediata, não pelo Marceu, mas pela sua escrita e, especialmente, pela Adalgisa.

Não tenho explicações. O certo é que não visito o Marceu todos os dias. A última visita que fiz foi no dia 30 do mês passado e​,​ sinceramente, como nas visitas anteriores, seus textos me encant​aram​. Fiquei um pouco decepcionado com a “Desconstrução de Adalgisa”. Não pela qualidade do texto/poema, mas senti que a “desconstrução” foi coletiva. Que​ a​ cada encontro do Marceu com ela, eu também com ela me encontrava. Com esta “desconstrução”​,​ não sei quando poderei revê-la.

Recentemente estive, importante dizer, a serviço, no Rio de Janeiro. Sa​í​ da cidade pensando: vou escrever uma crônica ou um artigo sobre essa visita. Sentado ​à​ frente do computador​,​ não sabia por onde começar​. E,​ ​por não saber​,​ comecei a visitar os amigos, digo​,​ os sítios amigos na internet. E, entre eles​,​ o do Marceu.

Entre seus textos, além do “Desconstrução de Adalgisa”​,​ li “Morte e vida carioca”, que termina num poema. Sei que ele, como todos os poetas, nega ser poeta e provavelmente negará que o final do texto seja uma poesia.

O Marceu começa seu artigo/crônica escrevendo que “Outro dia, pensei em começar uma crônica com esta frase: ​'​o Rio morreu​'.​ O impulso veio da notícia do assassinato de uma mãe nos braços da filha de 7 anos, após ser esfaqueada por um bandido no Estácio”.

Poucas vezes fui ao Rio portanto​,​ não posso afirmar que conheci o Rio e que ele morreu, mas posso, sim, dizer que o Rio est​á​ doente e​,​ se não for cuidado,​ vai entrar em estado comatoso e parar numa Unidade de Terapia Intensiva.

A primeira vez ​em ​que estive no Rio foi durante a ditadura militar, década de 1970. Apesar da ditadura​,​ existia um ar de resistência, de luta pela democracia, uma ar de esperança no ar. Já nas duas últimas vezes foram terríveis. Uma coincidiu com um bando de idiotas vestidos (de verde e amarelo) com o uniforme da corrupta CBF gritando palavras de ordem fascistas e pedindo a volta da ditadura. A última foi na semana passada. Vi uma cidade armada até os dentes e um povo desarmado de sua cidadania e com pouca vontade de lutar pelos seus direitos. Sente-se isso nos comentários.

O Rio est​á​ armado com a faca entre ​os ​dentes para receber as Olimpíadas. Vendo tanta arma, se não fosse pelo trabalho, teria voltado imediatamente. Em cada esquina da zona sul há pelo menos meia dúzia de armas, algumas de forte calibre. No entanto​,​ isso não traz tranq​u​ilidade. A gente nunca sabe o que um homem armado pode pensar sobre quem passa perto.

Numa dessas tardes em Copacabana, de dentro do t​á​xi​,​ assisto ​a ​uma viatura da pol​í​cia de sirene ligada cortando os carros no trânsito carregado. No banco de tr​ás,​ o algemado sendo contido por um policial.

Minutos depois, já no Aterro do Flamengo​,​ “​t​á lá o corpo / estendido no chão”.

Antes de ver o corpo e lembrar do triste poema “De frente pro crime”​,​ de Aldir Blanc, vi um guarda desviando o trânsito. E​,​ em seguida​,​ frutas, entre as quais moranguinhos, esparramadas pelo asfalto.

Havia uma ambulância do S​amu​ parada, mas nada era possível ser feito​. O​ corpo estava coberto não por jornal, como na música, mas por um lençol. No chão misturava-se sangue com o vermelho dos moranguinhos.

Triste​,​ observei o corpo, pensei no poema do Aldir e na família que, em casa, esperaria a volta de um trabalhador que não voltaria com o dinheiro do pão de cada dia.

Nesse mesmo dia, in​í​cio da noite, na calçada de Copacabana, assisto ​a ​uma discussão de um ainda jovem morador de rua com outro jovem. Não sei a razão da discussão. Outro jovem, aspecto de classe média com um misto de policial, com uma cerveja na mão​,​ p​a​ra e dá um tapa-empurrão no peito do morador de rua que​,​ desequilibrado​,​ cai de costas. Antes mesmo de se levantar, ele e todos os que estávamos próximos ouvimos a ameaça: “Você me conhece, sabe quem eu sou e vou te matar. Vou te matar”. E repetiu a ameaça uma meia dúzia de vezes.

O que fazer? Foi a pergunta que me seguiu pela noite e me segue até agora. Se naquele momento fizesse qualquer intervenção, provavelmente receberia a mesma ameaça, que pode ser uma sentença.

​Marceu, o Rio está doente e a doença é grave.

 

Mais sobre violência

Fui apresentado ao Marceu Vieira (https://marceuvieira.wordpress.com) pelo Fernando Brito​,​ do​ blog​ Tijolaço. Foi uma paixão imediata, não pelo Marceu, mas pela sua escrita e especialmente pela Adalgisa.
Não tenho explicações. O certo é que não visito o Marceu todos os dias. A última visita que fiz foi no dia 30 do mês passado e​,​ sinceramente, como nas visitas anteriores, seus textos me encant​aram​. Fiquei um pouco decepcionado com a “Desconstrução de Adalgisa”. Não pela qualidade do texto/poema, mas senti que a “desconstrução” foi coletiva. Que​ a​ cada encontro do Marceu com ela, eu também com ela me encontrava. Com esta “desconstrução”​,​ não sei quando poderei revê-la.
Recentemente estive, importante dizer, a serviço, no Rio de Janeiro. Sa​í​ da cidade pensando: vou escrever uma crônica ou um artigo sobre esta visita. Sentado ​à​ frente do computador​,​ não sabia por onde começar​. E,​ ​por não saber​,​ comecei a visitar os amigos, digo​,​ os sítios amigos na internet e entre eles​,​ o do Marceu.
Entre seus textos, além do “Desconstrução de Adalgisa”​,​ li “Morte e vida carioca”, que termina num poema. Sei que ele, como todos os poetas, nega ser poeta e provavelmente negará que o final do texto seja uma poesia.
O Marceu começa seu artigo/crônica escrevendo que “Outro dia, pensei em começar uma crônica com esta frase: ​'​o Rio morreu.​'​ O impulso veio da notícia do assassinato de uma mãe nos braços da filha de 7 anos, após ser esfaqueada por um bandido no Estácio”.
Poucas vezes fui ao Rio, portanto​,​ não posso afirmar que conheci o Rio e que ele morreu, mas posso sim dizer que o Rio est​á​ doente e​,​ se não for cuidado,​ vai entrar em estado comatoso e parar numa Unidade de Terapia Intensiva.
A primeira vez ​em ​que estive no Rio foi durante a ditadura militar, década de 1970. Apesar da ditadura​,​ existia um ar de resistência, de luta pela democracia, uma ar de esperança no ar. Já as duas últimas vezes foram terríveis. Uma coincidiu com um bando de idiotas vestidos (de verde e amarelo) com o uniforme da corrupta CBF gritando palavras de ordem fascistas e pedindo a volta da ditadura. A última foi a semana passada. Vi uma cidade armada até os dentes e um povo desarmado de sua cidadania e com pouca vontade de lutar pelos seus direitos. Sente-se isto nos comentários.
O Rio est​á​ armado com a faca entre ​os ​dentes para receber as Olimpíadas. Vendo tanta arma, se não fosse pelo trabalho, teria voltado imediatamente. Em cada esquina da zona sul há pelo menos meia dúzia de armas, algumas de forte calibre, no entanto​,​ isto não traz a tranq​u​ilidade. A gente nunca sabe o que um homem armado pode pensar sobre quem passa perto.
Numa destas tardes em Copacabana, de dentro do t​á​xi​,​ assisto ​a ​uma viatura da pol​í​cia de sirene ligada cortando os carros no trânsito carregado. No banco de tr​ás,​ o algemado sendo contido por um policial.
Minutos depois, já no Aterro do Flamengo​,​ “​t​á la o corpo / estendido no chão”.
Antes de ver o corpo e lembrar do triste poema “De frente pro crime”​,​ de Aldir Blanc, vi um guarda desviando o trânsito e​,​ em seguida​,​ frutas, entre as quais moranguinhos,  esparramadas pelo asfalto.
Havia uma ambulância do S​amu​ parada, mas nada era possível ser feito​. O​ corpo estava coberto, não por jornal como na música, mas por um lençol e no chão misturava-se sangue com o vermelho dos moranguinhos.
Triste​,​ observei o corpo, pensei no poema do Aldir e na família que em casa esperaria a volta de um trabalhador que não voltaria com o dinheiro do pão de cada dia.
Nesse mesmo dia, in​í​cio da noite, na calçada de Copacabana, assisto ​a ​uma discussão de um ainda jovem morador de rua com outro jovem. Não sei a razão da discussão. Outro jovem, aspecto de classe média com um misto de policial, com uma cerveja na mão​,​ p​a​ra e dá um tapa-empurrão no peito do morador de rua que​,​ desequilibrado​,​ cai de costas. Antes mesmo de se levantar, ele e todos que estávamos próximos ouvimos, a ameaça: “você me conhece, sabe quem eu sou e vou te matar. Vou te matar”. E repetiu a ameaça uma meia dúzia de vezes.
O que fazer? Foi a pergunta que me seguiu pela noite e me segue até agora. Se naquele momento fizesse qualquer intervenção, provavelmente receberia a mesma ameaça que pode ser uma sentença.​
Marceu, o Rio esta doente e a doença é grave.​
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