Programa de índio

Fábio Flora *

Não podia deixar passar o dia do índio em branco (trocadilhe se quiser): mas é que eu sou praticamente um caboclinho. Afinal, quando meus pais se conheceram, num carnaval de mil novecentos e clóvis bornay, pápis envergava o figurino de um autêntico aborígene, exceção feita ao generoso bigode e ao par de kichutes.

Além do mais, como ignorar data tão importante, especialmente quando representantes de várias tribos têm feito manifestações contra a proposta de emenda à Constituição que transfere ao Congresso Nacional – território onde estão fincados até a raiz os pés de inúmeros fazendeiros – a prerrogativa de homologação de terras indígenas?

É isso mesmo que você leu: querem dar aos tubarões as chaves dos aquários – pequenas reservas nas quais sobrevivem os nativos que ainda resistem.

Não bastaram séculos aniquilando povos e culturas inteiras em nome de um progresso com muitas aspas. Não bastou roubar suas terras, escravizar seus donos, discriminar seus descendentes. Foi preciso ainda tatuar a palavra holocausto em sua pele: se no tempo do descobrimento havia três, quatro milhões de índios espalhados pelo futuro país do futuro, hoje eles não chegam a novecentos mil. E só pouco mais da metade vive em terras indígenas. Um terço já foi engolido pelas nossas aldeias de concretos.

Aliás: é numa dessas aldeias que reside um gentil apresentador de tevê cuja pele alva não só lhe rende o apelido de palmito, como também horas e horas na terapia para se recuperar de injúria tão racista. Por que me lembrei dele? Porque o moçoilo – defensor intransigente da liberdade de expressão de quem usa mulheres, negros, gays e nordestinos como matéria-prima para piadas de péssimo gosto – agora resolveu defender os índios.

Dos próprios índios e de quem está ao lado deles.

Segundo o sujeito, os progressistas – aqueles que se solidarizam com as causas indígenas – “querem preservar indio na cultura primitiva deles como se fossem animais em zoologico”. “Se o homem ocidental tivesse ‘preservado sua cultura’, estariamos caçando ate hoje”; “alias, caçando pra sobreviver nao por esporte”. [Sic] para todos os vocábulos não acentuados, o probleminha de concordância na primeira citação e a ausência da pontuação necessária na última.

[Sic] maior ainda para as tiradas geniais: quer dizer que primitiva é a cultura que preserva florestas em vez de destruí-las? que exigir que os índios tenham direito a uma ínfima fração da terra que já foi inteirinha deles é querer confiná-los num zoológico? que apinajés, karajás e xerentes vivendo livres em seu habitat são como animais mantidos em cativeiro? que uma aldeia indígena é um zoológico? que caçar para sobreviver é sinal de retrocesso e caçar por esporte, vestígio de evolução?

Parem a canoa que eu quero descer. E escondam o arco e flecha.

Não é à toa que qualquer zapeada no talk-show-de-horrores da criatura invariavelmente confirma a tese de que a expressão usada aqui no título é muitíssimo injusta. Quase tão injusta quanto o tratamento a que têm sido submetidas as diversas nações indígenas desde que os europeus pisaram o solo americano pela primeira vez.

* Cronista residente no Rio de Janeiro, Fábio Flora mantém o blog Pasmatório e perfil no Twitter.

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