Pizzaria Senado, onde tudo acaba em pizza

(Fábio Góis/CF)


Fábio Góis (texto e foto)
 
Em um canto de superquadra da Asa Norte de Brasília, existe uma pizzaria que tinha tudo para ser mais uma na multidão de estabelecimentos comerciais. Modesta, espremida entre um restaurante por quilo e uma loja de nutrição esportiva, fica a cerca de 500 metros do campus da Universidade de Brasília (UnB) – mais adiante, aliás, um bar é conhecido pela aglomeração dos universitários, clientes potenciais à procura de uma boa calabresa.
 
Mas voltemos à pizzaria, cercada pelo ambiente acadêmico de uma das principais universidades do país – atmosfera que o ex-senador Darcy Ribeiro (1922-1997) tão bem conhecia. O saudoso antropólogo só não poderia imaginar que, ali tão próximo ao palco de históricos levantes de insurreição contra a ditadura, seria aberta uma pizzaria com um slogan que, embora clichê, tão bem representa o espírito de indignação do brasileiro com a política: “Aqui tudo acaba em pizza”.






“Com certeza tem muita gente que não tem amor pelo que faz lá. Esses devem achar o nome engraçado, porque não se importam com o Senado. Mas a carapuça serve para quem acha ruim”
Moysés Lacerda, sócio da pizzaria
Nos chamados “anos de chumbo” da ditadura, quando Brasília vivia seus primeiros anos de capital e a UnB se tornou foco de resistência do livre pensar, Darcy Ribeiro sequer poderia pensar em comer a iguaria num lugar chamado Senado Pizzaria. “Eu já estaria preso”, diz o estudante de engenharia de redes da UnB Moysés Lacerda, 24 anos, um dos donos do estabelecimento em cujo cardápio a pizza de muçarela é corretamente grafada com cedilha. “Perguntam pra gente: ‘vocês são burrão?’”, diverte-se o microempresário.


No entardecer da última quinta-feira (5), o Congresso em Foco quis conhecer um pouco mais daquele pedaço da quadra 408 Norte que fica muito próximo à Colina, lar de professores da UnB onde nomes como Renato Russo (Legião Urbana) e Dinho Ouro Preto (Capital Inicial) agitavam a cena política e cultural brasiliense. Ao sabor de uma portuguesa brotinho (paga pelo repórter, que fique claro), a reportagem verificou que na recém-nascida Pizzaria Senado, com seus quatro meses de funcionamento, a liberdade dos clientes-estudantes em nada lembra o engajamento em épocas do militarismo.


Os alunos gostaram no do nome do estabelecimento. “Eu achei massa”, disse à reportagem o estudante de administração Cláudio Monteiro, 23 anos, nascido em Cabo Verde. Mas nem todo mundo gosta da brincadeira, relatou o universitário, há três anos e meio morando em Brasília. “Meu amigo trabalha no Senado e não gostou. Achou o nome polêmico, que suja o nome do Senado”, declarou Cláudio, dizendo sentir-se impedido de opinar sobre o Parlamento de outro país. Diplomático, ele diz que “não fica bem”, mas arriscou uma ironia ao falar do Senado. “A Casa é boa, não é?”


Já a enfermeira e cliente da pizzaria Lady Silva Nascimento, também com 23 anos, deixa a diplomacia de lado ao falar dos senadores. “Tem que fazer uma faxina lá. Eles têm que vir aqui conhecer a pizzaria, para eles saberem o que é trabalho de verdade.”


Visão de marketing


O nome, admitem os sócios, foi ótima jogada de marketing. “Não adiantava competir com pizzarias que fazem propaganda na TV Globo. O sucesso da pizzaria em grande parte é pelo nome, além da qualidade. O pessoal brinca, ri. Eu nem precisei fazer fixação de marca. Nenhuma pizzaria dá entrevista para a Globo em três meses”, analisa Moysés, enquanto dois estudantes recém-aprovados, completamente encharcados de tinta – versão leve e já tradicional dos trotes aplicados nos calouros pelos veteranos da UnB –, aproximavam-se do estabelecimento.


“Esse nome faz com que a marca entre mais rapidamente na cabeça do pessoal. Tanto que a gente vende muita pizza e nunca panfletou”, destaca o proprietário, que diz ter conquistado o paladar da equipe de TV. “Quase todos os dias eles pedem pizza, depois que fizeram a reportagem.”


Para Moysés, tanto os senadores quanto os servidores do Senado deveriam repudiar o nome, porque refletem as práticas indevidas operadas no âmbito da instituição. “Com certeza tem muita gente que não tem amor pelo que faz lá. Esses devem achar o nome engraçado, porque não se importam com o Senado. Mas a carapuça serve para quem acha ruim”, alfinetou o estudante, lembrando ter pesquisado a possibilidade de usar o nome comercialmente.


Como encontrou outros estabelecimentos com o termo Senado, foi em frente. “O Senado também está estudando até que ponto, juridicamente, o nome pode ser usado. Mas, se na internet tem um monte de coisa [comércios usando o termo], porque a gente não pode usar?”, questionou. Na página da pizzaria na internet, uma frase resume a visão de marketing da dupla. “Quer uma pizza cheia de poder por R$ 9,99? A Senado Pizzaria te entrega!”       


Sessão extraordinária


São pouco mais de cinco quilômetros a separar a Senado Pizzaria da Casa que lhe empresta o nome. Em plena infância, a pizzaria dá os primeiros passos com seus sete funcionários. “Alguns ainda estão em período de experiência”, disse o sócio de Moysés, o bacharel em biologia Pablo Jungles, também 24 anos. Moysés diz que, a despeito de um nome que pode parecer provocação, os próprios servidores do Senado recorrem ao estabelecimento em ocasiões especiais.


Do Senado à Pizzaria, como chegar


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“Quando tem sessão extraordinária, eles ligam aqui pedindo. Às vezes pedem 15, 20 pizzas. Desde que a pizzaria foi aberta, vieram várias pessoas do Senado. A maioria, aliás, é de bons consumidores”, declarou Moysés, acrescentando que as pessoas acham o nome engraçado e costumam tirar fotos do local, inclusive turistas.


Com espaço nos sites de relacionamento orkut e twitter, a pizzaria é o retrato do engajamento, não o político de outrora, dos tempos de Colina, mas o que envolve jovens empreendedores e seus milhares de amigos-clientes de universidade. “Vem gente de todos os cursos, virou ponto de encontro da galera da UnB. A gente é muito próximo do pessoal dos DCEs [diretório central dos estudantes]. Muita gente ajudou em coisas que não conseguiríamos fazer sozinhos, a gente é muito grato”, disse Moysés, reforçado pelo sócio Pablo. “É [das faculdades] de Medicina a Letras Japonesas.”


De fato, ao passo que a noite se aproximava, surgiam jovens de todos os lados – alguns paravam no churrasquinho ao lado, conduzido por um vendedor já tradicional no ponto. “Uma pessoa séria, o churrasquinho é de qualidade. Ele até ajuda a gente com algumas coisas, e trouxe muito cliente pra cá”, atesta Pablo. 


O serviço é de tele-entrega (ou “express”, como lembra Moysés), mas o apreciador de pizzas pode comê-las em uma das cinco mesas do local. Ou em pé, como muitos preferem. O horário de atendimento é das 16h à meia-noite, “de domingo a domingo”. Mas tem dia que Moysés e Pablo põem a mão na massa, literalmente, quando o horário dos funcionários chega ao fim e os clientes notívagos ainda têm fome de pizza.


“Sou um minutinho, bebê”


Mas nem tudo são flores no poder. Na tarefa de tirar a Senado Pizzaria do papel, a pouca idade dos empreendedores atrapalhou – tanto para o registro em cartório quanto para o empréstimo bancário. Além da burocracia, muitas lojas à disposição para aluguel, lembram os sócios, diziam já ter sido alugadas ou simplesmente dobravam o valor da locação.


“Em uma imobiliária – até queria lembrar o nome pra te dizer –, a atendente me viu e disse: ‘Só um minutinho, bebê’. Em seguida já atendeu outro cara que tinha chegado depois”, reclamou Moysés, entre o gracejo e a revolta. “Pô, deixei a barba crescer, eu e meu sócio estávamos de terno, e ainda assim aconteceu isso!”


“Quase fechamos um subsolo para abrir a empresa”, relembra Pablo, ao narrar como surgiu o desafio da Senado Pizzaria. Tudo começou numa conversa casual quando Moysés propôs o negócio. Pablo topou, mesmo sem saber bem como tirar a ideia do plano imaginário. “A gente estava só conversando e, no dia seguinte, Moysés me mandou um plano de negócio”, diverte-se Pablo. Ele lembra que o tino comercial do amigo, o “empresário-prodígio”, se manifestava na pré-adolescência, quando vendia aos coleguinhas brindes de gesso, que precisavam ser esculpidos, das revistas de Maurício de Souza (Turma da Mônica).


“Desde que eu era menino eu já sabia que ia ser empresário”, lembra Moysés, que, com 1,90 metro, também faz as vezes de modelo. “Mas o país não coopera com os jovens empreendedores. Pelo contrário, já ficamos até duas horas em cartório”, disse, acrescentando que já patenteou o nome da pizzaria no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Os dois amigos de infância já estudam um sistema de franquia, quando a marca estiver mais estabelecida.


O comprometimento tem seu preço. Pablo já concluiu o curso superior. Mas Moysés – que admite não seguir a carreira de engenheiro de redes –, no quarto ano da faculdade, a duras penas dá consecução aos estudos. “A vida acadêmica está 100% comprometida. Se não tivesse a pizzaria, concluiria o curso em um ano. Com a pizzaria, não sei...”, resigna-se.  


E no Rio de Janeiro...


A milhares de quilômetros de Brasília, outra pizzaria também teve a ideia de “homenagear” não apenas uma, mas as duas Casas legislativas. Trata-se da Pizzaria Congresso Nacional, localizada no centro de Cabo Frio (RJ).


Na estrada há mais tempo (“há opção de rodízio e oferece espaço para eventos”), a pizzaria cabofriense não recebe animais e fumantes, mas abre alas para a ironia fina: no cardápio, a variação de pizzas pode não acompanhar o número de 594 deputados (513) e senadores (81), mas excede em irreverência ao batizar algumas delas com nome de parlamentares.


Quem conhece o lugar sabe: pode-se devorar o senador fulano ou sicrano por meio da pizza homônima. E os praianos o fazem com prazer extra. Mas deixemos os detalhes para outra ocasião.

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