“Agora, o PT é o partido dos banqueiros”

É o que diz Rui Pimenta, candidato do PCO a presidente. Para ele, Heloísa Helena e o Psol também estão comprometidos com a burguesia

Soraia Costa

Com as idéias esquerdistas mais radicais da campanha política deste ano, o Partido da Causa Operária (PCO) tem chamado até mesmo o Psol de Heloísa Helena de burguês. Criado em 1995 por dissidentes do PT ligados ao movimento sindical, o PCO busca ser o representante dos trabalhadores e espera conquistar parte da massa insatisfeita com o governo Lula.

Em entrevista ao Congresso em Foco, Rui Pimenta disse que a defesa da causa operária foi o grande mote do PT para conquistar seus filiados, mas o partido traiu a confiança depositada pelos militantes e eleitores. "A maior parte da esquerda brasileira ou tem sua origem no PT ou está associada a ele, mas a idéia de representar o trabalhador foi abandonada. Agora, o PT é o partido dos banqueiros", afirma Rui Pimenta.

Na opinião do candidato, a transformação necessária no Brasil passa pelo não pagamento da dívida externa, economizando recursos que seriam usados para possibilitar aos trabalhadores um padrão digno de vida.

"Assim como Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula teve medo de reagir. Com o potencial econômico e o tamanho do país, temos força para pressionar os credores e melhorar as condições para os trabalhadores", diz Pimenta.

Eleição como meio de divulgação de idéias

Inspirado em Leon Trotski, o PCO defende a implantação do socialismo no Brasil como parte de um movimento internacional de emancipação dos trabalhadores. Baseado na teoria marxista, da qual o revolucionário bolchevique Trotski foi um dos mais conhecidos seguidores e formuladores, o partido acredita que qualquer conciliação com os detentores do capital - a burguesia - é prejudicial aos trabalhadores.

Hoje com 49 anos, Rui Pimenta é formado em Jornalismo e ingressou no movimento estudantil na década de 1970. Foi editor do jornal Causa Operária a partir de 1979 (quando tinha 22) e produziu várias publicações sindicais.

Fez parte da direção regional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de São Paulo e participou da fundação do PT, no início dos anos 80. Dentro do PT, liderava uma facção denominada Movimento da Causa Operária. Após um longo processo de divergências com o partido de Lula, o grupo foi expulso do PT em 1989.

Em 1995, o PCO foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral. Rui Pimenta, atual presidente nacional do partido, concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados em 1998. Em 2000, candidatou-se à Prefeitura de São Paulo. Em 2002, disputou a Presidência da República pela primeira vez e ficou em sexto e último lugar na disputa, com 38.619 votos (0,045% do total).

O PCO espera alcançar maior votação nestas eleições. Mas Rui Pimenta admite não ter pretensão de vencer a corrida presidencial. Segundo ele, o objetivo da candidatura é divulgar para a sociedade as idéias que ele considera ser mais próximas dos interesses da classe trabalhadora.

O vice na chapa de Pimenta é o capixaba Pedro Paulo de Abreu Pinheiro, o Pepe, 48 anos, funcionário dos Correios e sindicalista. O candidato do PCO à Presidência é, dos sete presidenciáveis, o que declarou à Justiça eleitoral menor patrimônio pessoal (R$ 100 mil) e o mais baixo teto para gastos na campanha (fixado igualmente em R$ 100 mil) - leia mais.

Heloísa e a burguesia

A candidata Heloísa Helena (Psol-AL) é um dos principais alvos da pregação do PCO. No site do partido, o Psol é tratado como uma espécie de PTzinho, com a retórica do PT de antigamente, mas criando laços cada vez mais fortes com o empresariado e setores conservadores.

Para o PCO, não têm passado despercebidos apoios dados à candidatura da senadora por quadros como os peemedebistas Anthony Garotinho, ex-governador do Rio, ou Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo um dos textos veiculados no site sobre o assunto, Heloísa "é financiada e impulsionada como nunca pelas maiores figuras da burguesia". A crítica dá como exemplo encontro de que a concorrente do Psol participou mês passado:
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"A candidata foi convidada no último dia 23 pelo PFL para usar de seu discurso 'socialista' para uma platéia de 400 pessoas, composta somente de elementos da burguesia, no 7.º Encontro Latino-Americano de Líderes de Pequenas e Médias Empresas, que se realizava em São Paulo. O deputado federal da Bahia, um dos braços direitos de ACM, Gerson Gabrielli, convidou Heloísa Helena para discursar no encerramento do encontro. Após receber inúmeros elogios na comovida apresentação do deputado, Heloísa Helena subiu ao palco. Foi aplaudida pela platéia por diversas vezes durante os 35 minutos de discurso e ao final foi ovacionada".
 
O PCO condena ainda a defesa que a senadora fez de isenção de impostos a empresários com o objetivo de estimular a geração de empregos. Em declaração ao jornal Folha de S. Paulo no último dia 24, Heloísa observou que "é muito mais importante fazer a flexibilidade tributária para o dono da loja poder empregar o pai e a mãe de família que são sustentados pelo Bolsa Família".
 
Na entrevista ao Congresso em Foco, Rui Pimenta definiu a proposta de Heloísa Helena como uma "política do Robin Wood ao contrário", por tirar dos pobres (via recursos públicos) para beneficiar os ricos.  

Salário, trabalho e terra

Para marcar a crítica ao governo petista, o PCO apropriou-se do lema "trabalhador vota em trabalhador", usado pelo partido de Lula nas eleições de 1982. O programa de Rui Pimenta se concentra no trinômio "salário, trabalho e terra", ou seja: melhoria dos salários, defesa do emprego e reforma agrária.

Em entrevista recente ao âncora Carlos Nascimento, do SBT, ele considerou "justas" as invasões de propriedades rurais por trabalhadores sem-terra e acrescentou que "o latifúndio não apenas é um flagelo social como é a principal causa do atraso social e econômico do Brasil".

"Atualmente, temos um regime que favorece os mais ricos tirando dos pobres. Isso tem que mudar", disse o candidato ao Congresso em Foco.

A reestatização das empresas privadas e o fim dos serviços públicos terceirizados estão entre as propostas apresentadas pela legenda. Também fazem parte do plano de governo o não pagamento da dívida externa, a democratização dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário e salário mínimo de R$ 1,5 mil, conforme valor sugerido pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).

O cálculo do Dieese leva em conta o mínimo necessário para uma família constituída de mãe, pai e dois filhos arcar com os gastos básicos previstos no artigo 7º da Constituição Federal: "moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social".

Rui Pimenta fala que, com a transformação da sociedade, será possível alcançar esse salário mínimo sem maiores dificuldades. Para o presidenciável, a promoção da igualdade de condições para a população é uma questão de força de vontade. "Até agora nenhum governante teve coragem para reagir às pressões externas. Continuamos a viver uma política colonial", afirmou.

Ele completa que as mudanças pretendidas pelo PCO também colocariam um fim na corrupção e na impunidade em todos as esferas e camadas sociais.

Mudanças são possíveis

Defensor da revolução socialista, o PCO não prega explicitamente o uso de armas para chegar ao poder. Não descarta, porém, a possibilidade de isso vir a acontecer se o processo de mudanças sociais apontar para esse caminho. Sua prioridade é arregimentar e organizar os trabalhadores, de modo que eles se preparem para conduzir os rumos da sociedade. 

Na visão do PCO, o comunismo - tal como proposto por Marx e Trotski - jamais foi implantado em qualquer lugar do mundo. Mas a plataforma do partido para as eleições não vai tão longe. Concentra-se na defesa de um conjunto de mudanças imediatas, todas inspiradas no citado trinômio salário/trabalho/terra.

Mudanças que, ainda assim, parecem distantes da atual realidade. Na tentativa de demonstrar que elas são possíveis, Rui Pimenta lembra de momentos políticos históricos nos quais os brasileiros demonstraram força para lutar: "Vi a mobilização popular acabar com a ditadura militar. Vi o povo exigir uma legislação trabalhista. Vi um presidente ser derrubado do poder. Sei que é um processo lento, mas a população tem capacidade para reagir".

O PCO tem a pretensão de contribuir para o nascimento de um novo cenário político, no qual a gestão dos serviços públicos seria feita e fiscalizada pela população. Pimenta defende que, nas empresas, a escolha das chefias fique sob a responsabilidade dos próprios trabalhadores, por meio de eleições.

O candidato complementa que nada será feito às pressas e que o objetivo do PCO é detalhar as propostas de gestão públicas após discuti-las com a população. "Acreditamos no poder das massas do país. A tendência dos trabalhadores de ir à luta é latente", diz Pimenta.

Calote na dívida

Uma das bandeiras defendidas pela legenda é a liberdade de organização partidária. Segundo Rui Pimenta, isso abriria a possibilidade de um debate mais popular e quebraria o monopólio dos grandes partidos. 

Uma reforma profunda do poder Judiciário é outra proposta do PCO. Para Pimenta, a corrupção e a impunidade só acabarão depois que o monopólio de poder dos juízes for quebrado. Além de terminar com os cargos vitalícios, o partido defende o fortalecimento dos júris populares e o controle externo do Judiciário pela população.

Com relação à política externa, a principal proposta é o fim do pagamento da dívida. Ao ser questionado sobre a provável retaliação que o país sofreria com a atitude, Pimenta respondeu: "A política internacional é uma via de mão dupla. O Brasil terá conseqüências, mas os outros países também. Até a Bolívia, que é um país pequeno, obrigou as empresas a aceitar a situação imposta pelo presidente Evo Morales. Se o Brasil tomasse uma atitude, os credores teriam que fazer uma reestruturação da dívida".

Para Pimenta, se a população estiver convencida das necessidades de mudança, vai se colocar contra qualquer tipo de retaliação. "Queremos apresentar nossa proposta e fortalecer a idéia como parte de um processo longo. O processo está ganhando ritmo e velocidade e estamos caminhando e crescendo gradativamente", conclui o candidato.

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