Agonia acaba para Renan, mas não para Collor

Edson Sardinha e Renata Camargo


Um nasceu em berço político de ouro. O outro nasceu em berço bem mais modesto. Agora, quem recebeu o espólio eleitoral da família encontra dificuldade para deixar herdeiro político. E outro lidera a oligarquia dominante atualmente em Alagoas. Os senadores Fernando Collor (PTB-AL), filho de senador e neto de deputado, e Renan Calheiros (PMDB-AL), filho de um discreto prefeito do interior alagoano, sempre tiveram suas imagens associadas. Essa associação, porém, pode não ser reproduzida por seus filhos.


Os dois começaram a se relacionar como adversários, ainda no início dos anos 80, quando Collor era prefeito e Renan deputado estadual. Em 1990, Renan tornou-se líder do governo Collor na Câmara. Mas, antes do impeachment, os dois romperam. A reconciliação só veio há menos de cinco anos.


O destino voltaria a botar a dupla no mesmo no caminho no Senado, onde Collor se tornou um dos principais nomes da tropa de choque que ajudou Renan a salvar o mandato, em meio a uma série de acusações em 2007. Reeleito para novo mandato, o peemedebista prepara o filho mais velho como sucessor. O petebista, porém, acumula fracassos eleitorais e patina sem conseguir emplacar um herdeiro político.


Agonia de Renan


Renan agonizou por sete meses em meio a sucessivas denúncias que iam de tráfico de influência, emissão de notas fiscais frias, chegando até a espionagem de colegas. Foi alvo de seis representações no Conselho de Ética. Caiu da presidência da Casa, mas escapou de dois pedidos de cassação em plenário. Menos de três anos depois, não apenas se reelegeu para mais oito anos como fez Renan Filho (PMDB-AL) avançar politicamente.


Renanzinho desembarcou na Câmara este ano, interrompendo o segundo mandato de prefeito de Murici (AL), terra natal da família. Deixou o comando da cidade com seu vice, o tio Remi Calheiros (PMDB). O avô do deputado, Major Olavo Calheiros, também foi prefeito do município. Outros dois irmãos de Renan, tios de Renazinho, já tiveram cadeira na Câmara ? e ao mesmo tempo: o hoje prefeito de Olinda (PE), Renildo Calheiros (PCdoB-PE), e o deputado estadual Olavo Calheiros (PMDB-AL).


Agonia de Collor


Quinze anos antes de Renan, Fernando Collor também viveu uma agonia que se estendeu por sete meses. Essa agonia, porém, parece não ter acabado. No ano passado, o senador fracassou pela segunda vez na tentativa de voltar ao governo de Alagoas. Em 2002, além de seu próprio insucesso, viu seu filho Arnon Affonso de Mello Neto tentar sem sucesso uma vaga na Câmara.


A esperança então passou para outro filho. Fruto de um relacionamento extraconjugal, Fernando James só teve a paternidade reconhecida quanto tinha 18 anos. Chamava-se, até então, James Fernando. Tentando associar sua imagem à do pai, o jovem inverteu o nome e se elegeu vereador do pequeno município de Rio Largo (AL), região metropolitana de Maceió, em 2004.  Quatro anos mais tarde, Fernando fracassou ao tentar se eleger prefeito. Está sem mandato desde então.


Primos de Collor, seus suplentes Ada Mello e Euclydes Mello também colecionaram fracasso nas urnas nas últimas vezes que tentaram conquistar um mandato. Euclydes perdeu, em 2008, a eleição para prefeito em Marechal Deodoro (AL) e Ada não conseguiu se eleger deputada federal no ano passado.


Fernando Collor assumiu a Presidência da República aos 40 anos na condição de mais jovem presidente da história do país, com um discurso ?moralizante?, de ?caça aos marajás? e defesa dos ?descamisados?, como ele se referia às pessoas mais pobres. Não completou três anos de mandato. Caiu após denúncias de envolvimento com um esquema de corrupção e tráfico de influência montado por seu ex-tesoureiro Paulo César Farias, conhecido por PC. 


Problemas em família


Curiosamente, sua situação ficou insustentável por conta de denúncias apresentadas a uma CPI no Congresso por Pedro Collor, seu irmão, que reuniu um dossiê explosivo contra o então presidente da República, que o apontava como beneficiário do esquema de PC.  Collor se viu obrigado a renunciar, perdeu os direitos políticos por oito anos e só conseguiu se eleger novamente em 2006, quando conquistou a vaga no Senado.


Em seu breve governo, Collor emplacou dois parentes em cargos de grande projeção. Ao assumir o mandato, indicou para o STF o primo advogado Marco Aurélio de Mello, ainda hoje ministro.


Neto por parte de mãe do ex-deputado gaúcho Lindolfo Collor, que foi ministro do Trabalho no primeiro governo Getúlio Vargas, Collor herdou o gosto pela política do pai, o ex-senador e ex-governador Arnon de Mello. Em 1963, Arnon protagonizou uma das cenas mais trágicas do Senado, ao matar em plenário o colega José Kairala com um tiro no peito. O alvo não era Kairala, suplente do Acre que cumpria seu último dia de mandato, mas o desafeto histórico de Arnon, o também senador alagoano Silvestre Péricles de Góis Monteiro. Gozando de imunidade parlamentar, o senador não sofreu qualquer tipo de punição.


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