“Escritor” José Dirceu vende 700 livros em noite de autógrafos

Mesmo concorrendo com o jogo entre Brasil e Argentina, ex-ministro da Casa Civil lota restaurante em Brasília ao lançar sua obra

Nem a “final” entre Brasil e Argentina disputada ontem (quarta, 28) no Pará foi capaz de esvaziar o lançamento de Tempos de planície (Alameda Casa Editorial), primeiro livro do ex-ministro da Casa Civil e prócer petista José Dirceu. Se a vitória da seleção por dois a zero sobre os hermanos encheu os olhos dos paraenses, na capital federal a goleada foi de Dirceu: segundo informações preliminares da equipe da editora, 700 livros foram vendidos ao preço de R$ 40 a unidade na noite de autógrafos. Como um vendedor estimou convictamente as vendas “entre 600 e 700 livros”, infere-se que, na pior das hipóteses, o lucro foi de R$ 24 mil. Na melhor delas, mais R$ 28 mil no bolso.

Centenas de pessoas (políticos, jornalistas, advogados, amigos, admiradores...) prestigiaram Dirceu no restaurante Carpe Diem, um dos redutos da boemia política em Brasília. Uma minoria de dezenas de clientes, por outro lado, tinha a atenção dividida entre duas telas que transmitiam o futebol e a preocupação em saber que movimento de autoridades era aquele. A fila de autógrafos, que começou a ser formada antes das 19h, durou quase seis horas: o autor assinou o último livro da noite depois do quinquagésimo minuto desta quinta-feira (29) – com direito a beijo na mão sapecado por um dos leitores. Em seguida, foi sentar a uma das duas únicas mesas remanescentes do restaurante, que reunia o comando da Empresa Brasileira de Comunicação.

Apesar do aparente cansaço, Dirceu atendeu gentilmente à curiosidade da reportagem, que o poupou de questões políticas e reservou-lhe o tratamento usual aos escritores. Apenas amenidades, como o estado de espírito depois de tantas vendas em pleno jogo da seleção. “A palavra felicidade é muito forte. Estou realizado, porque estou na presença dos amigos. Receber o afeto deles é muito bom”, disse o ex-ministro ao Congresso em Foco, de terno escuro sobre camisa branca que, apesar de despojada de gravata, acentuava o suor dos muitos autógrafos.

A reportagem falou então com Dirceu sobre a forma com que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recebeu a pergunta feita pouco antes sobre o título do livro. “Quando saí do Planalto, eu expliquei que a partir dali eu iria travar uma luta na ‘planície’”, explicou Dirceu, ainda sorridente, apesar da maratona de rabiscos e autógrafos. Tratava-se de uma resposta que, proferida sem esquivas, apenas resumia o fato de que Dirceu, às voltas com as denúncias de que chefiara a “quadrilha” do mensalão, foi desligado da Casa Civil e teve de retornar à Câmara, em 2005. E onde seria cassado por seus pares, em 30 de novembro daquele ano, por 293 votos a 192 (e ainda oito abstenções, um voto branco e um nulo).

O lançamento do livro foi o segundo evento público, em menos de um mês, a demonstrar o prestígio pessoal e a influência política de José Dirceu nos círculos do poder na capital federal. Na abertura do 4º Congresso do PT, realizado entre os dias 2 e 4 de setembro em Brasília, o ex-ministro foi a estrela petista mais festejada da noite – mais até do que a presidenta Dilma Rousseff e do que o próprio Lula, presidente de honra e figura máxima do partido.

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Diante do sucesso de vendas, a obra de Dirceu se credencia a postular um lugar especial nas paredes do Carpe Diem, que acomoda também uma estante com livros diversos lá lançados. Dispostos em molduras de vidro, capas assinadas por figuras como a cientista política Lúcia Hipólito (Por dentro do governo Lula); os jornalistas Fábio Pannunzio (A última trincheira) e Franklin Martins (Jornalismo político), ex-ministro na gestão Lula; e até os senadores Eduardo Suplicy (Renda de cidadania – A saída é pela porta) e Renan Calheiros (Sem Justiça não há cidadania), destacam-se na “parede da fama” do local.

“Lê o livro!”

Depois de poupar também Padilha de perguntas sobre política, o Congresso em Foco formulou a seguinte indagação ao ministro, literalmente. “O título Tempos de planície não poderia sugerir a iminência, a preparação para a volta ao Planalto?”

Padilha aumentou o tom de voz, e respondeu: “Parem com isso, pare com isso! Lê o livro primeiro, depois você vai fazer o comentário sobre o título. Você quer fazer matéria sobre o título? Parem com isso, lê o livro primeiro”, sugeriu o ministro da Saúde, por alguma razão alternando o imperativo do verbo entre a segunda e terceira pessoas, quando apenas um repórter lhe fazia a pergunta.

Por sua vez, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, sequer quis dar entrevistas. Ao ser abordada, disse que estava “exausta” e não falaria com a imprensa. “Eu só vim dar um beijo no Zé, só isso. Eu não quero dar entrevistas”, abreviou a ex-senadora petista, talvez ainda sob os efeitos da entrevista publicada na edição de segunda-feira (26) do jornal O Estado de S.Paulo, quando disse que o governo insistiria na criação de imposto para financiar o setor da saúde.

A reportagem confessa ao ministro Padilha que ainda não teve a oportunidade de ler o livro por inteiro, mas sim diversos artigos escritos por Dirceu em seu blog – muitos desses textos, não custa registrar, foram compilados em Tempos de planície. Na introdução, o caso do mensalão é classificado por José Dirceu como uma “rede de mentiras” que consistiria na “maior campanha política e midiática” já orquestrada contra Lula e o PT, com o “claro intuito” de levar o então presidente da República ao impeachment ou evitar sua reeleição, que foi confirmada em 2006.

Impeachment

Com outro humor, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) falou por quase dez minutos sobre o companheiro de 31 anos de militância. Primeiro senador da história a ser eleito pelo PT, Suplicy relembrou episódios compartilhados com Dirceu, disse-se otimista quanto ao desfecho do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) e, para manter a praxe, citou seu projeto de renda mínima.

“O ex-ministro José Dirceu terá todas as condições de exercer plenamente o seu direito de defesa, até por causa dessa capacidade que ele tem de se comunicar de uma maneira eficaz com todos os segmentos da sociedade. Tenho a expectativa de que ele possa ter um resultado favorável”, observou Suplicy, dizendo-se confiante em uma decisão “histórica” do Judiciário e ressaltando a importância do colega petista dentro do partido.

Depois de ser chamado por Dirceu para a prioridade dos autógrafos, Suplicy relembrou ainda um dos “momentos-chave” da “relação de construção, respeito e colaboração” que diz sempre ter mantido com o amigo.

“No início de 1992, eu era senador e ele era deputado federal, e aconteceu a entrevista de Pedro Collor de Mello nas páginas amarelas da revista Veja. Eu telefonei para Pedro Collor para dialogarmos em um hotel e chamei o José Dirceu para irmos juntos. O ouvimos por cinco horas e ficamos tão impressionados naquele testemunho sobre os atos de Paulo César Farias [tesoureiro da campanha que elegeu Fernando Collor presidente] que, de pronto, fomos até a minha residência, onde escrevemos juntos o requerimento que deu origem à CPI sobre os atos de Paulo César Farias”, relatou Suplicy, referindo-se à comissão parlamentar de inquérito que culminou com o impeachment do agora senador Fernando Collor (PTB-AL).

Toga em foco

Empunhando um livro recém-adquirido, e assegurando que este será lido – incluindo-se “a orelha e o prefácio” –, o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) falou à reportagem sobre as complicações de Dirceu com a Justiça. Delegado afastado da Polícia Federal depois de conduzir a Operação Satiagraha, Protógenes disse que o ex-ministro se complicou em um determinado contexto político, quando eclodiu o caso do mensalão, em 2005.

“Em termos de instância política, pelos fatos e sucessivos escândalos que a República veio vivenciando, acredito que houve uma avaliação dentro da realidade daquele momento político que o Brasil vivia. Hoje, dentro dessa conjuntura política, talvez ele viesse a ser inocentado”, observou o deputado, com olhar diferente daquele manifestado por Suplicy.

Já o indicado da Câmara para o Conselho Nacional de Justiça, o advogado Marcelo Nobre, declarou ao site que o Judiciário não perde autoridade, diante da opinião pública, para julgar Dirceu depois do mal-estar instalado na magistratura nos últimos dias. Para Marcelo, as declarações da corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, de que há “bandidos” vestidos com togas, pecam pela generalização.

“A moral do Judiciário é altíssima. A magistratura, com seus mais de 16 mil juízes no país, é composta em sua maioria de juízes operosos, honestos, corretos e preparadíssimos. Se existe uma minoria que não condiz com essa realidade, nós devemos investigar”, ponderou o conselheiro.

Além de todos os já citados acima, compareceram ao convescote literário, entre outros, os ministros Orlando Silva (Esportes), Maria do Rosário (Secretaria de Direitos Humanos), Luiz Sérgio (Pesca), Fernando Haddad (Educação) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior); os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Cristovam Buarque (PDT-DF), Humberto Costa (PT-PE), Armando Monteiro (PTB-PE) e Ângela Portela (PT-RR); além dos deputados Cândido Vaccarezza (PT-SP), Gabriel Chalita (PMDB-SP) e do assessor especial do Ministério da Defesa, o ex-deputado José Genoino.

Figuras como Luiz Carlos Barreto, produtor do longa Lula, o filho do Brasil; Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasileira de Comunicação; e o presidente da União Nacional dos Estudantes, Daniel Iliescu, também compareceram ao lançamento. Dirceu ainda realizará mais duas sessões de autógrafo, em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos dias 10 e 16 de outubro, respectivamente.

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