Especial: jornalista do Brasil mostra impacto da violência policial na Nigéria

Fabiola Góis, de Abuja, na Nigéria
Especial para o Congresso em Foco

O massacre no pedágio de Lekki, no estado de Lagos, Nigéria, expôs ao mundo o inconformismo da população frente a anos de brutalidade policial no país. Na noite de 20 de outubro, integrantes das Forças Armadas da Nigéria abriram fogo contra manifestantes que pedem o fim do SARS (Esquadrão Especial Antirroubo, na sigla em inglês), acusado de 82 crimes de tortura, maus tratos e execução extrajudicial de 1997 a 2020.

Imagens divulgadas pela CNN Internacional nessa quarta-feira (18) confirmam o que os manifestantes denunciam: os militares dispararam tiros de arma de fogo contra os moradores da cidade. Seriam mais de 15 mortos no tiroteio. O governo deu um jeito de impedir o acesso das famílias aos corpos das vítimas do massacre, em tese para evitar a realização da autópsia, o que comprovaria o “assassinato” desses cidadãos.

Dos 200 milhões de nigerianos, 85 milhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. Foto: Fabíola Góis

Mas o que chama a atenção para esses manifestos em Lagos e em outras cidades da Nigéria defendendo o #EndSars, é o sentimento de indignação de um povo cansado da falta de perspectiva de vida em um país que é a maior economia da África, com um dos maiores índices de desigualdade social do mundo. Aqui, há a maior quantidade de pessoas vivendo abaixo do nível da pobreza, em números absolutos, no mundo: aproximadamente 85 milhões de nigerianos vivem com menos de US$ 2 por dia.

Protestam também contra a falta de empregos e a corrupção que assola todos os setores da sociedade. Mas esses jovens reivindicam, sobretudo, a possibilidade de sonhar em ter, pelo menos, um futuro. Para se ter uma ideia, nas ruas de Abuja, é comum haver barreiras policiais, onde integrantes das forças de segurança armados, geralmente com fuzis AK-47, pedem dinheiro para liberar os carros.

Além dos crescentes conflitos, a Nigéria possui outros fatores que preocupam autoridades de todo o mundo. Entre os 54 países africanos, é o que possui a 23ª maior taxa de crescimento populacional do continente. Além disso, é o país mais populoso da África, com cerca de 200 milhões de habitantes – um em cada cinco africanos é nigeriano. Seria como abrigar a população do Brasil dentro do estado de Mato Grosso.

E, como o país não realiza censo há mais de dez anos, por questões políticas, não há um número oficial da taxa de crescimento populacional. Os valores tendem a variar de 2,4% a 3,2% . Se for considerada a taxa mais alta, a Nigéria ocuparia a 5ª posição no continente africano, juntamente com Uganda.

Milhares de jovens sem emprego passam o dia nas calçadas e feiras de Abuja procurando trabalho. Foto: Fabíola Góis

Além disso, a Nigéria vive uma espécie de crise permanente desde a independência, em 1960, mesmo depois de passar por uma guerra civil que traumatizou a nação, a Guerra de Biafra (de 1967 a 1970). O país é dividido por tribos rivais, com crescentes números de violência doméstica, estupro, suicídio e intolerância religiosa. O regime político é opressor e dominado por grupos religiosos. Faz apenas 20 anos que há democracia no país.

Com o movimento #EndSars, evidenciou-se uma polícia violenta e o uso do Exército nas ruas. Até agora, o governo nigeriano não divulgou um número oficial de vítimas.

Mas testemunhas citam dezenas de mortos e feridos. A DJ Switch, que estava no tiroteio, contou, em sua conta do Twitter, que soldados armados e policiais atiraram nela e em outros manifestantes pacíficos. Ela declarou haver, pelo menos, 15 pessoas mortas nos tiroteios, e os soldados desapareceram com alguns corpos.

Policial armado com metralhadora no Centro de Abuja. Foto: Fabíola Góis

As autoridades não assumem as responsabilidades. No dia seguinte ao massacre, o governador de Lagos, Babajide Sanwo-olu, negou mortos por tiros, mas depois admitiu que duas pessoas faleceram. As forças armadas se limitaram a dizer que as acusações não passam de "fake news".

Revolta

A maior parte dos manifestantes tem menos de 30 anos, o que representa 40% da população do país. Desde o dia do massacre, eles tentam ecoar para o mundo a realidade nua e crua de como vivem e são negligenciados. Graças às redes sociais, o movimento chegou a personalidades internacionais, como o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton e a ex-modelo Naomi Campbell, que repudiaram as ações. Os nigerianos que conseguem comprar smartphones registram as cenas e disseminam rapidamente na internet.

Mulheres sobrevivem como podem na maior economia da África e um dos países mais desiguais do mundo. Foto: Fabíola Góis

As autoridades nigerianas estão acompanhando, temerosas, o crescimento do #EndSars. O governador do Estado de Borno, Babagana Zulum, onde o grupo terrorista e fundamentalista islâmico Boko Haram teve início, teme que o arrefecimento do movimento acabe provocando a criação de outros grupos extremistas. É que o Boko Haram, começou com protestos juvenis na cidade de Maiduguri, capital de Borno, contra o uso de capacete por motociclistas. Também tinha como pano de fundo a desigualdade social, a pobreza e a falta de acesso à educação e emprego.

O que não se sabe é se a preocupação do governador faz sentido ou se apenas tenta colocar medo na população do país para evitar os protestos. Para além da preocupação de Babagana Zulum, o Governo da Nigéria conseguiu bloquear contas bancárias dos manifestantes com a desculpa de que se trataria de terroristas. Essa medida demonstra a inabilidade e sensibilidade do governo para ouvir a demanda da população e atender às reivindicações – e não cometer o mesmo erro de mais de uma década quando do surgimento do Boko Haram. O que a Nigéria mais precisa é de mais
tolerância para desenvolvimento do potencial desse gigante africano.


> Brasil divulgará países compradores de madeira ilegal, diz Bolsonaro

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!