“Não sei se terá força para fazer alguma coisa”, diz deputado sobre novo ministro

O coordenador da frente parlamentar ambientalista no Congresso, deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP), avaliou ao Congresso em Foco que o novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, “sabe o que precisa ser feito”. Porém, o parlamentar questiona se o novo chefe da pasta terá “força” para fazer alguma coisa.

Rodrigo afirma que a troca no ministério muda, sim, os rumos da pasta. “O Joaquim conhece bem o mercado de carbono e as concessões florestais. É um cara ligado à bioeconomia mesmo sendo ruralista”, afirmou.

>> O que muda com a saída de Ricardo Salles?

Na avaliação do presidente da Comissão do Meio Ambiente do Senado, Jaques Wagner (PT-BA), a queda de Salles “é só um passo”. “O importante é saber se será uma mudança somente de nome ou de postura do governo federal diante do #MeioAmbiente. O que realmente precisa mudar é a orientação do presidente”, afirmou.

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Entre os ruralistas, o presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), deputado Sergio Souza (MDB-PR), afirmou: “Considero positivo para o meio ambiente e para a produção de alimentos. Ele é responsável pelo programa Floresta+ e demonstra um perfil de preocupação com a preservação".

A boiada que passou

Organizações de defesa do meio ambiente comemoraram a demissão do ministro. Porém, também lembraram das proporções do desmonte da política ambiental promovido pela gestão Salles.

Leia algumas das manifestações:

WWF-Brasil

O b de boiada não é de Ricardo Salles. É do governo Bolsonaro. No mesmo dia em que cai o pior Ministro do Meio Ambiente da história do Brasil, o PL 490, que fere os direitos indígenas em relação a suas terras, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Congresso Nacional, provando que o correntão de retrocessos socioambientais continua destruindo a todo motor. Arthur Lira e o Congresso também estão escrevendo esta história de desgoverno ambiental.

A atuação do governo Bolsonaro em relação ao Meio Ambiente entrará para a história como a mais devastadora que o Brasil já teve. Desde 2019, o Brasil tem visto sucessivos cortes de orçamento no ministério do Meio Ambiente, o desmonte dos mecanismos efetivos de punição a criminosos ambientais, o apoio a mudanças legislativas que destroem o arcabouço legal de proteção elaborado nas últimas quatro décadas - e, publicamente, o endosso a atividades ilegais.

Não são apenas os ambientalistas que protestam contra o retrocesso ambiental do governo Bolsonaro. No mesmo dia em que Salles anuncia sua demissão, um grupo de mais de 100 empresários de destaque dos mais variados setores da economia brasileira envia carta ao presidente da Câmara dos Deputados repudiando os projetos que estão na pauta e que, se aprovados, podem pressionar a Amazônia para além de seu ponto de não retorno.

Esta é mais uma das inúmeras manifestações do setor produtivo nacional e internacional contra a política ambiental do governo Bolsonaro - uma política que só beneficia ladrões de terras públicas, contrabandistas de madeira e ouro e outros criminosos. Salles foi protagonista neste processo, mas não foi o único - e a diretriz do governo não mudou.

Novo ocupante do cargo

Trocar seis por meia dúzia não trará alívio ao país. O nome anunciado para a substituição de Ricardo Salles é Joaquim Álvaro Pereira Leite, com quem trabalhou por anos na Sociedade Rural Brasileira. Convidado pelo agora ex-ministro a ocupar a Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais, chegou com a promessa de atrair recursos para a área ambiental, por meio de programas de Pagamento por Serviços Ambientais e venda de créditos de carbono por desmatamento evitado. Mas quem investiria num país que fecha os olhos às ações de criminosos e, por essa razão, vê o desmatamento explodir?

Não há, por ora, motivos para alimentar a esperança de que ele poderá fazer muito diferente de seu antecessor. A saída do pior ministro do meio ambiente da história não significa necessariamente mudança para melhor, pois é notório que a origem dos problemas se encontra no Palácio do Planalto. Se a orientação palaciana continuar a mesma, pouco efeito terá essa troca.

Observatório do Clima

Após dois anos e meio desmontando a governança ambiental no Brasil, Ricardo de Aquino Salles finalmente pediu demissão do cargo de ministro do Meio Ambiente, que ele jamais deveria ter ocupado.

Salles sai da pasta como entrou: enrolado na Justiça. O homem que fora condenado por fraude ambiental dez dias antes de ser feito ministro por Jair Bolsonaro e que é investigado por enriquecimento ilícito agora tem contra si dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Num deles Salles é suspeito de nove crimes.

O agora ex-antiministro do Meio Ambiente deixa um legado sombrio: dois anos de desmatamento em alta, dois recordes sucessivos de queimadas na Amazônia, 26% do Pantanal carbonizado, omissão diante do maior derramamento de óleo da história do Brasil, emissões de carbono em alta e a imagem internacional do país na lama. Para não dizer que só destruiu tudo, Salles acrescentou uma expressão ao léxico do português brasileiro: “boiada” como sinônimo de destruição ambiental.

Embora seja evidentemente um grande dia para o meio ambiente no Brasil, é preciso lembrar que Salles foi sintoma e não doença. Apenas cumpriu com extrema eficiência os objetivos declarados de Jair Bolsonaro de fechar na prática o Ministério do Meio Ambiente e “meter a foice” nos órgãos ambientais. A política ambiental do atual regime, ditada pelo Presidente da República, não mudará com a troca de seu executor – como não mudaram a Educação, a Cultura e a Saúde. Enquanto Jair Bolsonaro estiver no cargo, com aliados como Arthur Lira para passar a boiada no Congresso, o meio ambiente e os povos indígenas não terão um dia sequer de paz. Seguiremos sendo um pária internacional e um risco climático planetário.

Que a Justiça ao menos dê a Ricardo Salles o que ele merece.

>>“Já vai tarde”: parlamentares comemoram demissão de Salles

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