Paulo Guedes, deputado do PT, é apresentado ao xará ministro: “Levei até guarda-chuvada por causa dele”

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda se ajeitava na cadeira na qual permaneceria por mais de 7 horas na última quarta-feira, em audiência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), quando foi surpreendido por gritos e aplausos de onde nunca poderia esperar. “Paulo Guedes chegou! É o Paulo Guedes do bem”, gritavam deputados do PT, do Psol e do PSB que desde cedo ocupavam as primeiras filas da CCJ para questionar e atacar o ministro a respeito da reforma da Previdência.

As palmas – como o clima de tensão instalado na audiência mostraria – não eram direcionadas ao ministro, mas ao deputado petista Paulo Guedes, de Minas Gerais. Ainda encabulado, o parlamentar foi chamado pelo relator da reforma, Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG), até a mesa da comissão. “Paulo Guedes, este é o Paulo Guedes”, brincou. O clima foi de cordialidade. Trocaram sorrisos, tiraram foto e até descobriram um amigo em comum em Montes Claros, base eleitoral do deputado e do relator e onde vivem parentes da mulher do ministro, conforme ele mesmo contou.

Essa foi a única amenidade entre o Paulo Guedes de Jair Bolsonaro e o PT de Lula naquele dia. A reunião foi encerrada abruptamente pelo presidente da CCJ, por volta das 21 horas, após bate-boca entre o ministro e o petista Zeca Dirceu (PR), que o acusou de ser um “tigrão” com aposentados, idosos de baixa renda e agricultores, e uma “tchutchuca” com os privilegiados do país. “Tchutchuca é a mãe, é a avó”, respondeu (veja o vídeo).

O deputado mineiro estava inscrito para fazer perguntas ao xará, mas não chegou a ver a confusão final. Havia deixado a Câmara no começo da noite porque tinha compromisso oficial em Minas. “Foi bom que agora pelo menos isso nos diferenciou. Ele é o ‘tchutchuca’ (risos)”, diverte-se. “Também tenho pavio curto às vezes. Não sou de levar desaforo para casa. Mas não costumo sair da linha por qualquer coisa”, confidencia. Guedes, o ministro, é conhecido pelo temperamento explosivo e chegou, por vezes, a provocar seus adversários na CCJ. “Fala alto, que falo mais alto”, disse a oposicionistas ainda no início da audiência.

Guarda-chuvada

Desde que o presidente Jair Bolsonaro anunciou, ainda durante a campanha eleitoral na TV, que o economista Paulo Guedes seria seu ministro da Economia caso fosse eleito, o então deputado estadual mais votado por Minas Gerais teve de se adaptar à realidade de ter um homônimo no campo político oposto.

“No dia seguinte levei uma guarda-chuvada na cabeça de uma senhorinha no mercado. ‘Seu traidor. Como você trai o Lula com aquele demônio?’ Aí até a gente explicar que não é a mesma pessoa… Tive de fazer muitos vídeos para desmentir, mostrar que não éramos a mesma pessoa. Mas nem todo mundo acreditou”, conta, bem-humorado, o hoje deputado federal ao Congresso em Foco.

Por ter um eleitorado predominantemente rural no norte de Minas, Paulo Guedes acredita que poderia ter sido mais votado não fosse a ligação do homônimo com Jair Bolsonaro. “Sofri demais. Na minha região só tinha um Paulo Guedes, eu. Muita gente me xingou. Acho que ele tirou muito voto de mim.”

Se a coincidência de nome e sobrenome tirou votos, não foi o suficiente para impedir a primeira eleição do deputado de 48 anos à Câmara. Depois de exercer três mandatos na Assembleia Legislativa, ele recebeu 176.841 votos e foi o quarto mais votado entre os 53 integrantes da bancada mineira.

Atualmente o parlamentar tira proveito da situação. Faz várias palestras em seu reduto eleitoral com o chamariz “Paulo Guedes contra a reforma da Previdência”. Só neste sábado ele tinha quatro compromissos com esse tema em quatro cidades do norte mineiro.

Na avaliação do deputado mineiro, a reforma vai inviabilizar a aposentadoria de trabalhadores rurais e privados. “Só o Benefício de Prestação Continuada e a aposentadoria rural são três vezes maiores que os recursos do Fundo de Participação dos Municípios na minha região. Representam até 70% da economia local”, afirma. As mudanças no BPC e na aposentadoria são os principais pontos de resistência dos deputados em relação à reforma e, como já indicou até o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não devem passar.

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