Pandemia dificulta resistência ao autoritarismo, diz líder do PDT

"É uma escalada, não é uma coisa que a gente viu uma ação, uma coisa [isolada], é uma coisa que vai subindo o tom", é assim que o líder do PDT, Wolney Queiroz, avalia o momento vivido no Brasil, que para ele, tem se agravado devido a pandemia.

O Congresso em Foco conversou com o líder do partido de Ciro Gomes, que está, junto com PSB, Rede e PV, compondo, informalmente, a frente progressista no Congresso Nacional, para saber sua avaliação sobre o momento do país. Ele acredita que diante das constantes manifestações contra o Legislativo e o Judiciário, que contam com o apoio do presidente Jair Bolsonaro, o momento é de atenção.

Nesse último sábado (9), por exemplo, bolsonaristas marcharam e na Praça dos Três Poderes e promoveram "tiro ao alvo" contra fotos de deputados, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), governadores e do ex-ministro Sergio Moro.

Além de atitudes explícitas, os sinais políticos também preocupam Wolney. O presidente Bolsonaro foi, na última sexta-feira (8) até o STF com um grupo de empresários, de surpresa. Chegando lá, iniciou uma live para mostrar a reunião para seus eleitores, sem ao menos avisar ao presidente daquele Poder, Dias Toffoli. Bolsonaro queria que o STF acatasse sua tese contrária à única medida tida como verdadeiramente eficaz para conter a pandemia que já matou mais de 10 mil pessoas no país: o isolamento social.

"Essa [ida de Bolsonaro] contra o Supremo, me pareceu uma coisa muito sintomática, intimidação. Não só a ida, como o fato de ter ido de surpresa, ter aberto uma live sem combinar. Até a postura física do presidente é uma postura de enfrentamento, isso pra mim foi muito grave", avalia Wolney.

Jair Bolsonaro vinha afirmando que faria um churrasco no último sábado (9), inicialmente para 30 pessoas, mas o evento que agora ele chama de "fake", passou a crescer, chegando a ser divulgado pelo próprio chefe do Executivo que contaria com milhares de convidados. Porém, no sábado Bolsonaro publicou um vídeo, onde aparece dizendo que mentiu propositalmente ao afirmar sobre a existência de um churrasco. No final do vídeo publicado por ele, após afirmar para a imprensa que faria o evento, ele cochicha para os seus seguidores que se tratava de uma mentira. "Eles vão botar, não tem churrasco nenhum, eles vão botar (inaudível)", disse Bolsonaro.

Wolney cita esse caso como sendo outro exemplo absurdo. "A história do churrasco me parece o deboche mesmo, um escárnio. Porque é uma coisa que não tem necessidade. No meio de 10 mil mortos você anunciar que vai ter um churrasco, é um deboche", se queixou o líder.

Para Wolney o Brasil está vivendo uma escalada autoritária movida por parte do bolsonarismo. "Não posso dizer qual é o resultado que terá isso tudo, mas não é uma coisa isolada, é uma coisa que está se ampliando e se tencionando a todo momento. Eu também acho que não é uma coisa de todo o bolsonarismo, é como se dividisse o bolsonarismo e o extremo bolsonarismo. Eu acredito que eu tem um bloco ali dentro que não é desprovido de inteligência e sanidade", afirmou.

O líder do PDT vê nas manifestações um problema de saúde pública e acredita que se não fosse a pandemia, haveria uma resposta mais contundente da oposição. "Quanto as manifestações, eu fico muito preocupado porque isso nos deixa numa posição até incomoda. Pela prudência que nós temos, nós ficamos escravos de nos contrapormos, por exemplo. Só quem não tem nenhuma responsabilidade que junta de 500 a mil pessoas para fazer manifestação num momento de uma pandemia. Se fosse em tempos normais estaríamos todos na rua defendendo a democracia", afirmou.

A oposição tem sido cobrada, por não conseguir frear Bolsonaro em suas falas e atitudes autoritárias e/ou contrárias ao isolamento social. "Eu tenho sido cobrado pela minha base partidária, porque algo precisa ser feito, mas eu digo 'olha, no nosso partido estamos fazendo todas as coisas'. Entramos com pedido de impedimento, estamos coletando assinaturas da CPMI, a gente entrou com o mandato de segurança que foi acolhido pelo Supremo e que impediu a posse do Ramagem na diretoria-geral da Polícia Federal, mas do que isso nós não podemos fazer, até porque estamos em meio de uma pandemia. Todos os esforços deveriam estar voltados para conter essa pandemia", relatou Wolney Queiroz.

Mais de 30 processos de impeachment estão protocolados na Câmara dos Deputados contra Jair Bolsonaro, mas até o momento, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não sinalizou se pretende colocar algum deles sob análise dos deputados. Questionado sobre o que tem levado Maia a engavetar os pedidos, Wolney se limitou a dizer que não faz ideia.

Bolsonaro tem se cercado de deputados do Centrão e feito o "toma lá da cá", que ele mesmo criticou durante a eleição. O presidente chegou a afirmar durante o pleito, que um de seus adversários que fechou chapa com o grupo, estava de cercando "com o que há de pior".

Questionado sobre como vê essa aproximação, Wolney relembra que é algo que Bolsonaro sempre criticou. "Eu definiria a aproximação com o centrão em dois aspectos: eu defendo sempre o diálogo do Executivo com o Legislativo. Agora, Bolsonaro sempre condenou isso, sempre condenou isso publicamente. Agora pra fora ele critica o toma lá da cá, aí quando desliga a live ele assina os decretos, e as nomeações", ressaltou o líder.

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