Teich diz que deixou ministério por pressão para uso de cloroquina

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich depõe nesta quarta-feira (5) à CPI da Covid no Senado Federal. Ele assumiu o ministério após a saída de Luiz Henrique Mandetta e deixou o cargo em maio de 2020, após menos de um mês no cargo. Em seu depoimento, Teich disse que a insistência do uso da cloroquina por parte do governo foi determinante para sua saída. "Pedi demissão pelo pedido específico de uso da cloroquina", afirmou o ex-ministro.

O ex-ministro disse ainda que não tinha autonomia nem liderança. "Em situações como a covid você precisa de liderança e coordenação e você tem que receber essa autonomia para poder ter essa liderança e essa coordenação".

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) disse: "Com todo respeito à sua biografia, mas acho que o governo queria um garoto propaganda. Queria alguém que fosse uma vitrine para que pudesse continuar fazendo aquilo que considerava ser o certo, rejeitando a ciência".

Veja como foi:

Em resposta ao relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), o ex-ministro afirmou que nunca foi consultado sobre a produção e distribuição de cloroquina, mas não descartou que possa ter ocorrido, mas “nunca sob minha orientação”, apontou.

"Eu não diria fui enganado [ao assumir o Ministério], mas eu não precisaria de um período longo para perceber que eu não teria a autonomia necessária para conduzir as ações", disse Teich.

A Luis Carlos Heinze (PP-RS), que é favorável ao tratamento com cloroquina, Teich disse que busca se orientar por instituições internacionais reconhecidas e, por isso, não recomenda o uso desse e outros medicamentos contra covid.

"É uma conduta que pra mim, tecnicamente, era inadequada [a implementação da cloroquina]. Isso é para qualquer medicamento. Existe uma metodologia para você incorporar um medicamento".

Ao defender o 'tratamento precoce' afirmando que há médicos e cientistas que o usam, Heinze  sofreu críticas de senadores que dizem já haver provas de que esses remédios não funcionam contra a covid-19.

Teich disse ainda que, apesar de não faltar recursos para a Saúde, "jamais se encontrou" com o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Bate-boca entre senadores

A reunião teve momentos de debate acalorado, que levaram o presidente da comissão, Omar Aziz, a suspender brevemente o depoimento. O motivo da discussão foi o fato de os senadores governistas terem discordado da decisão de Aziz de abrir a palavra para perguntas feitas pela bancada feminina.

Convocações

A CPI da Covid recebe nesta quinta-feira (6) o atual titular do ministério da Saúde, Marcelo Queiroga, às 10h, e o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, às 14h.

Marcelo Queiroga está à frente da pasta desde 23 de março deste ano. O médico cardiologista assumiu o cargo após a saída de Eduardo Pazuello, que adiou a participação na CPI para o próximo dia 19.

Na terça-feira (11) o colegiado recebe o ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social do Governo Federal, Fábio Wajngarten e representantes da Pfizer. Na quarta-feira (12), a CPI ouve os presidentes do Instituto Butantan e da Fiocruz e na quinta-feira (13), depõe o ex-chanceler Ernesto Araújo e o presidente da União Química, responsável pela vacina russa Sputinik V no Brasil.

Também foi aprovada a convocação para depor o secretário-executivo de Saúde do estado do Amazonas, João Paulo Marques dos Santos.

Presidente nunca escondeu postura pró-cloroquina, diz Aziz

Em coletiva de imprensa após o depoimento de Teich, o presidente da comissão Omar Aziz (PSD-AM) disse que a fala de Teich sobre a postura de Bolsonaro sobre a cloroquina não representa, necessariamente, um atestado da negligência de Bolsonaro. Para o senador, isso já estaria fartamente comprovado. "Não era preciso ele admitir sobre cloroquina porque o próprio presidente se posiciona. Ele não faz isso escondido numa sala dois por dois – ele fala isso publicamente", disse. "Não é novidade alguém chegar aqui e confirmar."

O tem mudou quando o assunto foi Ernesto Araújo – que será ouvido na semana que vem. "Um parceiro comercial como a China não dá para menosprezar. Nem do ponto de vista do IFA que estamos precisando, nem do ponto de vista da economia brasileira", comentou. "Não estamos tratando apenas da vacina ou do vírus – estamos falando de algo muito mais importante: quando você fecha parcerias comerciais, e quando elas param de existir, para retomar demora anos. E o que estamos vendo, preocupados, é que este ataques permanentes à China mostram que não é só o vírus que matará brasileiros – poderá causar problemas econômicos."

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