Depoimento de Capitã Cloroquina reforça contradições de Pazuello

O depoimento da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, evidenciou contradições nas falas do ex-ministro Eduardo Pazuello. Apelidada de "Capitã Cloroquina", alcunha que ela tentou recharçar, a médica foi ouvida pelos senadores, nesta terça (25). Além de defender o chamado tratamento precoce, que consiste no uso de medicamentos sem comprovação científica contra a Covid-19, ela confirmou que a pasta orientou os médicos a adotarem esse procedimento.

Mayra também apresentou versões diferentes das dadas por Pazuello sobre a crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus e a criação da plataforma TratCov pelo Ministério da Saúde. 

Uma dessas contradições diz respeito à data em que a pasta da Saúde soube do possível colapso em Manaus. Segundo a médica, Pazuello tomou conhecimento da falta de oxigênio no dia 8 de janeiro e não no dia dez como tinha informado o general à CPI.

A secretária prestou depimento com com um habeas corpus concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski. Ele concedeu à Mayra Pinheiro parcialmente o pedido de se manter calada diante de perguntas que pudessem gerar provas contra si.  Confira os principais momentos da fala da médica defensora da cloroquina à Saúde à CPI.

Comparação com o nazismo

Antes de iniciar as perguntas para a depoente, o relator Renan Calheiros (MDB-AL), fez o uso da palavra para comparar a gestão da pandemia com o nazismo. "Não podemos dizer que houve genocídio, mas há uma semelhança perturbadora no comportamento de autoridades", disse o senador. A ala governista reagiu: "Absurdo!"

 

Recomendações da OMS

"O Brasil não é obrigado a seguir as orientações da OMS. E, se assim fizéssemos, nós teríamos falhado, assim como a OMS falhou, várias vezes", disse.

Renan e o VAR 

O senador Renan Calheiro inovou nos questionamentos e está apresentando  áudios e vídeos para contestar a depoente. O relator já apresentou um áudio sobre as recomendações de Mayra Pinheiro para o uso da cloroquina e um vídeo em que ela defendia a imunidade de rebanho como tratamento para a covid-19.

Crise de oxigênio em Manaus

A médica Mayra Pinheiro disse que não foi informada sobre a crise  de oxigênio em Manaus. Ela também disse que não sabe quantos pacientes morreram por falta de oxigênio no Amazonas. A Secretária disse que não visitou unidades de Saúde em Manaus.

Unidades de Saúde no Amazonas 

Em seu depoimento, à CPI da Covid, a secretária do Ministério da Saúde, negou que tenha visitado Unidades Básicas de Saúde de Manaus para recomendar o uso de medicamentos para prevenção e tratamento precoce do coronavírus. No entanto, na tarde desta terça-feira (25), o senador Rogério Carvalho (PT-SE) exibiu vídeos que indicam que a especialista visitou, sim, unidades de saúde na capital do Amazonas, prescreveu o kit Covid e que trabalhou pela tese da imunidade de rebanho.

“A doutora Mayra está com toda a sua equipe percorrendo todos os hospitais que são referência no tratamento da covid-19. Estamos no Hospital Delfin Aziz, e assim ela vai fazer com todos os outros.”, disse uma terceira pessoa, não identificada, em um dos vídeos.

Na sequência, a própria secretária pediu que os médicos da região prescrevessem os medicamentos do “kit de tratamento precoce”, e afirmou: “ele pode salvar vidas”. Mais cedo, Mayra Pinheiro também havia negado que fazia indicações de cloroquina, ivermectina e azitromicina durante sua visita à Manaus.

O que foi exposto em um dos vídeos afirma que Pinheiro acreditava que a barreira nas vendas e nas prescrições destes medicamentos era “uma falácia”. “Temos que acabar com essa guerra”, disse ao afirmar que os médicos estariam “liberados para usar o off label”.

Outro vídeo mostrou a médica se posicionando contra as medidas de isolamento social, como o lockdown, a qual ela chamou de “medida de excessão ” e “causadora de pânico”. Para a doutora, “o que estavam fazendo atrapalhar a imunidade de quem poderia ser assintomática, como as crianças”.

Com essas evidências e ainda trazendo estudos do The Lancete, o Senador Rogério Carvalho desmentiu a médica que prestava depoimento desde às 10h da manhã desta terça. A fala também compromete o depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello, cotado para voltar à CPI.

Recomendação x orientação do uso de cloroquina

Mayra Pinheiro disse que o Ministério da Saúde não recomendou o uso da cloroquina no tratamento precoce, mas orientou os médicos. De acordo com ela, as orientações não foram só aos médicos de Manaus, mas sim "a todos os médicos do país".

O relator da Comissão apresentou um ofício ao colegiado que desmente a fala da depoente. De acordo com Renan Calheiros, foi enviado um documento pelo Ministério em que dizia que era "inadmissível" a não utilização do medicamento.

 

TrateCov

Após o ex-ministro Eduardo Pazuello colocar a responsabilidade na criação do aplicativo que recomendava o uso da cloroquina até para bebês na Secretária, Mayra Pinheiro negou que foi a  responsável. "Foram os técnicos da minha secretaria", disse.

“A minha secretaria foi responsável pelo desenvolvimento do TrateCov. Nossa visita a Manaus e a situação que encontramos foi de caos. A OMS faz uma declaração dizendo que os testes RPC-PCR provavelmente poderiam ter baixa sensibilidade para as novas variantes. Diante deste contexto, tivemos conhecimento de um material que usa o score clínico que pode confirmar a doença."

Diferente do que disse o ex-ministro Pazuello, o aplicativo TrateCov não saiu do ar por ser hackeado, foi retirado para a investigação após a "extração indevida" de dados por um jornalista, segundo Mayra. O jornalista Rodrigo Menegat foi o responsável por fazer simulações no aplicativo que indicavam uso de cloroquina para recém-nascidos com cólicas.

 

"Hidroxicloroquina é um antiprotozoário, não antiviral" 

O senador Otto Alencar (PSD-BA) é médico de formação e rebateu a fala da médica Mayra Pinheiro por afirmar que a cloroquina é antiviral. O parlamentar reforçou que o medicamento é antiprotozoário e ajuda no tratamento de malária, por exemplo. "Essa insistência de permanecer no erro não é virtude, é desvio de personalidade". Ele questionou ela sobre as doenças que não são tratadas com medicamentos para prevenção. "Qual o remédio para prevenir sarampo? Vacina? Paralisia infantil? Vacina".

 

"Eu não vou opinar no comportamento do presidente da República"

Em uma das intervenções mais incisivas, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) contrapôs as atitudes e declarações do presidente Bolsonaro contra o uso de máscaras e a vacinação com falas da depoente, Mayra Rodrigues em favor de ambos. “O que dizer das aglomerações que o presidente promove como a deste último final de semana?”, indagou o senador.

Randolfe resgatou a crítica de Mayra Rodrigues à OMS sobre a demora da Organização em recomendar o uso de máscaras, que ocorreu apenas em junho do ano passado, quando o mundo já vivenciava a pandemia da Covid.

A médica, no entanto, se negou a responder. "Eu não vou comentar as questões relativas ao presidente ou a ministros de estado”. O senador insistiu, mas ela repetiu: “Eu não vou opinar no comportamento do presidente da República. É opinião, senador e eu vim aqui para relatar fatos"

"Respeitosamente senhora Mayra, opinião é a senhora torcer pelo pro Ceará e eu torcer pelo Flamengo. Usar máscara não me parece que é opinião", retrucou Randolfe.

No entanto, confrontada pelo por Randolfe, a médica disse que não lembrava de falas do presidente a favor do uso de máscaras de proteção ou em defesa do isolamento social para conter o coronavírus.

Formações 

O senador Randolfe também citou o fato de que 72,6% dos profissionais de saúde não teriam participado de treinamentos para atuarem na pandemia. A médica respondeu que não informar se eles tiveram conhecimento dos cursos e disse que era possível que eles não estivessem com tempo para fazer a formação durante a pandemia.

Mayra reconhece documento do MS orientando uso de cloroquina

Durante o depoimento, a médica Mayra Rodrigues expôs mais uma contradição do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Indagada se tinha conhecimento de um documento do Ministério da Saúde datado em sete de janeiro de 2021 para a secretaria de saúde de Manaus orientando o uso do chamado Kit Covid, ela respondeu que sim.

Na semana passada, o ex-ministro negou em depoimento à CPI, que o Ministério tivesse recomendado uso de cloroquina e hidroxicloroquina.

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