Butantan ofereceu doses da Coronavac ainda em julho, diz Dimas Covas à CPI

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, depõe na sessão da CPI da Covid nesta quinta-feira (27). Aos senadores, Dimas Covas afirmou que o instituto, responsável pela produção da vacina da Coronavac, tinha aberto tratativas desde julho 2020 para que o Brasil teria 5,5 milhões de doses estocadas e 4 milhões em processamento ao final de 2020, podendo ser o primeiro país a vacinar sua população.

A inação do Ministério da Saúde em aceitar a proposta, assim como ações do presidente Jair Bolsonaro contra a vacina de origem sino-brasileira, impediram que a campanha de vacinação começasse mais cedo, o que representou uma perda maior de vidas.

"Em julho também, quando houve essa primeira iniciativa, nós fizemos a primeira oferta de vacinas ao Ministério da Saúde", disse Dimas Covas. "Então, eu mandei um ofício, no dia 30 de julho de 2020, em que, entre os considerandos, ressaltamos a importância de tomar essa iniciativa num momento que ainda não se tinha vacina. Então, nós estamos falando de 2020. E ofertamos, naquele momento, 60 milhões de doses, que poderiam ser entregues no último trimestre de 2020, 60 milhões de doses, no último trimestre de 2020, julho de 2020!", exaltou.

Entre os deputados da oposição, que compõem a maioria da CPI, o tom foi elogioso à Dimas – com o relator, Renan Calheiros (MDB-AL) definindo sua fala como "uma das melhores". Ao final , o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) agradeceu aos esforços do Butantan durante a pandemia.

"A existência dessa vacina só se deve à aposta da ciência, aos esforços do Butantan,  à determinação, e aqui conjugo essa determinação com o Estado de São Paulo, para que esta vacina estivesse disponível para todos os cidadãos e cidadãs deste pais.", disse o senador. "Se tem alguns que vem a esta CPI e devem ser colocados no altar da reverência não só de brasileiros e brasileiras, mas na reverência da humanidade, são as instituições de Pesquisa como o Butantan e a Fiocruz."

China

Durante uma intervenção já no período da tarde, o presidente Omar Aziz (PSD-AM) indicou que os membros da comissão estariam fazendo menções excessivamente críticas à China. Maior parceira comercial do país, a nação asiática está no centro das discussões por ser a principal produtora de vacina e insumos para imunizantes no mundo – mas também por ser o local onde a pandemia teve seus primeiros casos registrados.

A recomendação veio após fala do senador Luís Carlos Heinze (PP-RS). "Eu tenho essa preocupação também em relação ao agronegócio", começou o senador. "Acho que a China é um grande parceiro comercial nosso, e  nós não podemos esticar esta corda. Temos que acabar com esse tipo de discurso que 'a China é inimiga nossa', porque isso não é bom para o Brasil. Os governos passam, mas as pessoas do Brasil vão precisar fazer negócios com a China e com outros países". Segundo Aziz, o objetivo é "não esticar mais a corda com ninguém. Nunca se esticou a corda, nem devemos esticar. É um erro fazer isso."

Ao responder o senador Fabiano Contarato (Rede-ES), Dimas Covas também garantiu que o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, não auxiliou as negociações com a China pela aceleração da vacina em nenhum momento. A fala contradiz o discurso do ex-chanceler, que falou à comissão na semana passada.

Guerra de narrativas

A sessão também foi marcada por pressões feitas pelos senadores governistas para que Dimas Covas explicasse repasses feitos pelo governo federal ao Instituto Butantan, assim como a questões sobre a origem do vírus e da vacina.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) chegou a argumentar que as células que são utilizadas na produção da vacina seriam originárias de fetos abortados. O diretor do Butantan alertou, no entanto, que as vacinas se valem das células de rins de macacos, e que estão disponíveis comercialmente.

Girão também citou notícias que falam da mortes de idosos vacinados contra covid no estado de Goiás, questionando números de eficácia da Coronavac apresentados ainda no ano passado. Dimas Covas rebateu a acusação de que o imunizante não teria funcionado: "Nenhuma vacina, até este momento, tem demonstrado que protege contra a infecção. Ela protege contra as manifestações clínicas, principalmente as manifestações clínicas mais graves", disse. "Isso é um assunto, assim, vamos dizer, que não é uma variável apenas, são muitas variáveis para explicar esse comportamento observado com a vacina do Butantan, mas com todas as outras vacinas."

O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), argumentou que o valor que foi enviado pela União ao instituto foi alto. "Será que é correto afirmar que teve má vontade, que o Governo Federal atrapalhou o Instituto Butantan, quando o Governo garante um contrato de mais de R$6 bilhões para o Instituto Butantan?", questionou, "e em que o Instituto Butantan investe menos de 10% do contrato que vai fornecer ao Estado de São Paulo, que é o mais rico da Federação brasileira?"

Disputa pela Cooronavac

A oitiva de Covas atende a um requerimento do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE). Durante a gestão do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde chegou a anunciar a compra de 46 milhões de doses do imunizante, mas foi desautorizado em seguida pelo presidente Bolsonaro. O tema é o centro de sua oitiva à CPI.

A vacina também é fundo de diversas discussões políticas: o governador de São Paulo, João Doria, e o presidente Jair Bolsonaro iniciaram uma disputa política após Doria dar início ao processo de fabricação das vacinas no Brasil. Os senadores também discutem se o desafeto entre os dois atrasou o processo de imunização contra a covid-19 no país, assim como a pressão feita por Bolsonaro .

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