Na CPI, Pfizer confirma que governo brasileiro não respondeu a ofertas

O gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, falou à CPI da Covid nesta quinta-feira (13). O principal assunto tratado foram as negociações para a compra de vacinas pelo governo brasileiro. A oitiva atendeu o requerimento protocolado pelo presidente da Comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Veja o vídeo da sessão:

O processo de submissão contínua do imunizante no Brasil foi iniciado em 25 de novembro de 2020. Já o processo de autorização de uso emergencial não foi pedido, a submissão permanente ocorreu em fevereiro de 2021.  "Para se adquirir uma tecnologia se precisa da autorização de uso permanente ou emergencial. A Pfizer não tem conhecimento de nenhum outro país onde há atrasos nas vendas", disse Murillo. 

Para o senador Rogério Carvalho (PT-SE), o atraso no país ocorreu porque o governo brasileiro estava acreditando na imunização de rebanho. O parlamentar disse que houve negligência ou ação deliberada na condução da respostas à pandemia. "Isso se configura um crime contra a saúde pública e um crime contra a vida", afirmou o senador.

O vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), relatou que, desde novembro, as negociações com a empresa levavam em conta uma possível edição de medidas provisórias com efeito de lei para obtenção de imunizantes. Porém, segundo o parlamentar, o governo brasileiro não lançou mão desde recurso, deixando o país com escassez de vacinas.

"O governo teve uma iniciativa legislativa, a MP 1026 em dezembro de 2020: fica a União responsável por assumir os riscos referentes a responsabilidade civil, nos termos de aquisição da vacina contra a covid-19", ressaltou o parlamentar.  Porém, o presidente teria assinado a MP retirando o termo de responsabilidade. "A emenda foi rejeitada pela orientação do governo na Câmara dos Deputados. Foram três meses, e deliberadamente, o presidente não incluiu na medida provisória", disse Rodrigues. e concluiu: "Já está esclarecido quem foi o responsável por nós termos 428.256 mortes".

Veja o vídeo:

O senador Jean Paul Prates (PT-RN), relembrou que o governo insistiu na responsabilização da Pfizer pelos possíveis efeitos colaterais, dizendo que a população poderia virar "jacaré".  Para ele, as dificuldades impostas pelo chefe do Executivo causaram mortes e atrasos no Plano de Imunização. Com tudo, Carlos Murillo afirmou que não dá para saber quais governos foram mais difíceis de se negociar, pois "cada governo é diferente".

Governo brasileiro recusa ofertas de vacinas 

Carlos Murillo confirmou à Comissão que o governo do Brasil não respondeu às negociações de compra das doses dos imunizantes da Pfizer. De acordo com ele, a conversa com o governo brasileiro começou em maio de 2020 principalmente com o ministério da Saúde, mas também foram citadas conversas com Paulo Guedes, ministro da Economia  e Fabio   Wajngarten, ex-secretário especial de Comunicação da República.

As ofertas da vacina da Pfizer começaram no dia 26 de agosto do ano passado, de acordo com Carlos Murillo, mas o governo do presidente Jair Bolsonaro recusou. Se as doses tivessem sido compradas, a vacinação no Brasil teria começado no mês de dezembro do ano passado com 2,5 milhões de doses que seriam entregues pela Pfizer.

De acordo com Murillo, cada dose do imunizante da Pfizer, na época, custava dez dólares.

Os integrantes do governo que foram procurados para as negociações com a Pfizer foram o presidente Jair Bolsonaro; o então chefe da Casa Civil,  Walter Braga Netto; o vice-presidente Hamilton Mourão;  o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello; Paulo Guedes; o embaixador do Brasil em Washington, Nestor Forster.

Veja os detalhes do plano de entrega das vacinas descrito pela Pfizer:

"Condições leoninas"

O representante da Pfizer disse que a empresa não impôs "condições leoninas" como disse o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello para justificar o atraso na compra das vacinas. "A  Pfizer exigiu a todos os países as mesmas condições que exigiu para o Brasil", justificou. De acordo com ele, as condições da Pfizer foram impostas para outros 110 países que assinaram o contrato de compras dos imunizantes.

O Brasil foi o sexto país a ser procurado para a negociação das vacinas, mas com o atraso da resposta do governo brasileiro, o país foi para o quadrágesimo lugar.

Vereador Carlos Bolsonaro participava de reuniões com a Pfizer

Carlos Murillo confirmou que o filho do presidente Bolsonaro, vereador Carlos Bolsonaro (PSL- RJ), participava das reuniões de negociação de compras das vacinas com a Pfizer. O executivo da Pfizer lembrou da reunião do dia 7 de dezembro em que Carlos esteve.

Além dele, participaram o ex-secretário de comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten e o Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins.

"Após uma hora de reunião, Fabio Wajngarten recebeu uma ligação, saiu e depois retornou à reunião. Minutos depois, entram Filipe Martins e Carlos Bolsonaro. Fabio explicou a Filipe e a Carlos os esclarecimento prestados pela Pfizer", disse.

A participação de Carlos Bolsonaro nas reuniões decisórias para a gestão da pandemia de covid-19 no Brasil já havia sido citada pelo ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Atualmente, o Brasil está executando um contrato com o laboratório com a meta de obter 100 milhões de doses até setembro de 2021. Cada dose saiu por 10 dólares. Um segundo contrato também está em curso - com 100 milhões de doses por 12 dólares cada. O imunizante da Pfizer possui 95% de eficácia e são necessárias duas aplicações. 

Thaís Rodrigues é repórter do Programa de Diversidade nas Redações realizado pela Énois - Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative.

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