Bolsonaro “prega pra fora” e atribui à Câmara uma responsabilidade que é sua, diz deputado bolsonarista

Defensor incondicional de Jair Bolsonaro há mais de dois anos, quando os dois se comunicaram pela primeira vez, por WhatsApp, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) falou grosso ao ser questionado sobre a aprovação da proposta de emenda à Constituição que reduz a margem de manobra do Executivo sobre o orçamento federal. A PEC obriga o governo a executar integralmente não apenas as emendas orçamentárias individuais dos congressistas, como é hoje, mas também as emendas coletivas (isto é, de bancadas estaduais ou regionais e de comissões legislativas) e os investimentos. Pouquíssimos aliados do governo votaram contra.

Nesta quarta-feira (27), data em que completa 39 anos, Luis Miranda afirmou que o Congresso fez o que Bolsonaro deseja sem lhe trazer nenhum ônus por isso. Segundo ele, ao condenar a entrega de cargos a aliados políticos e o cumprimento das emendas parlamentares, o presidente “está pregando pra fora”.

“Isso é papo pra população”, diz o deputado. Na prática, acrescentou, alguns cargos estão sim sendo entregues aos congressistas. “Parece que o presidente Bolsonaro não quer aprovar a reforma da Previdência”, queixou-se. A exemplo de outros integrantes da base governista, Miranda, eleito graças ao prestígio obtido nas mídias sociais, afirmou que a aprovação da PEC não representa uma derrota do governo.

Veja a entrevista do deputado do DEM ao Congresso em Foco.

Como explicar o que aconteceu ontem?

Na verdade, aquilo foi um acordo de todos os líderes, inclusive do líder do PSL. Entendemos que foi a forma que o Bolsonaro encontrou de atender os anseios dos deputados que querem resolver os problemas das suas cidades, dos municípios. A falta de verba era algo que vinha sendo discutida por conta mais da pressão popular, de não querer que o Bolsonaro transparece que ele estava ajudando os deputados.

É uma puta falta de compreensão porque essas verbas são para serem usadas no dia a dia, no atendimento à sociedade, nas áreas de saúde, educação, segurança, por todos os parlamentares. E para não parecer que existiu uma moeda de troca os parlamentares conquistaram isso em plenário, porém com o apoio do próprio governo. O governo votou sim, 100% da bancada do PSL votou sim, quase todos os deputados votaram sim... eu tenho quase certeza absoluta que isso foi uma estratégia do próprio governo.

Qual o pleito fundamental dos parlamentares?

O que os deputados querem é não perder a possibilidade de ajudar as suas bases, que os elegeram. Você vê comunidades carentes que estão aguardando creches serem construídas, aguardando que os hospitais sejam reformados, e isso é feito com esse tipo de recurso. Com esse recurso que foi aprovado agora, precisa ser aprovado pelo Senado, mas eu tenho certeza que vai ser unânime também, existe um acordo geral, inclusive com o próprio governo, de que é necessário que os deputados façam trabalhos nas suas cidades, nos seus municípios.

Não vejo isso como uma derrota do governo. Vejo como uma grande vitória porque o próprio Bolsonaro tem uma grande dificuldade de falar pra fora que está ajudando os deputados para não parecer que é moeda de troca. Mas ele tem dito, repetidas vezes, que não vai liberar emendas, não vai dar cargos e não vai fazer o que ele chama de velha política, sugerindo que velha política é fazer essas duas coisas.

Ele está pregando pra fora. Isso é papo pra população acreditar que isso é impossível. A gente está vendo aí o tempo todo ele entregar cargos para alguns colegas. Esse é um problema sério. Bolsonaro precisa governar o país e parar de falar pelo Twitter, parar de falar pelo Facebook. Quando você entrega cargos, você está entregando cargos para pessoas da sua confiança. São deputados eleitos, pessoas que vão cuidar para que aquele departamento seja próspero porque esse deputado passa a ser o padrinho daquele departamento. Tudo que acontecer de errado ali, uma corrupção ou algo do gênero, tem um pai daquele setor.

Não é moeda de troca, nunca foi. Um governo sozinho não consegue cuidar de um país inteiro. É a forma que se encontrou para dar ao governo 513 gerentes trabalhando na Câmara e 81 no Senado. Sempre é o governo federal que pede aos parlamentares: “Me indique pessoas qualificadas, me indique pessoas com bom currículo, que você possa ficar em cima e garantir que não vai existir corrupção, não vai existir nada de errado”.

Então existe uma inversão de valores do que a sociedade entende que são os cargos que têm que ser distribuídos e o que o governo federal precisa. O governo federal não consegue cuidar de tudo isso.

Parece que o presidente Bolsonaro não quer aprovar a reforma da Previdência, como ele já tinha dado várias declarações, que ele era contra ela, inclusive que jamais votaria em uma PEC com aposentadoria aos 65 anos. Espero que ele tenha mudado de opinião de verdade, mas o que transparece é que um presidente que quer que seja aprovado as pessoas de que ele mais deveria se aproximar mais rapidamente, ter debaixo do braço dele eram os presidentes da Câmara e do Senado.

No momento em que a gente vê esses conflitos, fica parecendo que o presidente não quer aprovar a PEC. Não quer e transfere a culpa para o Congresso: “Olha, a bola está com a Câmara”. A gente sabe que isso não é verdade. O presidente da Câmara não tem articulação para mudar o voto de um deputado devidamente eleito que tem personalidade, que sabe o que acontece no seu estado, tem seus anseios e quer a participação no governo federal para que ajude a sociedade.

É ridículo ver a sociedade batendo em alguns deputados que estão pressionando o governo federal querendo mudanças. Poxa, não foi isso que foi pregado na campanha? Esperamos que tenha mudanças para melhorar a qualidade de vida da população.

O senhor se aproximou de Bolsonaro há alguns anos, elegeu-se deputado fazendo campanha pra ele. O senhor se considera decepcionado pelo presidente Bolsonaro?

De jeito nenhum. Acho que o Bolsonaro é o mesmo cara de sempre, com uma única dificuldade. Ele não consegue desvincular a imagem do Bolsonaro da internet da imagem do Bolsonaro presidente. Acho que ele está sofrendo muito para fazer essa transição. Venho notando que ele está tentando, mas há uma lentidão enorme.

Ele precisa romper com o personagem Bolsonaro da internet com o presidente. Hoje, ele é o presidente de todos. Não é o presidente da extrema direita, não é o presidente apenas do grupo que o elegeu. É presidente de todo um país. Então não estou decepcionado. Estou muito esperançoso de que o Bolsonaro dê a grande virada de chave. Que vire o presidente de uma nação que está carente de um presidente que tenha personalidade e demonstre capacidade de aprovar as mudanças que trariam dignidade para a nossa sociedade. Estou esperançoso, não decepcionado.

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