A vingança do ex-amigo

Rocha Mattos, sem provas, acusa diretor da Polícia Federal de ter atuado em favor de empresas privadas e de interesses políticos

Vasconcelo Quadros

O grande alvo da artilharia de João Carlos da Rocha Mattos, no que ele anuncia ser o “primeiro capítulo” de uma ofensiva de denúncias, é o diretor geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda. O delegado aposentado João Carlos Sanchez Abraços, amigo e braço direito de Lacerda em várias ocasiões, é acertado por tabela.

Rocha Mattos diz que, depois de aposentados, os dois delegados estiveram em seu gabinete, na 4ª Vara da Justiça Federal em São Paulo, “umas quinze ou vinte vezes”, sempre pedindo “favores” para facilitar a ação da dupla em casos em que atuavam.

Segundo o juiz, Lacerda e Abraços trabalhavam para uma entidade chamada Associação Brasileira de Combate a Falsificações (ABCF), que pertence ao advogado e empresário Fernando Ramazini. Também trabalharam no gabinete do senador Romeu Tuma (PFL-SP) e prestaram serviços para duas empresas paulistas de segurança, a Tower e a Tejofran.

Segundo o juiz, Lacerda, já aposentado e trabalhando para Tuma, o convenceu a decretar a prisão do dono da distribuidora de petróleo Petroforte, Ari Natalino, supostamente envolvido em adulteração de combustível. Lacerda teria insistido na prisão para que Natalino fosse obrigado a comparecer à CPI do Roubo de Cargas, presidida por Tuma. Ele insinua que haveria algum problema pessoal de Tuma com Natalino no caso.

Ainda de acordo com Rocha Mattos, em outras ocasiões, dessa vez a serviço das firmas de segurança Tower e Tejofran, Lacerda e Abraços teriam ido à 4ª Vara Federal retirar cópias de processos que envolviam empresas concorrentes. O juiz diz ainda que os dois delegados, a serviço da ABCF, praticavam “tráfico de influência” na Polícia Federal.

A ABCF é uma organização não-governamental que atua no combate a falsificações, em estreita ligação com empresas lesadas por esse tipo de crime, como a indústria dos cigarros. De acordo com Rocha Mattos, a ONG chegava a oferecer prêmios de recompensa a agentes, delegados e investigadores que apreendiam mercadorias falsificadas, especialmente cigarros contrabandeados do Paraguai ou falsificados no Brasil.

Em troca dos “favores” que fazia, o juiz, famoso por possuir em seu poder grande quantidade de dossiês sobre os mais variados assuntos e pessoas, afirma que recebia documentos diretamente das mãos de Lacerda. Um deles, afirma, dizia respeito à investigação sobre uma operadora do mercado do dólar, a Turist Câmbio, que tinha movimentação financeira calculada em cerca de US$ 1 bilhão.

Os extratos da conta, segundo Rocha Mattos, foram apreendidos durante a Operação Anaconda na casa dele, em São Paulo, e o esquema foi atribuído pela imprensa a ele.

Paulo Lacerda, através de sua assessoria, negou todas as acusações feitas pelo juiz, mas admitiu ter ido pessoalmente à Justiça Federal tratar do pedido de prisão de Natalino. Só que disse ter feito isso em missão oficial da CPI., quando assessorava Tuma. O delegado aposentado João Carlos Sanches Abraços também refuta as acusações.

Abraços admite que, depois de aposentado, prestou serviço para as empresas mencionadas pelo juiz, atividade que não tem nada de ilegal. E defendeu a ABCF que, segundo ele, tem parcerias e faz doações eventuais de equipamentos para as polícias Civil e Federal. “Combater a falsificação é de interesse da União também”, disse.

O delegado aposentado confirma que ia à Justiça Federal levantar processos e admite ter mantido contados com Rocha Mattos no período. “Mas o contato com ele era puramente acadêmico, já que eu fazia mestrado na época”, disse.

Abraços tem uma explicação para a menção ao nome dele no depoimento: “O Rocha Mattos quer atingir o Lacerda, acha que eu sabia dessa investigação e deve estar se sentindo traído”, diz.

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