Volta do Congresso dimensionará efeitos de atos pró-Bolsonaro nos 26 estados e no Distrito Federal

Militantes favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro saíram às ruas em pelo menos 140 cidades, nos 26 estados e no Distrito Federal, ao longo desse domingo (26), para defender o governo, a reforma da Previdência e o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Embora não tenha sido divulgado um balanço consolidado com o número de participantes em todo o país, os protestos foram marcados pela presença expressiva de pessoas e pelo clima pacífico, destoando de previsões menos otimistas feitas até mesmo por apoiadores de Bolsonaro.

Os efeitos da mobilização capitaneada por bolsonaristas nas redes sociais serão sentidos com a retomada dos trabalhos do Congresso, um dos principais alvos dos manifestantes. As críticas foram dirigidas principalmente ao Centrão, bloco informal composto por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade, que tem criado obstáculos para Bolsonaro no Parlamento. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi um dos políticos mais hostilizados. Defensores de Bolsonaro acusaram Maia de dificultar a aprovação da reforma da Previdência e de outros projetos de interesse do governo. Existe o temor de que o clima de radicalização e a hostilidade contra o Congresso tragam dificuldades para aprovar matérias de interesse do governo no Parlamento. O Supremo Tribunal Federal (STF) e a imprensa também estiveram na mira dos manifestantes.

As cidades que reuniram maior número de apoiadores de Bolsonaro foram São Paulo e Rio de Janeiro. Na Avenida Paulista, houve pelo menos dois momentos de hostilidade. Uma mulher que deixava o trabalho teve de ser escoltada pela polícia após ser cercada por manifestantes depois que os questionou sobre Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), acusado de se apropriar de parte do salário de seus assessores na Assembleia Legislativa. Também recebeu proteção outra mulher que vestia uma camiseta da vereadora carioca Marielle Franco (Psol), assassinada no ano passado por causa de sua militância em defesa das minorias e oposição às milícias.

Apenas grupos isolados defenderam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro, que chegou a sugerir que poderia sair às ruas para engrossar as manifestações, limitou-se a propagandear as manifestações pelas redes sociais. Em culto na manhã de domingo, o presidente afirmou que os protestos eram um recado contra as “velhas práticas” políticas.

Em Brasília, onde o ato reuniu entre 15 mil e 20 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar, alguns manifestantes defendiam a volta do regime monarquista. Havia faixas com dizeres favoráveis ao ministro Paulo Guedes e um boneco inflável de 20 metros que misturava a imagem do ministro Sérgio Moro com o personagem de quadrinhos e cinema Super-Homem. Cinco carros de som traziam faixas defendendo a aprovação da Medida Provisória 870, que reduziu o número de ministérios. A MP, que corre o risco de perder a validade se não for votada até o próximo dia 3, foi aprovada após acordo na Câmara e precisa ser avalizada esta semana pelo Senado.

O site de notícias G1 fez um comparativo entre os atos pró-Bolsonaro deste domingo e as manifestações contra o contingenciamento de orçamento da educação, no último dia 15, e apontou que a mobilização contrária à decisão do governo tinha ocorrido em 222 cidades até as 20h40 daquele dia. Ontem, no mesmo horário, foram 156 cidades.

Um dos criadores do Mídia Ninja, coletivo de esquerda que faz oposição a Bolsonaro, o ativista Bruno Torturra avaliou no Twitter que, a despeito de suas divergências ideológicas, as manifestações foram positivas para o governo.

A mobilização deste domingo aconteceu de forma simultânea nas ruas e nas redes sociais. Já por volta das oito da manhã o assunto mais comentado no Twitter eram as manifestações com a hashtag #BrasilNasRuas. E assim seguiu até o fim da tarde. A hashtag contrária aos atos acompanhou a movimentação virtual na segunda colocação.

Os protestos dividiram a direita. O Movimento Brasil Livre (MBL), que ganhou notoriedade na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff e foi um dos primeiros a apoiar a candidatura de Bolsonaro, foi criticado em diversas postagens nas redes sociais por não aderir aos atos desse domingo. O MBL, assim como algumas lideranças do próprio PSL, haviam manifestado discordância com a convocação do ato para defender o governo por temerem que os protestos poderiam ser esvaziados.

Estudo feito pela agência de comunicação FSB Inteligência mostrou que os apoiadores de Bolsonaro conseguiram manter os protestos no topo dos assuntos mais comentados do Twitter ao longo do dia. “A hashtag #BrasilNasRuas dominou o embate nos Trending Topics do Twitter durante todo o dia, com a participação majoritária de apoiadores do movimento, tais como a deputada federal Carla Zambelli, o investidor Leandro Ruschel e o jornalista Bernardo P. Küster – responsáveis pelas publicações de maior alcance”, diz o levantamento.

Um contraponto entre os publicadores foi o escritor Paulo Coelho, que questionou o tamanho
das manifestações nas ruas. “A #FoliaDosCusProlapsados apareceu duas horas após a principal hashtag e seguiu em segundolugar ao longo de todo o domingo (26). Apesar da grande visibilidade, o impacto foi cerca de 13% do maior grupo de publicações, o #BrasilNasRuas”, aponta a pesquisa. O youtuber Felipe Neto, o perfil de humor Dilma Bolada e o do ex-deputado federal Jean Wyllys foram alguns dos detratores mais presentes nos debates do dia, segundo a FSB.

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