Regina Duarte não deixa legado, diz ex-ministro da Cultura

O ex-ministro da Cultura e deputado federal Marcelo Calero (Cidadania-RJ) afirmou que Regina Duarte não deixa nenhum legado na Secretaria Especial de Cultura e desconfia que ela não terá outro papel na Cinemateca, posto que assumirá a partir de agora. A atriz anunciou a saída da pasta nesta quarta-feira (20), após semanas com a permanência questionada.

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“Em dois meses você consegue pelo menos mostrar um planejamento, colocar pessoas ao redor de si, encaminhar soluções. Em nenhum momento isso foi feito, a gente vê ausência total. Foram dois meses e meio desperdiçados”, avaliou ele sobre a passagem da atriz pelo órgão.

Para o ex-ministro, desde o início do governo não foi indicado qualquer tipo de planejamento para o setor. “Isso que é o mais grave. Para onde a gente quer chegar?”. Ele entende que o governo não consegue ter a compreensão da cultura como “a mola propulsora de uma evolução da sociedade” e, por isso, não consegue planejar nada nem colocar o setor no lugar de destaque que ele merece.

Regina Duarte é a quarta a sair da Secretaria desde o início do governo de Jair Bolsonaro. Ela ficou dois meses na função, que é aproximadamente o mesmo período que seus dois antecessores permaneceram no cargo.

Antes dela quem comandava a Cultura era Roberto Alvim, demitido após gravar um vídeo com referências nazistas. Anteriormente, a Secretaria era subordinada ao Ministério da Cidadania e ocupada por Ricardo Braga.

Influência da ala ideológica

Regina era constantemente atacada por integrantes do governo ligados ao escritor Olavo de Carvalho, que desde o início bombardeou a indicação da atriz para o cargo. A suspeita desse grupo é de que ela seria suscetível ao “setor de esquerda”. Sua atuação também sofreu reparos públicos do presidente nas últimas semanas, que reclamou do fato de a secretária despachar de São Paulo desde o início da pandemia.

Segundo Calero, ao censurar reiteradamente a área, o governo a coloca numa lógica de conflito, com inimigos ideológicos a serem combatidos. “O norte do governo Bolsonaro é destruição do setor cultural, é a destruição de qualquer flanco que possa significar uma ameaça ao seu projeto hegemônico de poder”, avalia ele.

Para Calero, a escolha de nomes polêmicos para braços da Cultura, que nem sempre passaram pelo crivo de Regina, revela a falta de compreensão do governo Bolsonaro sobre o setor e sobre seu papel na sociedade. Um desses nomes é o do jornalista Sérgio Camargo na Fundação Palmares, cuja nomeação é contestada judicialmente.

Ainda não foi informado o substituto da atriz no cargo, mas o nome aventado é o do também ator Mario Frias. Calero afirma que desconhece Frias, mas espera que, se efetivado, ele consiga desenvolver trabalho para além de qualquer ideologia, colocando a cultura como vetor estratégico do desenvolvimento do Brasil.

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“Se não houver uma mudança na mentalidade do Bolsonaro a respeito da cultura – que ele enxerga como área adversária dele, a ser combatida por supostamente ser inimiga –, nós vamos continuar tendo esse obscurantismo imperando no setor cultural”, avaliou o ex-ministro.

Em meio à pandemia da covid-19, o setor cultural está sofrendo muito porque vive da aglomeração. Apesar disso, Calero avalia que tem uma série de atividades que podem ser levadas a cabo durante a pandemia, especialmente no campo da pós-produção, e que poderiam contar um olhar mais atento do governo.

Raio-x
Calero, 37, é advogado com experiência nos setores público e privado e diplomata de carreira. Ocupou a cadeira de ministro da Cultura durante seis meses durante o governo Temer, deixando o cargo após denunciar sofrer pressões para rever um parecer técnico desfavorável a interesses pessoais do então ministro-chefe da Secretaria de Governo do Brasil, Geddel Vieira Lima. Segundo Calero, membros do governo teriam tentado induzi-lo a rever uma decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), negando licença para um empreendimento imobiliário na Bahia, no qual Geddel possuía um apartamento. Também foi Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro entre 2015 e 2016.

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