Redes bolsonaristas indicavam racha entre governo e militares há semanas

As redes sociais restritas de militantes do presidente Jair Bolsonaro já registravam críticas aos militares há pelo menos duas semanas. Os grupos, aos quais o Congresso em Foco teve acesso sob condição de anonimato, indicavam uma iminente cisão entre a alta cúpula do governo e a ala de militares que ocupam ministérios e cargos em grande volume na Esplanada.

A queda do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, uma das seis trocas ministeriais feitas por Bolsonaro nesta segunda-feira (29), mostrou que a fervura alimentada nas redes sociais tomou forma de ação presidencial. Uma mudança de cargos relevante no gabinete presidencial, com a saída de um general, mostra que as alterações devem atender a parte mais radical do bolsonarismo.

Mensagens em grupos bolsonaristas lidas pela reportagem mostram uma atividade intensa de conspiração contra os militares. Tal movimentação, tratada primeiramente em segredo, se tornou cada vez mais numerosa em comentários –seja em perfis de influenciadores bolsonaristas, seja de seus seguidores.


Um vídeo circulou nas redes restritas de bolsonaristas diz: "repare em quem era amigo quando convinha".  Nele, militares aparecem ao lado de Bolsonaro e, em seguida, ao lado de personalidades não alinhadas com o presidente – o que indicaria, para os autores do vídeo, certo clientelismo dos militares.

Aparecem no vídeo, entre outros, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, o vice presidente Hamilton Mourão e o agora ex-ministro da defesa Fernando Azevedo e Silva – ambos generais. Em algumas imagens, estes militares aparecem próximos a Bolsonaro e, em outras, junto a nomes considerados não alinhados com o bolsonarismo, tais como o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), ex-presidente do Senado, e o ex-presidente Lula.

O Congresso em Foco decidiu não reproduzir outras mensagens a que tivemos acesso para evitar que os autores sejam identificados, o que poderia colocar em risco a segurança das nossas fontes.

Olavo escancarou a revolta

Entre ataques a críticos do presidente e militantes do que considera ser a "esquerda", o ideólogo mais influente do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, passou a última semana publicando uma série de provocações diretas aos militares e às forças armadas – braço do governo que Olavo evitava criticar em público. O que no início parecia ruído mostra-se, no entanto, como um sinal bastante claro. As mensagens refletem um movimento que vinha ocorrendo há semanas em grupos de Telegram com influenciadores da esfera apoiadora do presidente de divórcio entre as partes.

Na última sexta-feira (26), Olavo voltou a seu perfil no Twitter para questionar: "De que lado vão ficar as Forças Armadas?". As críticas aos militares brasileiros vêm se avolumando desde a semana passada – lá, o pensador bolsonarista, exilado nos Estados Unidos, chegou a dizer que os militares "são o maior risco para a segurança nacional" e que, se elas não ajudam Bolsonaro na "extinção de partidos proibidos por lei" – seja lá o que isso signifique – tais forças "não servem para porra nenhuma".

Não demorou muito e seus seguidores passaram a replicar esta narrativa – mesmo que isso seja o contrário do que diziam há poucas semanas:

O descontentamento das bases bolsonaristas passou a ser direcionado, na última semana, à ala militar que ocupa o Planalto. Ministros generais como Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), por exemplo, também aparecem no vídeo crítico aos militares.

Ramos já é, inclusive, alvo da ira dos bolsonaristas – que chegou à base de apoio do governo no Congresso Nacional: o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ), um dos mais fieis apoiadores do presidente na Câmara dos Deputados, gravou um apelo a Bolsonaro nesta quinta-feira (25) onde advertiu ao presidente que precisaria dizer verdades ao presidente – uma delas era de que o ministro Luiz Eduardo Ramos está "jogando o Brasil no buraco."

"Não delegue mais ao Ramos a função de articular. O Ramos está levando o senhor ao buraco, ao buraco presidente! Ninguém confia no Ramos e, se ninguém tem coragem de lhe falar – eu já lhe falei pessoalmente e estou falando publicamente", disparou. "Não estou falando de toma lá dá cá, não estou falando de aparelhar a máquina pública. Estou falando que não se governa com generais, e nem com extremistas!"

> Em reunião com Bolsonaro, Pacheco reclama de política externa de Ernesto
> Onyx fala “idiotice” ao atribuir covid a pulga e formiga, diz fundador da Anvisa

Continuar lendo