Imprensa estrangeira e até aliados censuram Bolsonaro por divulgação de vídeo

As postagens do presidente Jair Bolsonaro no Twitter com conteúdo obsceno desencadearam uma sequência de críticas, até mesmo de aliados, e repercutiram também na imprensa internacional. A polêmica começou na noite de quinta (5) com a divulgação de um vídeo classificado pela própria plataforma como “conteúdo sensível”, mas continuou na manhã desta quarta-feira (6), em um novo post, com uma pergunta sobre o que é “golden shower” - nome popular, em inglês, para um fetiche de urinar na frente ou sobre o parceiro.

O The New York Times afirmou que o Bolsonaro “não está menos impulsivo em suas redes sociais do que quando candidato” na matéria intitulada “As guerras culturais no Brasil fazem uma aparição gráfica no feed de Twitter de Bolsonaro”, intitulou a publicação.

A gravação publicada na conta oficial de Bolsonaro na rede social mostra um homem dançando sobre um ponto de táxi. Ele introduz, aparentemente, o dedo no ânus enquanto dança. Na sequência, outro jovem urina na cabeça dele. Embora o presidente não tenha identificado o local onde foi registrada a cena, o episódio ocorreu na segunda-feira (4) em um bloco chamado Blocu, no centro de São Paulo.

“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões”, escreveu o presidente, que foi um dos alvos preferenciais nos blocos de carnaval de rua em todo o país.

O também americano The Washington Post destacou o fato de que o posto do presidente “pretendia despertar indignação sobre como o feriado [de Carnaval] se tornou vulgar”.

Já o The Guardian afirmou, no título, que o capitão foi “ridicularizado” pelas postagens na sua rede social. “Bolsonaro ridicularizado após tuitar vídeo carnavalesco explícito”. Na reportagem, a publicação britânica menciona as inúmeras manifestação contrárias ao presidente durante o Carnaval e as marchinhas de protesto. “Bolsonaro, que goza de comparações com Donald Trump, aparenta não ter recebido bem as críticas”.

Incondizentes com o cargo

Aliado de Bolsonaro, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), afirmou, também no Twitter, que a postagem “é incompatível com a postura de um presidente, ainda mais de direita. Bola fora”.

“Criticar a postura de Bolsonaro não significa elogiar o ato. A atitude dos foliões foi reprovável, abjeta, criminosa. Tem de ser punida com o rigor da lei. É tarefa para o Ministério Público. De todo modo, nada justifica o Presidente compartilhar pornografia no Twitter”, acrescentou o deputado Kim Kataguiri.

Líderes da oposição classificaram a divulgação do vídeo como conduta incompatível com o cargo e avaliam a possibilidade de tomar alguma providência em relação ao episódio. “Não podemos descartar a possibilidade de solicitar um teste de sanidade mental”, provocou o líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS).

O também petista Paulo Teixeira (SP) afirmou que irá representar contra o presidente com base na lei 13.718, que tipifica o crime de divulgação sem consentimento da vítima, de cena de sexo, nudez ou pornografia.

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O ator José de Abreu, crítico contumaz do presidente, não perdeu a oportunidade de, mais uma vez, se manifestar. Em sua conta no Twitter disse: “Alo, @jairbolsonaro, seu meteoro chegou! Sou eu, seu fascista!”, ao que recebeu retorno quase imediato. “Estamos processando alguns e este “meteoro” será o próximo”, afirmou Bolsonaro.

Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI, o ativista Toni Reis criticou a divulgação do vídeo por Bolsonaro. Para ele, o presidente deveria estar empenhado em buscar votos para aprovação da reforma da Previdência e trabalhar pela melhoria da educação, da saúde e da cultura.

“Não cabe ao presidente da República expor isso de forma tão vergonhosa no Twitter. Agora ele é presidente da República, não mais um deputado federal do baixo clero”, afirmou. Toni também considera equivocada a generalização feita por Bolsonaro para questionar os blocos de Carnaval. “Generalizações não convêm a ninguém. O que se passou entre essas duas pessoas é uma exceção e não pode ser colocado como regra”, defendeu.

A oposição também defende a exclusão da conta de Bolsonaro no Twitter, usada diariamente pelo presidente para se comunicar diretamente com a população. A plataforma estabelece uma série de diretrizes sobre a publicação de conteúdo adulto.

De acordo com as normas da plataforma, mídias com conteúdo adulto devem ser classificadas como sensíveis, uma espécie de filtro para saber se o usuário concorda em ver as imagens ou não. Isso não foi feito pelo presidente no primeiro momento. A advertência só foi publicada duas horas após a publicação do conteúdo.

Defesa de Bolsonaro

Aliados do presidente recorreram também ao Twitter para defendê-lo. “A esquerda pirou com a divulgação do vídeo por @jairbolsonaro, mas NÃO deu um pio sobre a situação promiscua, sobre o ato libidinoso – portanto criminoso – feito a céu aberto”, disse a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-PR).

Continuou: “Essa esquerda que mostra bundas e peitos nas ruas, q usa símbolos religiosos pra cometer atos profanos em praça pública, q apoia exposições com adultos pelados para crianças tocarem, agora está “chocada” com o vídeo compartilhado pelo presidente @jairbolsonaro. Faz-me rir!”

“E quanto aos oportunistas de plantão que falam que a divulgação do vídeo pode gerar processo de impeachment de @jairbolsonaro, eu lamento avisar: mas NÃO PODE NÃO! Melhor tirarem o cavalinho da chuva. VÃO TRABALHAR, LACRADORES!”

Um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) também se manifestou na sua conta na plataforma: “A esquerda é doente... Aplaudem “professora” que defeca em público e depois pedem impeachment do presidente por ter denunciado essa bizarrice em público”.

No fim da noite desta quarta, o Palácio do Planalto divulgou uma nota à imprensa em que minimiza as críticas recebidas, alegando que as cenas constantes no vídeo divulgado “escandalizaram” não apenas o capitão, mas a sociedade. Alegam ainda que Bolsonaro não pretendeu “criticar o carnaval de forma genérica, mas sim caracterizar uma distorção clara do espírito momesco”. (Veja a íntegra da nota)

 

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