Cargo de diretor da PF volta a contrapor Moro e Bolsonaro. Ministro nega demissão

A permanência do ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Bolsonaro está incerta. O impasse começou depois de o presidente Jair Bolsonaro comunicar a Sergio Moro, nesta quinta-feira (23), que trocará a diretoria-geral da Polícia Federal, hoje ocupada por Maurício Valeixo. Segundo os sites O Antagonista e da Folha de S.Paulo, o ministro pediu demissão após ser informado sobre a saída do auxiliar. "O ministro não confirma o pedido de demissão", respondeu a assessoria de Moro.

O Congresso em Foco conversou com fontes próximas ao ministro que afirmaram que, se a troca realmente acontecer, Moro não deverá permanecer no cargo.

Segundo informações de fontes próximas a Sergio Moro, após Jair Bolsonaro receber a ameaça do ministro pedir demissão, o presidente recuou.

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A relação entre Bolsonaro e Moro tem sido marcada por conflitos desde o início do governo. O primeiro ocorreu ainda em janeiro do ano passado, quando Bolsonaro ignorou as sugestões do seu ministro da Justiça e da Segurança Pública ao assinar o decreto que afrouxou o controle de armas.

Em fevereiro, Moro passou pelo constrangimento de desconvidar a especialista em segurança Ilona Szabó para uma vaga de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, órgão consultivo do Ministério da Justiça, após o nome dela ser atacado nas redes sociais por bolsonaristas.

Sérgio Moro também ficou solitário na defesa da permanência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) no Ministério da Justiça. Não só o órgão foi transferido para o Banco Central como foi demitido o seu presidente, Roberto Leonel, auditor fiscal de carreira que atuou na Lava Jato e foi indicado por Moro para a função.

Ainda no ano passado Bolsonaro ficou furioso com o fato de o seu ministro ter tentado reverter a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, de suspender investigações baseadas em dados de órgãos federais sem prévia autorização judicial.

Toffoli acolheu pedido da defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho mais velho do presidente, suspeito de operar esquema ilegal de recolhimento de salários de assessores legislativos.

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O presidente deu repetidos sinais de não avalizar o grau de autonomia que a PF alcançou durante os últimos governos.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro entrou em rota de colisão com Moro e a PF ao tentar interferir no comando da superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Em entrevista, o presidente afirmou que o superintendente estadual, Ricardo Saadi, deixaria o cargo por “problemas de gestão” e “produtividade” e seria substituído por um delegado do Amazonas, ignorando a indicação já feita pelo diretor-geral, Maurício Valeixo.

O descontentamento do presidente com Saadi foi atribuído por interlocutores da polícia à sua posição independente em relação às investigações que envolvem Flávio Bolsonaro.

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“O que eu fiquei sabendo, se ele [Valeixo] resolveu mudar, vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu. Deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu. Pelo que está pré-acertado, seria o lá de Manaus [Alexandre Silva Saraiva]”, afirmou Bolsonaro em entrevista a jornalistas, desautorizando Valeixo e Moro.

Bolsonaro recuou depois da ameaça do diretor-geral e de delegados federais de entregarem o cargo. Após a reação dos policiais, o presidente amenizou o tom das declarações.

Segundo nota divulgada ano passado pela coluna Radar, da revista Veja, Bolsonaro também tinha ficado irritado com a conduta da PF em relação à abertura de uma investigação envolvendo o deputado Hélio Negão (PSL-RJ), amigo do presidente e cogitado por ele para disputar a prefeitura do Rio como seu candidato este ano.

A tensão entre Moro e Bolsonaro também está relacionada à disputa de 2022. O presidente, que já reconheceu mais de uma vez a possibilidade de disputar a reeleição, vê Moro como um potencial obstáculo futuro. Para alguns analistas políticos, o presidente criou deliberadamente embaraços para levar o ministro a entregar o cargo, poupando-o assim do desgaste de exonerar o comandante da Lava Jato.

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