Bolsonaro não tem apoio militar para golpe, diz ex-ministro da Defesa

Filiado à época ao PCdoB, partido que protagonizou a Guerrilha do Araguaia, o ex-deputado Aldo Rebelo comandou o Ministério da Defesa entre outubro de 2015 e maio de 2016, quando a então presidente Dilma Rousseff teve o mandato cassado. Mesmo com as divergências ideológicas, Aldo exerceu o cargo sem embates com os militares, algozes na década de 70 de seus companheiros guerrilheiros. Diferentemente do que se poderia pressupor, sua nomeação para o ministério recebeu aplausos de seu então colega de Câmara Jair Bolsonaro.

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Para Aldo, Bolsonaro demonstra desespero e insegurança ao invocar que as Forças Armadas estão ao seu lado ao participar de manifestação pró-intervenção militar, como ocorreu no último domingo (3). O presidente, na avaliação dele, não tem apoio dos militares para uma eventual tentativa de golpe de Estado.

“As declarações parecem mais reações de desespero e insegurança. O presidente sabe que não contaria com as Forças Armadas para uma ruptura da legalidade. Ao prestigiar os defensores da tese, cria uma tensão que se contrapõe ao assédio das investigações que se acumulam nos casos das milícias, das fake news, e mais recentemente das denúncias do ex-ministro Sérgio Moro”, disse o ex-ministro da Defesa ao Congresso em Foco.

Ele ressalta que a deposição do então presidente João Goulart pelos militares em 1964 tinha apoio de empresários, da mídia, de setores da Igreja Católica, dos Estados Unidos e de grande parte da classe média. “Hoje, ao que consta, só uma minúscula fração de desesperados tem pesadelos com uma aventura golpista”, afirma.

Presidente da Câmara entre 2005 e 2007, em plena crise do mensalão, Aldo considera o impeachment de qualquer presidente uma experiência traumática. Conta que se arrependeu de ter votado pela cassação do mandato de Fernando Collor em 1992 e que considera que houve uma violência desnecessária para apear Dilma do poder em 2016.

Aldo defende que o Judiciário e o Legislativo estabeleçam limites ao que chama de “arroubos presidenciais”. “Embora essas interferências tenham como efeito colateral a indesejável fragilização do Poder Executivo diante dos outros poderes, mas é o que acontece quando o chefe do Executivo é incapaz de proteger as prerrogativas da instituição que representa”, defende.

Na entrevista a seguir, Aldo diz que deixou o PCdoB, do qual foi uma das principais lideranças nas últimas décadas, por divergir do posicionamento do partido em relação às chamadas pautas identitárias, como a defesa da causa LGBT e do movimento negro. Para ele, a esquerda se desvia de bandeiras históricas ao privilegiar esse tipo de agenda.

“O Brasil importou da América e da Europa o que chamam de identitarismo, tanto o conservador quanto o de esquerda. O identitarismo subjuga a Nação e o interesse nacional a uma agenda ditada pelas diferenças biológicas e pelas opções de comportamento e de costumes”, diz.

Depois de uma breve passagem pelo PSB e pelo Solidariedade, Aldo está sem partido. Em 2018 chegou a lançar pré-candidatura à Presidência da República, mas desistiu. Nos governos Lula e Dilma, acumulou passagem por quatro ministérios.

Veja a íntegra da entrevista dada por Aldo Rebelo ao Congresso em Foco:

Congresso em Foco – Como o senhor viu essa nova participação do presidente da República em uma manifestação pró-intervenção militar no domingo, a segunda em três semanas?

O presidente parece um homem atormentado. Suas reações carecem da temperança necessária ao líder em momentos tumultuados da vida nacional, quando há necessidade da dosagem certa reunindo firmeza, coragem, serenidade e generosidade. As falas do presidente não trazem tranquilidade nem constituem mensagens pacificadoras, apenas agravam e tumultuam um ambiente já radicalizado.

O presidente Bolsonaro disse, no domingo, que chegou ao limite e que as Forças Armadas estão com ele. O senhor vê nessa declaração uma ameaça de ruptura institucional? O presidente tem hoje apoio para uma tentativa de golpe?

As declarações parecem mais reações de desespero e insegurança. O presidente sabe que não contaria com as Forças Armadas para uma ruptura da legalidade. Ao prestigiar os defensores da tese, cria uma tensão que se contrapõe ao assédio das investigações que se acumulam nos casos das milícias, das fake news, e mais recentemente das denúncias do ex-ministro Sérgio Moro. Deve pesar ainda na estabilidade emocional do presidente a crise econômica e social que galopa sem rédeas em meio à pandemia. É bom considerar que em 1964 o golpe civil contou com o apoio dos empresários, da mídia, da igreja, via CNBB, de vastos setores da classe média, da embaixada dos Estados Unidos, e por último dos militares. Hoje, ao que consta, só uma minúscula fração de desesperados tem pesadelos com uma aventura golpista.

Que mensagem passa para a sociedade o encontro entre o presidente Jair Bolsonaro e o tenente-coronel Sebastião Curió, acusado de assassinatos e torturas sobretudo na Guerrilha do Araguaia?

O presidente deveria valorizar o passado que uniu o país, e não o que dividiu e traumatizou. É mais um episódio a ilustrar a desorientação nos tempos difíceis que atravessamos.

O senhor vê condições para o impeachment de Bolsonaro hoje? Percebemos certa divisão hoje dentro da oposição em relação a esse assunto. A oposição deveria pegar essa bandeira? Ou neste momento um processo de impeachment favoreceria apenas Bolsonaro?

Eu era um jovem deputado quando votei pela perda do mandato do presidente Collor. Era ministro da presidente Dilma quando ela foi afastada por uma urdidura sórdida à qual deram o nome de pedalada fiscal. Não votaria novamente pela perda do mandato de Collor e acho que a democracia sofreu uma violência desnecessária no caso da presidente Dilma.

Por que o senhor se arrependeu de ter votado pelo impeachment de Fernando Collor? Não estava caracterizado ali prática de crime?

A perda do mandato era uma pena brutal para o primeiro presidente eleito pelo voto direto do povo depois de tantos anos de privação de eleições democráticas no país.

Na ausência de impeachment, quais alternativas poderiam ser aplicadas pelos poderes Legislativo e Judiciário para enfrentar as investidas autoritárias do presidente da República?

Algumas delas já foram adotadas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso, estabelecendo limites aos arroubos presidenciais. Embora essas interferências tenham como efeito colateral a indesejável fragilização do Poder Executivo diante dos outros poderes, mas é o que acontece quando o chefe do Executivo é incapaz de proteger as prerrogativas da instituição que representa.

O senhor foi parlamentar por décadas, líder partidário e do governo, além de presidente da Câmara. De que forma o Congresso deve reagir às provocações de Bolsonaro?

Com firmeza e serenidade. E olhe que estou falando de um Congresso que acolheu um parecer fantasma de pedalada para apear do poder uma mulher honrada e cumpridora de seus deveres, que respeitou a decisão da Câmara dos Deputados, mesmo consciente dos interesses políticos e ideológicos em jogo naquele processo.

Como o senhor avalia a gestão feita por Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre em meio a essa crise?

Os que hoje vociferam contra Rodrigo Maia e Alcolumbre desfilavam em louvor ao presidente Eduardo Cunha quando ele organizava as chamadas pautas-bomba para golpear o mandato da presidente Dilma Rousseff. Tudo isso que Bolsonaro com alguma razão denuncia, ou seja, o esvaziamento do Executivo via o sequestro do orçamento pelos interesses corporativos, foi de certa forma iniciado, estimulado e aprovado, inclusive por ele, contra o governo da presidente Dilma.

Que desfecho pode ter essa queda de braço entre Maia e Bolsonaro?

O presidente Rodrigo Maia não pode capitular, sob pena de rebaixar e desonrar o poder que representa e a função que ocupa. Precisa enfrentar a ameaças do Presidente da República nos seus devaneios. Em lugar de reconhecer o Legislativo como poder legítimo o governo atiçou o gabinete do ódio para tentar intimidar seus integrantes. Sempre tive na convivência com o deputado Bolsonaro uma relação amistosa e cooperativa, e a partir dessa convivência o aconselharia a retomar com o Congresso uma relação respeitosa, que proteja suas opiniões críticas, mas que respeite um poder tão legítimo quanto o dele.

Na semana passada o presidente Bolsonaro disse que houve “quase uma crise institucional” após a decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender a nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal. O senhor vê o Judiciário cometendo excessos e invadindo o campo da política? Foi correta a decisão do ministro nesse caso?

A Constituição de 1988, para neutralizar a influência política da corporação militar, criou e empoderou corporações civis que se mostraram imaturas, narcisistas e incapazes de compreender a questão nacional. O PT no poder, muito ligado a estas corporações, tratou de empoderá-las ainda mais, criando lista tríplice para o Ministério Público, contrariando a Constituição e subtraindo uma prerrogativa do presidente da República, e oferecendo autonomia de inteligência para a Polícia Federal, o que a transforma num poder paralelo na administração federal. As corporações resolveram disputar com a política a atribuição de dirigir o destino da sociedade e se o Supremo já havia proibido a nomeação de ministros da presidente Dilma e do presidente Michel Temer o que o impediria de vetar um delegado de Bolsonaro? Os que reclamam agora são os mesmos que aplaudiram quando Dilma e Temer tiveram impedidas suas nomeações, portanto, chegaram tarde na fila da reclamação.

O senhor deixou o PCdoB depois de ter sido por anos sua principal liderança. Teve uma passagem breve pelo PSB e foi para o Solidariedade. O senhor considera que se exauriu o atual sistema político partidário do Brasil?

É evidente que o sistema político brasileiro tem defeitos e precisa ser reformado, mas a origem dos nossos males é a perda da utopia desenvolvimentista e a permanência de graves desequilíbrios regionais e desigualdades sociais.

Qual é o grande desafio da esquerda hoje? O protagonismo do PT e do ex-presidente Lula dificultam a união da esquerda no Brasil hoje?

A esquerda só pode ter um desafio, que deve ser o desafio de todos os brasileiros patriotas, independentemente de convicções ideológicas ou escolhas partidárias, que é a retomada do crescimento da economia, a redução das desigualdades e a preservação da incipiente democracia que estamos construindo.

O ex-presidente Lula deveria abrir espaços para novas lideranças na esquerda? Ou não abre por que essas novas lideranças não nascem mais?

Na política, espaços são conquistados. As novas lideranças que tratem de construir seus caminhos com ideias que iluminem o futuro do Brasil e do povo brasileiro com a luz do otimismo e da esperança.

Qual é hoje a grande autocrítica que a esquerda brasileira deveria fazer?

O Brasil importou da América e da Europa o que chamam de identitarismo, tanto o conservador quanto o de esquerda. O identitarismo subjuga a Nação e o interesse nacional a uma agenda ditada pelas diferenças biológicas e pelas opções de comportamento e de costumes. O Brasil testemunha hoje o genocídio cultural e sociológico de sua mestiçagem exaltada por Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. O País foi dividido em uma sociedade bicolor como nos Estados Unidos, verdadeiro crime contra a identidade nacional brasileira, e que precisa ser enfrentado com os rigores da ciência e da coragem política. O caminho do Brasil exige a centralidade da questão nacional como eixo capaz de unir amplamente a Nação em torno de seus objetivos.

A que pode levar o Brasil essa atual polarização política?

Nós já vivemos há algum tempo um processo de desorientação. Nas redes sociais circulam vídeos de valentões bombados em academias promovendo saraivadas de tiros ameaçadores e outros que exibem suas musculaturas de hormônios químicos para intimidar possíveis adversários. O Brasil já viveu quatro guerras civis simultâneas durante a Regência, a Farroupilha do Rio Grande, a Sabinada na Bahia, a Balaiada no Maranhão e a Cabanagem no Pará. Depois passamos por Revolução Federalista, Revolta de Canudos, além das peripécias de Lampião, Corisco e outros valentões do Sertão Nordestino. Não creio que voltemos a esses tempos de violência, mas para isso os candidatos a arruaceiros precisam ser enfrentados.

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro sempre foi muito criticado por políticos por causa de sua atuação à frente da Lava Jato. Deixa o governo agora fazendo acusações contra o presidente da República. De que maneira esse rompimento mexe no tabuleiro eleitoral para 2022? Essa ruptura força a esquerda a mudar de estratégia em alguma medida?

O ex-ministro Sérgio Moro portou-se muito mal, usufruiu da intimidade e dos segredos funcionais na relação com seu chefe presidente da República para depois usar essa convivência como arma política. O crime porventura cometido pelo Presidente deveria ter sido denunciado na hora e não guardado num aplicativo de celular para ser usado depois. Não restam dúvidas de que a atuação do ex-juiz tinha finalidade política desde quando ele era a celebridade da Lava Jato. Apenas sua ambição foi ampliada quando virou ministro da Justiça de Bolsonaro e começou a cobiçar o lugar do chefe.

O senhor defenderia hoje uma aliança entre a esquerda, centro-esquerda e o centro, incluindo-se aí o PSDB, para enfrentar Bolsonaro?

Eu defendo a união dos patriotas em torno de um projeto de desenvolvimento para o Brasil, baseado no fortalecimento e na proteção da ciência e tecnologia nacionais, da indústria nacional, da agropecuária nacional e na ampliação da capacitação de nossas Forças Armadas, que sempre tiveram a dupla missão de defender e construir o Brasil.

Que diferença existe entre a esquerda que o senhor se considera hoje e a esquerda que existe dentro do Congresso hoje?

A esquerda com a qual me identifico tem uma agenda de luta pelo interesse nacional, pela grandeza do Brasil, pela elevação do padrão de vida material e espiritual do povo brasileiro e pela proteção da liberdade. O que houve foi uma espécie de redução dos sonhos da esquerda à pauta econômica das corporações que dela se apropriaram.

O senhor foi chefe da Casa Civil do governador Márcio França, mais recentemente. A que o senhor tem se dedicado atualmente? Pretende voltar a disputar as eleições?

Considero a política um dever dos patriotas para que o destino da Pátria não sucumba aos interesses antinacionais, por isso a política continua nos meus horizontes. Disputar ou não eleições nunca é apenas uma decisão individual.

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