Secretário de Imprensa é alvo da ala ideológica e da Casa Civil

A demissão do Secretário de Imprensa da Presidência da República, Paulo Fona, que durou apenas seis dias no cargo, é um recado do presidente Jair Bolsonaro ao secretário de Comunicação Fábio Wajngarten: o comandante do Palácio do Planalto não aceitará sugestões e controlará as ações do governo sem interferência. Pragmático e com excelente leitura política, Fona foi escolhido com o aval do ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Ramos. Em carta, ele se disse surpreso com a exoneração.

Fona acordava os celulares dos ministros Ramos e Fábio com avaliações sobre o noticiário e dicas do comportamento do presidente nas entrevistas à imprensa, inclusive em relação aos ataques a jornalistas e a autoridades públicas. Avesso à mídia, Bolsonaro se sentiu tutelado com as sugestões indicadas por Fona.

Querido pelos colegas que acompanham a rotina de Bolsonaro, Fona era visto como mudança de rumo na comunicação do governo. Tanto que o jornalista Alexandre Garcia, que tem acesso livre no Palácio do Planalto, celebrou a nomeação. “Substituição inteligente. (Fona) É prático, direto e experiente. Ajudou os governadores Roriz (PMDB, etc), Yeda Crusius (PSDB) e Rodrigo Rollemberg (PSB) e estava na liderança do PSB no Senado. Profissional e pragmático”, disse no Twitter.

Incomodado, Bolsonaro começou a intensificar as declarações na portaria do Palácio da Alvorada, antes de sair para uma agenda pública. Normalmente, as falas vinham acompanhadas de novos ataques a adversários políticos. O processo de fritura foi intensificado pela ala ideológica insatisfeita com Fábio Wajngarten, que entrevistou o jornalista em três ocasiões antes de apresentá-lo a Luiz Ramos.

Na curta passagem pelo cargo, Fona participou de dois encontros com o presidente, assoprando dicas de clareza e compreensão em textos para publicações nas redes sociais. Foram acatadas e celebradas pelo presidente, que comentou o alto volume de curtidas em uma página nas redes sociais após um minuto da divulgação.

A lua de mel não duraria. Na segunda-feira, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, embarcou com Bolsonaro para o Rio Grande do Sul. Fona ficou de fora do comitê que acompanharia o presidente, o que já causou surpresa à área de comunicação. Interlocutores afirmam que, no trajeto de volta a Brasília, Onyx teceu um rosário de críticas a Fona, todas da época em que ele foi secretário do Comunicação do governo Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul – há 12 anos. Na ocasião, a relação entre o ministro e a então governadora não era nada amistosa.

No retorno, a Casa Civil procurou Fábio para comunicar a decisão do presidente. Não conseguiu, então contataram o adjunto da Secretaria de Comunicação, Samy Liberman, que informou que o presidente da República não o queria mais em sua equipe. A decisão pegou a todos de surpresa. Conhecido por ter uma personalidade forte, Fábio havia se identificado com o perfil pragmático do jornalista.

A decisão expõe as tantas nuances da comunicação do governo, que promete manter uma relação pouco amistosa com a imprensa.

 

Carta do ex-secretário à imprensa após a demissão:

A decisão da minha exoneração pelo Presidente da República me pegou de surpresa. Fui convidado para assumir a Secretaria de Imprensa, alertei-os de meu histórico e minha postura profissional e a intenção de ajudar na melhoria do relacionamento com a mídia em geral. O desafio era imenso, sempre soube, mas esperava maior profissionalismo, o que não encontrei. Em todos os governos que passei de diferentes partidos – MDB, PSDB e PSB – sempre trabalhei com o objetivo de tornar a Comunicação mais ágil, eficiente e transparente e leal às propostas da gestão.

Foi assim que aprendi a trabalhar ao longo de quase quatro décadas, nos principais veículos de comunicação do país e nas secretarias de Comunicação do Distrito Federal, por duas vezes, e do Rio Grande do Sul.

Com meu pai aprendi a respeitar as pessoas e os cargos públicos que me foram confiados.
Construí minha carreira profissional com meus próprios méritos e defeitos. Obrigado a todos os jornalistas que me acolheram de maneira calorosa e esperançosa de que o relacionamento mudaria.

Paulo Fona

 

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