Bebianno sobre saída de Frota: “PSL não pode se transformar em um quartel”

O ex-ministro da Secretaria Geral e ex-presidente do PSL, Gustavo Bebianno, criticou em entrevista ao Congresso em Foco o seu antigo partido por expulsar o deputado federal Alexandre Frota.

“Alexandre Frota foi um apoiador de primeira ordem do Bolsonaro, foi uma pessoa que vestiu a camisa e que efetivamente trabalhou para a eleição do presidente. O PSL não pode se transformar em um quartel cujo comandante é a única voz que se escuta, acho isso antidemocrático e anti-estratégico”, declarou.

Frota foi expulso do PSL na terça-feira (13) após uma série de declarações contra Jair Bolsonaro e seus filhos.

Ao comentar sobre a indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, o ex-ministro afirmou que ele não seria cotado para o posto se não fosse filho do presidente e que o deputado “não sabe nem o que um embaixador faz”.

Bebianno foi o primeiro ministro demitido pelo governo Bolsonaro. Acusado de participar de um esquema de candidaturas laranja do PSL, saiu do governo depois de 48 dias após desavenças com o segundo filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ).

Sobre o vereador, o ex-dirigente do PSL afirma que muitas das demissões no governo são de responsabilidade dele e declara que no longo prazo até os aliados de Carlos no governo vão se afastar do vereador.

O ex-chefe da pasta da Secretaria Geral da Presidência também elogiou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, pela articulação política.

Após pedir desfiliação do PSL em junho, Bebianno tem focado seus esforços em construir candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro. O ex-ministro tem conversado com DEM, PSDB e outros partidos menores de centro-direita, mas ainda não definiu qual vai ser sua próxima casa partidária.

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Gustavo Bebianno Rocha tem 55 anos e presidiu o PSL durante a campanha de Jair Bolsonaro para a Presidência em 2018. Formado em Direito pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), trabalhou para o escritório do advogado Sérgio Bermudes, um dos maiores do país.

Ele é neto do ex-presidente do Botafogo, Adhemar Bebianno. Entre 2006 e 2008 morou nos Estados Unidos, onde fez mestrado em finanças na Universidade de Illinois e montou uma academia de Jiu-Jitsu.

Quando foi demitido do Ministério teve que passar por um período de quarentena sem poder exercer atividades profissionais. No dia 18 de agosto a quarentena acaba e ele disse que volta a exercer a advocacia.

Congresso em Foco: Ainda tem diálogo com alguém da equipe do governo Bolsonaro?
Gustavo Bebianno: Não tenho mais dialogo com ninguém de lá.

Já escolheu o seu novo partido? Deve mesmo ser o PSDB ou o DEM?
Tem tempo, essas costuras são muito complicadas. O que acho mais importante nesse momento é que haja a união de candidatos da centro direita que tenham uma visão mais moderna e eficiente da gestão do Rio de janeiro, não pode cair na mesma armadilha de termos 2º turno entre Crivella e Freixo. Vaidades pessoais têm que ser colocadas de lado e tem que haver uma convergência a favor do Rio de Janeiro.

O presidente do PSDB-RJ é próximo do senhor
O Paulo Marinho é um amigo há bastante tempo, o PSDB tem o projeto dele com uma outra candidata [Mariana Ribas,ex-secretária de Cultura do Rio de Janeiro] e pode ser que ali na frente haja uma convergência, que acho que até seja natural. Tem de haver uma união dos pre-candidatos em quem se mostrar mais forte dos candidatos de perfil de centro-direita. No meu caso pessoal, eu apoiei o Jair Bolsonaro por conta de muitas ideias dele que o concordo e acho que o Brasil tem que dar um corte no baralho, tinha que ter uma alternância de poder e visão. Hoje tenho algumas criticas em relação ao governo, mas em linhas gerais continuo acreditando que o Rio de Janeiro tem que ir em uma posição de centro-direita. Tenho conversado com o comando do DEM, do PSDB e de alguns partidos pequenos, pode ser que eu vá para algum partido pequeno. Tem muito tempo ainda para definir.

Alexandre Frota foi expulso do PSL nessa semana por críticas ao governo, avalia que o processo foi justo?
Alexandre Frota foi um apoiador de primeira ordem do Bolsonaro, foi uma pessoa que vestiu a camisa e que efetivamente trabalhou para a eleição do presidente. O PSL não pode se transformar em um quartel cujo comandante é a única voz que se escuta, acho isso antidemocrático e anti-estratégico. É um grande equívoco e isso enfraquece o presidente até por uma questão de lealdade, Alexandre Frota sempre foi muito leal e é muito desleal esse tipo de atitude com ele.

Rodrigo Maia agradeceu ao senhor quando foi reeleito presidente da Câmara. Ainda mantém contato com ele?
Esporadicamente.

Acha que o general Ramos vai melhorar a articulação política do governo?
O ministro Onyx fez um belíssimo trabalho até aqui dentro do possível porque diante de certas atitudes do presidente se torna inviável para qualquer articulador político manter uma boa relação com o Congresso. O presidente precisa arrefecer os ânimos, se lembrar do tempo dele, quase três décadas como deputado, e conduzir o Brasil de forma mais harmônica, sem atacar as instituições brasileiras. Críticas contra essa ou aquela pessoa faz parte do jogo e é saudável que haja, mas ataques a instituições como um todo acho muito ruim para o Brasil.

Após tentativas de governos anteriores, a reforma da Previdência já parece encaminhada. Bolsonaro teve mérito nisso?
O êxito da aprovação da Nova Previdência deve ser muito mais creditado ao trabalho do Rodrigo Maia do que qualquer outra pessoa. Ele abraçou essa pauta de forma muito serena, séria, comprometida com os interesses do país. Não se deixou abalar com os ataques que sofreu. Meus parabéns para o presidente Rodrigo Maia.

Rodrigo Maia já era presidente da Câmara quando Michel Temer tentou aprovar a Previdência. Não houve uma articulação do governo atual que ajudou?
Era um outro momento, o governo Michel Temer foi importante sob o ponto de visto econômico, deixou uma situação melhor para o atual governo. Michel Temer pegou um pepino muito grande, recebeu a casa totalmente desarrumada das mãos da ex-presidente Dilma e passou para o Bolsonaro a casa mais arrumada. O Brasil precisa agradecer essa gestão do Michel Temer. No entanto, foi um governo que navegou por mares turbulentos, o caso do impeachment foi um processo traumático. A legitimidade muito questionada e o ambiente politico naquele momento não permitia uma discussão tao ampla e importante como a reforma da Previdência. É natural que o assunto caísse no colo do atual governo, fosse qual fosse. A aprovação da Previdência é uma questão matemática, fosse ou não fosse o governo acabaria acontecendo.

A escolha de Eduardo Bolsonaro para embaixada foi um erro ou acerto do presidente?
Acho uma escolha inadequada na medida em que isso dá margem para interpretações negativas sobre o governo. Parece nepotismo e que está sendo atendido um capricho do filho. Ele não está preparado para ser embaixador nem aqui nem em nenhum lugar. É anti-estratégico porque qualquer problema, disputa, desgaste que sempre há na relação entre dois países, vai virar um assunto de cunho pessoal e vai cair direto no colo do presidente. Se o pai não fosse presidente da Republica, quais as chances de ele ser indicado para qualquer embaixada do mundo? Zero, nenhuma. Não tem maturidade nem experiência de vida, nem sabe qual o papel do embaixador, sabe nem o que faz o embaixador.

O governo tem reorganizado várias vezes sua comunicação. Já foram três secretários de imprensa, sendo que o último ficou uma semana. Acha que falta unidade no time dessa área do governo?

Sob o ponto de vista ideológico, eu compartilho de varias ideias e posições do Jair, tanto assim que o apoiei incondicionalmente ao longo de dois anos. Temos de reconhecer que o governo tem se mostrado muito inábil, para dizer o mínimo, em termos de gestão. Contratar um profissional e logo depois demiti-lo demonstra uma falta de rumo e muita intromissão por todos os lados, muita gente dando palpite. Isso mostra falta de continuidade, eu percebo que esses assessores de imprensa o objetivo deles é apaziguar e azeitar as relações do Palácio e da imprensa de modo geral. Mas o presidente é mal influenciado por um de seus filhos, que insiste em manter um status de beligerância que não é positivo para o governo dele. O governo dele tem feito alguns avanços, tem qualidades e esses aspectos positivos acabam se perdendo no meio desses desmandos e dessa intromissão exacerbada dos filhos.

O chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, é alinhado com Carlos Bolsonaro.

É muito difícil qualquer pessoa se manter alinhada no médio e longo prazo com Carlos Bolsonaro. Ele é uma pessoa muito inconstante, imatura e que atua de uma maneira muito agressiva desnecessariamente. Esse alinhamento é momentâneo, não acredito que dure muito tempo.

Semana passada Lula quase foi transferido para um presídio comum em São Paulo? Na Câmara dos Deputados ele recebeu o apoio não só de partidos da oposição. Foi uma decisão correta da Justiça do Paraná?

A forma como feita pareceu uma certa retaliação. Eu acompanho o assunto à distancia, pela imprensa. A impressão que eu tive, à distancia, pode estar errada, é essa que foi uma medida de retaliação. Isso aprendi com o professor mestre Helio Grace [responsável pela difusão do Jiu-Jitsu no Brasil], ele me ensinou desde muito cedo que não se tripudia em cima de um adversário vencido. O Lula foi vencido pelos seus próprios equívocos do passado, está preso em uma situação que não é fácil para qualquer ser humano, está ali pagando pelos pecados dele. O PT foi dilacerado, viu um resultado das urnas que mostra isso. Agora não é hora de retaliações, vinganças, é  hora do Brasil se reconciliar, olhar para frente, é um pais maravilhoso, tem tudo para dar certo e esse clima de beligerância tem que acabar. Compete àquele que está em cima e foi o grande vencedor das eleições, atitudes de nobreza.

Um dos motivos alegados pela saída do senhor foi diálogos com representantes da TV Globo, mas esses representantes continuam frequentando o Palácio do Planalto. O que mudou de fevereiro para cá?

Isso demonstra que o Planalto age muito por rompantes, o governo precisa ter uma maturidade maior. Talvez o presidente esteja enfrentando uma certa dificuldade nesse novo desafio. Ele passou quase trés décadas da vida dele como parlamentar de baixo clero, que não teve grandes projetos. Agora ele se vê como a pessoa líder numero um do país. Isso exige serenidade, ouvir mais as pessoas, ouvir opiniões diferentes, não pode ser um samba de uma nota só,tem que ouvir outras melodias. Tem que ter uma postura mais serena. Não se pode governar brigando com tudo e com todos, o governo agora acerta ao se aproximar da Globo

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