A semana em que a base de apoio de Bolsonaro estremeceu

Com a crise sanitária decorrente do novo coronavírus escalando dia após dia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem assistido a boa parte da sua base de apoio ruir, não só no Congresso, como também entre segmentos da sociedade.

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Após a participação do presidente na manifestação pró-governo em Brasília no último domingo (15), diversas autoridades, da esquerda à direita, fizeram duras críticas à irresponsabilidade de Bolsonaro frente às recomendações sanitárias para se evitar aglomerações.

Alguns alertas soam como termômetro das dificuldades que o presidente tem pela frente. O primeiro surgiu na segunda-feira (16), quando a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), cotada para integrar a chapa de Bolsonaro em 2018, defendeu a saída imediata do presidente do cargo e se disse arrependida do próprio voto. “As autoridades têm que se unir e pedir pra ele se afastar”, disse Janaina em discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Antigo aliado do presidente e líder do PSL no Senado, o senador Major Olimpio (SP) também alertou para o isolamento do presidente e para o risco de erros o levarem a um processo de impeachment. Segundo Olimpio, segmentos decisivos para a eleição de Bolsonaro em 2018, como o agronegócio, os profissionais de segurança pública e os evangélicos, estão se distanciando do presidente por insatisfação com o seu governo. Os investidores, observa ele, também não se sentem seguros em apostar no país, devido à instabilidade política criada quase sempre pelo próprio presidente e seus filhos. 

A sucessão de equívocos do governo também levou outros apoiadores contumazes a se manifestarem. O guru ideológico do bolsonarismo, Olavo de Carvalho criticou a liderança de Bolsonaro, que estaria sendo aconselhado por generais e políticos medrosos, segundo ele. “Eleito para derrubar o sistema, o Bolsonaro, aconselhado por generais e políticos medrosos, preferiu adaptar-se a ele. Suicídio.” Olavo também disse estar na hora de o presidente aprender a aproveitar politicamente o apoio popular para aumentar seu poder efetivo.

Depois de ter se referido ao covid-19, reiteradas vezes, como uma histeria, Bolsonaro recuou, criou um comitê de combate à crise no Planalto e pediu ao Congresso a decretação do estado de calamidade pública – esta última aprovada pelas duas Casas em um esforço concentrado de deputados e senadores. Bolsonaro se viu, então, obrigado a abaixar o tom e convocou coletivas com ministros e a equipe econômica do governo.

Além das medidas sanitárias, que vêm sendo atualizadas diariamente pelo Ministério da Sáude, nesta semana foram anunciadas as primeiras providências nas áreas de defesa e segurança pública, com o fechamento das fronteiras, e na economia, com medidas para preservar empregos e minimizar os efeitos deletérios da crise.

Polêmica com o setor produtivo

Depois dos desentendimentos no campo ideológico, o filho 03 do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), colocou mais lenha na fogueira ao sugerir que o novo coronavírus teria sido uma criação do Partido Comunista Chinês. Como reação, o embaixador da China no Brasil disse que a acusação feita por Eduardo poderia ferir a relação amistosa entre os dois países.

O desentendimento com o país asiático preocupou sobremaneira a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e outras autoridades do mundo político, como os presidentes da Câmara e do Senado, dado que a China é o maior parceiro comercial do Brasil.

Tradicional aliado de Jair Bolsonaro, o presidente da FPA, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), indicou que não tem mais o mesmo entusiasmo pelo governo. “A importância da mensagem produzida está diretamente relacionada com quem produziu, neste momento com pouca credibilidade”, disse o deputado ao se referir ao filho do presidente.

Nas redes sociais, o ex-tucano e atual bolsonarista Xico Granziano rechaçou a fala de Eduardo. “Criticar a China é sintoma de imbecilidade”, disse. “A capacidade da turma de Jair Bolsonaro em criar desavenças está acima do razoável. Política se faz ampliando, jamais espremendo. Chamando, não excluindo”, completou.

Segundo o cientista político Creomar de Souza, ao longo de toda sua carreira política, Bolsonaro construiu um discurso de confronto com os poderes constituídos, elegendo amigos e inimigos. Ao minimizar a crise em seus primeiros dias, o presidente gerou um vácuo de poder, que logo foi ocupado por governadores, e foi jogado para uma posição de escanteio.

“As pontes destruídas pelo presidente não são eficazes nesse momento”, analisa Creomar. Ainda assim, a atuação dos governadores e do Congresso tem limite e o presidente modular o discurso. Na visão do analista, há tempo hábil para isso.

Boa parte do fogo amigo ainda é pontual e não se traduz em ruptura completa com o governo, como ocorreu nos casos do deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) e dos governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.

Creomar avalia que ainda é cedo para dizer quais serão os impactos eleitorais da atuação do presidente Bolsonaro na crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. “Quanto mais cedo ele se conscientizar que precisa mudar a postura, melhor para ele e para o país”.  Há que se esperar, no entanto, se Bolsonaro será capaz de entregar a postura que a circunstância atual requer.

Pedidos de impeachment

Também nesta semana foram apresentados três pedidos de impeachment de Bolsonaro, sendo um deles assinado por um de seus aliados, o deputado federal Alexandre Frota. Em que pesem as justificativas jurídicas para os pedidos, as chances de um afastamento prosperar neste momento são baixas. Segundo o presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), disputas políticas não fazem sentido neste momento.

Na visão do analista Creomar de Souza, a grave crise exige parcimônia de todos os atores políticos. “Creio que os pedidos tem um quê de preocupação honesta com os destinos do país, mas sempre tem também uma questão de agenda”, avalia. De qualquer forma, a profusão de pedidos – bem como as críticas feitas pelos aliados Janaina Paschoal e Major Olimpio – não deixam de ser sinal de alerta para o presidente e devem ser levados em consideração para que seu isolamento não seja definitivo.

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