O custo Bolsonaro sob escrutínio

 

A ideia em um segundo
Mal começou o ano e multiplicam-se os elementos conjunturais apontando para um biênio turbulento. A análise desse cenário, tendo em vista principalmente o comportamento das elites econômicas do país, é o tema desta edição.

Vacina e impeachment

Bolsonaro inicia a segunda metade do seu mandato acossado pelo recrudescimento da pandemia e por sua inabilidade para lidar com a questão da vacina, que poderia lhe ser politicamente favorável. Perdeu essa oportunidade, embora tente agora recuperá-la, talvez por crer nas fantasias conspiratórias em moda, em vez de apenas manipulá-las ao seu favor, como parece ter sido o caso de Trump. Nas teorias da conspiração alimentadas pela direita populista radical, a vacina vai de marca da besta a chip de controle comunista. Difícil compatibilizar essas perspectivas com qualquer possibilidade de defesa da vacina.

Contudo, conforme já apontado há décadas por Elias Canetti, escritor e estudioso das massas e suas reações, há um sentimento mais primitivo no ser humano, diretamente relacionado ao instinto de sobrevivência. Para além de qualquer análise factual, política ou jurídica, há um tema de natureza humana. Se há peste e ele é o líder, de alguma forma é o culpado. Difícil saber, contudo, se esse sentimento (por enquanto intenso apenas nas redes sociais), transbordará para as ruas.

Somente nessa hipótese haverá chance real de prosperar no Congresso o debate sobre o impeachment de Bolsonaro. O desinteresse da grande maioria dos parlamentares pelo assunto pode ser medido por uma única informação: congressistas próximos ao Planalto pintam como favoritos para presidir tanto a Câmara quanto o Senado, tema ao qual voltaremos a seguir.

Sede da Fiesp, em SP. A entidade é um dos pilares do apoio empresarial a Bolsonaro
Divulgação

O peso da economia

O voto econômico bebe na mesma fonte do sentimento de massa mencionado anteriormente. A bonança rende frutos, a carestia os tem ausentes, mesmo quando o líder pouco tem a ver com a realidade. O fim do auxílio emergencial, sem que nada tenha sido colocado no lugar até o presente momento, já cobrou parte de sua fatura nas primeiras pesquisas de popularidade do presidente em 2021.

Há uma estranha frase em uma palestra motivacional, que pode dizer muito sobre o que se tem para agora: “o futuro vem do futuro”. Como a economia reagirá é uma incógnita. Os indicadores fiscais e os dados ditos de alta frequência – como juros, câmbio e ações – apontam para aumento do desemprego e retomada lenta do crescimento. Contudo, a economia é sistêmica e há fontes de possível estímulo, como a indicação da economista “pomba” (isto é, flexível quanto aos gastos públicos), Janet Yellen para a Secretaria do Tesouro dos EUA, sinalizando aumento dos gastos. Quais serão os reflexos para o mundo e para o Brasil ainda não se pode prever.

O fato é que Bolsonaro se sentirá pressionado a entregar resultados econômicos, seja pelo fracasso em outras áreas, seja pela necessidade que vai se tornar cada vez mais aguda de sedimentar sua plataforma eleitoral para 2022. A virada para a segunda metade do mandato é o botão de início da contagem regressiva.

Manifestação pelo impeachment, realizada em Brasília no último dia 17
Sylvio Costa/Congresso em Foco

Presidência das casas legislativas

A eventual vitória de Bolsonaro na Câmara, se confirmada, será na verdade a vitória do Centrão, com quem o presidente barganhou apoio a partir de meados de 2020. O custo em aumento da presença em cargos governamentais, entre outros menos visíveis, faz parte do pacote e poderá ter impacto eleitoral negativo em 2022. Porém, esse impacto é mais do que compensado pelo relativo conforto que Arthur Lira lhe daria como sucessor de Rodrigo Maia. Conforto relativo, voltamos a frisar, porque estamos falando de Brasil e de Centrão.

Se as pressões pelo impeachment continuarem a engrossar, como ocorreu nos últimos dias, nenhum cenário pode ser descartado, apesar da maioria parlamentar desfrutada no momento pelo governo e do apoio que Bolsonaro continua a receber das principais entidades  empresariais, que têm forte influência sobre o Parlamento.

Uma derrota de Lira para Baleia Rossi teria efeito negativo para o presidente da República, mas não como significou por exemplo para Dilma Rousseff a ascensão de Eduardo Cunha. Político moderado, Baleia acompanhou a orientação do Planalto em 90% das votações da Câmara. Não viria dele o esforço para emparedar Bolsonaro, mas ele tem compromisso com a oposição de não interditar o debate sobre o impeachment. O problema aí é outro. Em torno de Baleia formou-se ampla aliança de partidos, mas ela é rejeitada por muitos deputados que integram tais agremiações – incluindo políticos do MDB, legenda da qual Baleia é o presidente nacional, e do DEM, partido de Maia, patrono-mor da sua candidatura.

No Senado, o candidato do governo, Rodrigo Pacheco, também é o candidato do principal partido oposicionista, o PT, que associa a sua principal concorrente, Simone Tebet, a dois nomes pelos quais os petistas nutrem profundo horror: Sergio Moro e Lava-Jato.

Apesar de não ostentar o mesmo grau de favoritismo atribuído a Arthur Lira, o parlamentar mineiro leva vantagem na disputa, pelo menos até aqui. Sua vitória sinalizaria boas chances de se manter um relacionamento amistoso entre Executivo e Senado, como ocorreu na gestão de Davi Alcolumbre, grande patrocinador da candidatura de Pacheco.

Sylvio Costa/Congresso em Foco

Ensaios golpistas

Deu errado nos Estados Unidos, mas alguns apoiadores de Bolsonaro deixam transparecer a crença de que, ao menos na visão deles, poderia dar certo aqui.

O atual presidente sempre proclamou incontida simpatia por ditaduras, sobretudo sob o controle de militares. Ousou ir às ruas várias vezes para se juntar a apoiadores que defendiam o fechamento do Congresso e do Supremo, entre outras medidas autoritárias. Não colou, por falta de apoio civil e militar. Mas a possibilidade do golpe institucional, para aumentar os poderes presidenciais ou para garantir a permanência de Bolsonaro no poder, continua a ser acalentada nas hostes bolsonaristas.

O sonho autocrático reaparece ora quando Bolsonaro diz que a não adoção do voto impresso poderá causar em 2022 turbulências maiores do que a ocorrida nos EUA, ora quando seus seguidores se mobilizam por teses exóticas, como a decretação de estado de defesa a pretexto de combater a pandemia que o governo primeiro desdenhou e depois relevou inacreditável incompetência para gerir.

Teto fiscal

A superâncora já foi perdida. Mas a orquestra de câmara segue tocando. A bolsa de valores, vista como proxy para a satisfação do mercado, iniciou o ano alcançando novos recordes. A dissociação entre o mundo das finanças e o mundo da economia real, quando muito grande, leva a esquizofrenia e crises. A história demonstra que não há sirenes tocando quando o mercado atinge um máximo, antes do touro ir para o brejo e o urso despertar da hibernação.

Infelizmente, para quem sofre de ansiedade, 2021 se apresenta como um ano em que essa sensação estará o tempo todo presente no ar: a bolha vai estourar? Quando?

Já vimos que o mercado financeiro é insensível a mortes e à incompetência governamental se entende que os seus interesses estão resguardados. Tem sido chocante a indiferença de instituições financeiras, líderes empresariais e de grandes corporações econômicas – assim como do Conselho Federal de Medicina e de outras entidades médicas – perante a combinação de inépcia e crueldade que marca a gestão federal da pandemia desde o início.

Paulo Skaf, presidente da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), um dos principais aliados de Bolsonaro na campanha de 2018 no meio empresarial, e outros nomes representativos das elites nacionais se mantiveram próximos a Bolsonaro mesmo quando ele tentava acumular forças para dar um golpe, naqueles nervosos meses de março a maio de 2020.

Houve retorno, claro. Nenhum governante foi tão longe quanto Bolsonaro no esforço para minimizar a pandemia de covid-19 em nome da proteção (equivocada, bom lembrar) da força econômica do país. Evidente que essa postura, se não é do interesse geral da nação, agrada aos empresários.

O clima tenso, derivado da situação fiscal adversa, do mau estado da economia e da instabilidade política, inibe investimentos em razão da impossibilidade de planejar o futuro em relação a variáveis decisivas como juros e câmbio.

Sylvio Costa/Congresso em Foco

O dilema das elites econômicas

Para certos extratos das elites nacionais, Bolsonaro foi a “escolha difícil”.

Apostaram em seu projeto por alergia profunda ao petismo, na esperança de elegerem junto o liberalismo radical (e, registre-se, bastante anacrônico) de Paulo Guedes. O “Posto Ipiranga”, contudo, revelou-se aquilo que sempre foi – uma peça de propaganda.

Bolsonaro, o deputado corporativista que fez carreira defendendo melhor remuneração para os militares, jamais se converteu de fato ao liberalismo. E, ao contrário do que dizem seus apoiadores envergonhados, o seu problema vai muito além do estilo tosco, que incomoda sensibilidades cultivadas, além de dificultar a negociação de reformas legislativas importantes (tema tratado na última edição).

As denúncias envolvendo a família presidencial comprometem o que já se vendeu como a maior qualidade do “mito”: sua suposta imunidade à corrupção. A gestão desastrada da pandemia, ponto decisivo para o fracasso eleitoral de Trump, assombra mesmo apoiadores renitentes, que em privado se confessam chocados com a sucessão de absurdos protagonizados pela dupla Jair/Pazuello.

E é assim, neste janeiro quente, que se segue a um dos anos mais quentes da história, que as elites econômicas do país parecem ter se dado conta de que o presente era de grego e que Troia está em chamas.

E agora, José? O que fazer? Apagar a difícil escolha de 2018 com mais conflagração nas ruas, algo inevitável em um processo de impeachment, ou construir uma candidatura robusta o suficiente para bater Bolsonaro e a esquerda em 2022?

Sem a certeza de que a segunda alternativa é viável, os eleitores mais endinheirados de Bolsonaro continuam a preservá-lo, ao mesmo tempo em que estudam cautelosamente outras possibilidades (permanecendo João Doria, Luciano Huck e Sergio Moro como os nomes mais lembrados).

Até quando se justificará bancar o “custo Bolsonaro”? A resolução desse dilema das elites econômicas do país terá efeitos muito grandes sobre o que acontecerá no Brasil nos próximos dois anos.

Termômetro

Geladeira

O governo Bolsonaro levou mais de 20 meses para enviar ao Congresso sua proposta de  reforma administrativa. Ela chegou em setembro do ano passado, momento em que as atenções dos parlamentares estavam voltadas para as eleições municipais. Agora, o tema desapareceu do noticiário e quando se fala em reformas prioritárias lembra-se cada vez mais da reforma tributária. Na Câmara, tanto Lira quanto Baleia Rossi parecem mais propensos a deixar o assunto dormitando na gaveta do que bancar o desgaste de buscar a sua aprovação.

Chapa quente

Algum substituto do auxílio emergencial poderá ganhar forma nos próximos meses, provavelmente sem a extensão do benefício original. Por meio dele, já foram repassados mais de R$ 213 bilhões a cerca de 60 milhões de brasileiros. Empenhar-se pela recriação do auxílio, ainda que atenuado em seus efeitos fiscais, é compromisso dos principais candidatos à presidência da Câmara e do Senado. A ideia foi mal recebida pelo mercado financeiro, contribuindo para a queda da bolsa e a alta de 0,95% no dólar na última quinta-feira (21).
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O Farol Político é produzido pelos cientistas políticos e economistas André Sathler e Ricardo de João Braga e pelo jornalista Sylvio Costa. Design: Vinícius Souza.
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