PMDB : depois da calmaria, pode vir a tempestade

Indicação de Gastão Vieira para o Ministério do Turismo acalma insatisfação que havia entre os deputados. A perda da liderança do governo no Congresso para o PT, porém, ainda pode criar novos atritos entre os peemedebistas e o governo

A indicação do deputado Gastão Vieira (PMDB-MA) para o Ministério do Turismo serviu para acalmar a bancada peemedebista na Câmara. Apesar de sua proximidade com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) – que repete a situação de seu antecessor, Pedro Novais –, integrantes da sigla vêem o colega como um parlamentar competente, que pode interromper as crises vividas nos últimos meses pelo partido. Os deputados reclamavam que a Novais, uma indicação pessoal de Sarney que oficialmente era vendida como da bancada da Câmara, faltava traquejo para atender aos pleitos dos políticos, além da sua incapacidade em se livrar de seguidas crises: pagou diária de motel com dinheiro público; mais de 30 pessoas de seu ministério foram presas pela Polícia Federal na Operação Voucher; usava dinheiro do contribuinte para pagar uma empregada doméstica e um motorista. Para os deputados, Gastão Vieira aplaca essa situação. Porém, outra indicação pode se tornar o combustível responsável por manter aceso o fogo na relação do partido com o governo: a do senador José Pimentel (PT-CE) para a liderança do governo no Congresso.

“Tenho absoluta confiança no Gastão, é um deputado competente, com cinco legislaturas, e um cidadão de boa conduta”, afirmou o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), um dos vice-líderes do governo na Câmara. Para o peemedebista, que já teve suas divergências com a cúpula do partido, a indicação do colega maranhense acalma a bancada e termina, por enquanto, a divisão entre os deputados do partido.

A insurreição do grupo dissidente do PMDB ensaiou-se na quarta-feira, quando ficou claro que Pedro Novais seria demitido. O deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) apareceu como uma solução para os peemedebistas de Minas Gerais, ressentidos com a pouca representatividade no ministério de Dilma Rousseff. Também agradou por não ser ligado a Sarney e por contar com a simpatia da cúpula partidária.

Porém, ao ver que não conseguiria chegar a um acordo, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), decidiu deixar com Dilma o ônus de indicar o novo ministro. Na verdade, ele literalmente deixou a abacaxi para a presidenta descascar: Henrique Alves lhe apresentou uma lista com os nomes de toda os deputados federais do PMDB. A presidenta não gostou da ideia. Mais do que isso, achou-a indelicada. E acionou o vice-presidente Michel Temer. Presidente nacional licenciado do PMDB, Temer comunicou ao líder da Câmara que era preciso indicar um nome. Buscou-se, então, alguém que não parecesse uma derrota da cúpula sobre a bancada, que seria o caso de Quintão. Mas que também não significasse uma imposição da mesma cúpula sobre os deputados, como acontecera antes no caso de Pedro Novais. A solução negociada chama-se Gastão Vieira.

No Fórum do PMDB em Brasília, o líder do partido na Câmara disse que a escolha foi feita pela presidenta Dilma. Para Henrique Eduardo Alves, a escolha atendeu a expectativa da bancada. No entanto, ele foi evasivo em relação à possível indicação de Gastão pelo presidente do Senado. "Se Sarney ajudou, eu não sei. Mas se ajudou ótimo, porque mostra que ele ainda tem prestígio na Câmara e no Senado."

Alves desgastado

Ainda que a solução tenha amainado momentaneamente os ânimos peemedebistas, Henrique Alves sai desgastado do episódio. Desde o início do mês passado, quando a Operação Voucher da Polícia Federal foi deflagrada, Novais não saiu do noticiário. Apesar disso, Henrique Alves insistia em bancar a sua manutenção no governo. Ao ficar quase um mês e meio nos holofotes, com outras denúncias surgindo contra ele, parte da bancada se irritou e começou a questionar a manutenção de Novais no cargo.

A insistência em segurar Novais somava-se com outros motivos de irritação, vinda principalmente dos deputados novatos e do baixo clero. Seus expoentes eram a vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (ES), e o deputado Danilo Forte (CE). O ponto principal da irritação foi a indicação de Eduardo Cunha (RJ) como relator da reforma do Código de Processo Civil (CPC). Parlamentares reclamaram que os principais projetos sempre caíam nas mãos do peemedebista fluminense. Para piorar, Cunha é economista, sem formação em direito.

A chiadeira do grupo levou a um recuo da indicação. Mas, no acordo feito, o PMDB acabou perdendo o cargo para o PT. Os petistas ficaram com a relatoria do CPC, e ao PMDB foi destinada a presidência da comissão, que ficou com o deputado Fábio Trad (MS). Com as últimas denúncias contra Novais, a insatisfação voltou à tona.

Liderança

Resolvido o caso Pedro Novais, há ainda um novo foco a ser administrado. Depois de ter ficado vago desde 31 de dezembro, o cargo de líder do governo no Congresso acabou sendo preenchido por Dilma com a escolha do deputado peemedebista Mendes Ribeiro (RS). Mendes, porém, acabou não ficando muito tempo no posto. Com a queda de Wagner Rossi, Mendes Ribeiro acabou assumindo o Ministério da Agricultura, apenas um mês depois de ter se tornado líder no Congresso. Os peemedebistas acharam que a liderança do Congresso tinha se incorporado definitivamente à sua cota. Até serem surpreendidos pela decisão de Dilma de indicar para o cargo o senador petista José Pimentel.

Mesmo que não declarem publicamente, os peemedebistas querem o cargo de volta. “Agora temos dois bons nomes no ministério. Mas a liderança do governo no Congresso é um assunto que pode azedar a relação do PMDB com o governo”, avisa um peemedebista.

Pontos de diferença

É por conta dessas situações não resolvidas que o Fórum do PMDB, realizado ontem em Brasília, fez questão de pontuar claramente diferenças de pensamento dos peemedebistas com relação ao PT. Foram divulgados 15 compromissos do partido com a população brasileira. Entre eles, está o que foi chamado de “defesa da liberdade de imprensa”. Em uma linha, é dito que essa é uma luta da sigla “desde a criação do MDB”. Em dezembro, o compromisso pode virar uma resolução durante o congresso nacional da legenda. O conceito do PMDB de liberdade de imprensa opõe-se claramente ao do PT, que defende a criação de um processo de controle social da mídia. “O PMDB é contra qualquer controle da mídia”, disse o presidente nacional interino do partido, senador Valdir Raupp (RO).

Outro ponto de diferença pode criar faíscas na relação com os petistas nas eleições municipais do ano que vem. A cúpula peemedebista orientou que sejam lançados o maior número de candidatos próprias possíveis às prefeituras. Mas onde não for possível a candidatura própria, o PMDB está liberado para fazer alianças com quem bem entender, seja o partido da base de sustentação de Dilma ou da oposição, como PSDB e DEM. “A nossa orientação é a candidatura própria. Onde não for possível, todas as coligações estão liberadas, inclusive com partidos da oposição.”

“Divergimos pra daná”

Um dia depois de mais um ministro peemedebista perder o cargo por conta de denúncias – o primeiro foi Wagner Rossi, da Agricultura –, a cúpula do partido tentou mostrar união. As lideranças do partido pensam nas eleições municipais de 2012, quando pretendem passar de 1,2 mil para 1,5 mil prefeitos. A presença de Dilma Rousseff no evento deixou os integrantes do partido animados.

No entanto, recados foram dados durante o fórum. Rose de Freitas foi direta. “Nós divergimos pra daná”, discursou, fazendo referência ao líder do PMDB.  “O PMDB vai superar alguns problemas, apesar de alguns mais pessimistas dizerem que não vamos conseguir”, disse. Já Henrique Eduardo Alves afirmou que não tem “medo de cara feia”. “O PMDB desperta um sentimento de inveja, de despeito, e também, pelo seu próprio tamanho, pela sua própria pluralidade, por todo lado você sente um certo preconceito, mas não tem adiantado muito porque em cada eleição que se sucede, o partido sai mais forte ainda.”

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