Os cem anos do “anjo pornográfico”

Em agosto, vão-se completar cem anos do nascimento de Nelson Rodrigues, um dos maiores e mais polêmicos dramaturgos do país, que se preparar para celebrar sua obra

Larissa Guimarães, especial para o Congresso em Foco

Salas de teatro, cinemas e livrarias se preparam desde o início do ano para celebrar o centenário de um dos mais polêmicos e inovadores autores do país: Nelson Rodrigues (23 de agosto de 1912-21 de dezembro de 1980). O dramaturgo, escritor e jornalista lançou no ventilador brasileiro temas e narrativas inovadoras, que ao mesmo tempo fascinaram e escandalizaram o público ao longo dos anos.

Algumas frases do polêmico Nelson Rodrigues

Outros destaques de hoje no Congresso em Foco

A princípio mal compreendida por parte do público e da crítica, a obra de Nelson permanece hoje como uma das mais originais e prodigiosas do país. “Ele agora faz parte da cultura brasileira em todos os sentidos. Seus personagens, suas frases, suas opiniões nos ajudam a entender o Brasil”, avalia Ruy Castro, autor da biografia “O Anjo Pornográfico”.

Castro levou dois anos para localizar fontes, fazer entrevistas, organizar informações e escrever o livro sobre a vida do recifense que cresceu e viveu no Rio de Janeiro. Só conseguiu terminar o trabalho dentro do curto espaço de tempo porque o autor já tinha intimidade com as obras de Nelson Rodrigues e também contava com acesso a várias pessoas que haviam convivido com o “anjo pornográfico”.

Vida repleta de tragédias

Na busca pelos detalhes do dia-a-dia de Nelson Rodrigues, Ruy Castro deparou com uma vida que se assemelhava a um de seus folhetins, repleta de tragédias e reviravoltas. Antes de completar 18 anos, o dramaturgo já havia enfrentado a morte precoce do pai e de dois de seus irmãos, um deles assassinado.

“A coragem, a autenticidade e a intensa brasilidade de Nelson foram os pontos que mais chamaram a minha atenção”, diz o biógrafo.

Para a atriz Cristiane Rodrigues, neta de Nelson, o avô é antes de tudo o genuíno representante do brasileiro. “Era um observador exímio do nosso povo e tratava também das grandes questões da alma humana. Por isso, a obra dele persiste até hoje e será sempre atual”, afirma ela, que organiza para este ano diversas mostras e espetáculos sobre a obra rodrigueana.

Nelson teve várias áreas de atuação dentro da arte e da escrita. Começou aos 13 anos como repórter das páginas policiais e depois passou para as crônicas e folhetins. Já adulto, começou a escrever peças de teatro sem deixar de lado o trabalho em jornais. Produziu desde romances e contos até crônicas esportivas e telenovelas. “Ele é até hoje o autor mais filmado do cinema brasileiro”, conta a neta.

Revolucionário

O diretor teatral Luís Artur Nunes, que concluiu tese de doutorado sobre o teatro rodrigueano, afirma que Nelson revolucionou a dramaturgia no sentido de propor novas narrativas dramáticas, rompendo com estruturas tradicionais e explorando histórias não-lineares.

Em Boca de Ouro (1959), por exemplo, o escritor investe em uma estrutura inovadora, com três versões diferentes da mesma história. “O plano da memória aparece muito na obra de Nelson Rodrigues, com narrativas que vão e voltam no tempo”, explica Nunes.

No caso de Vestido de Noiva (1943), sua segunda peça de teatro, ele mistura o plano da memória, da alucinação e da realidade. “Quase tudo é delírio. Em teatro brasileiro, isso era radicalmente novo e singular”, complementa Fernando Marques, professor do departamento de Artes Cênicas da UnB.

O professor, que fez mestrado com foco na obra de Nelson, também lembra de como Nelson inovou ao levar para o teatro a linguagem coloquial. “Outros autores já tinham tentado trabalhar com a linguagem coloquial naquela época, mas Nelson foi mais radical. Isso influenciou inúmeros dramaturgos que vieram depois”, afirma.

O escritor pernambucano também trouxe novos ares ao teatro brasileiro ao trabalhar com enredos que vasculham o inconsciente dos personagens. Amor e morte, temas freqüentes no trabalho de Nelson, quase não haviam sido explorados nos palcos do país até então.

“Nelson faz a denúncia do lado insano dos sãos e joga luz sobre aspectos neuróticos das pessoas consideradas normais”, diz Marques. “Algumas pessoas se sentiram retratadas no que elas têm de pior, o que chocou”, complementa.

Censura

Esse olhar agudo sobre a realidade brasileira e a realidade carioca – os costumes, os valores, a linguagem – já ficou claro em sua primeira peça, A mulher sem pecado (1941), e prosseguiu no espetáculo seguinte, Vestido de Noiva, o primeiro grande sucesso de Nelson nos palcos.

No espetáculo seguinte, no entanto, ocorreu o contrário. Álbum de família não foi bem recebida pela crítica. “Nelson Rodrigues recebeu avaliações arrasadoras e passou a ser um autor mal quisto naquele período”, relata Marques.

A peça foi censurada e só pôde ser vista pelo público mais de vinte anos depois. A censura ainda fez parte da vida do escritor, jornalista e dramaturgo por muitos anos. Nelson enfrentou o governo, a Igreja e a sociedade em diversos embates. Para Ruy Castro, o principal legado rodrigueano foi justamente a permanente luta pela liberdade de expressão.

“Nelson passou a vida sendo perseguido pela censura”, lembra Castro. “Hoje, a compreensão é muito maior. O país evoluiu e, finalmente, está chegando a Nelson”, conclui.

Luís Artur Nunes opina no mesmo sentido e acredita que poucos ainda fazem uma leitura rasa da obra de Nelson. “Hoje ele foi assimilado, estudado e entendido. Já não choca mais”, afirma.

Para o diretor teatral, as adaptações da obra rodrigueana para a TV e para o cinema contribuíram para dar mais acesso e compreensão ao seu trabalho, como a minissérie Engraçadinha – Seus amores e seus pecados, exibida pela Rede Globo em 1995. “Por ter ido tão longe no erotismo transtornado e atormentado, Nelson fez o sucesso que fez”, conclui Nunes.

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