Documentada, CPI do Cachoeira produz pouco

Comissão de inquérito ajudou a cassar Demóstenes Torres, recolheu milhares de grampos e dados bancários, mas ela própria até agora mostrou-se incapaz de produzir investigações novas. Desafio agora é evitar esfriamento com período eleitoral

Alguns integrantes mais empenhados da CPI do Cachoeira têm passado o recesso debruçados em documentos. Tentam trabalhar o que, tecnicamente, chamam de “produção da prova”, que é a transformação da imensa papelada recebida a partir das investigações da Polícia Federal em acusações e sugestões que possam, ao final, produzir um bom relatório final. Na prática, o que tentam é evitar que a CPI, criada para investigar um grave caso de infiltração do crime no aparelho de Estado, acabe frustrando as expectativas.

 

 

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Até agora, o maior resultado da CPI do Cachoeira foi contribuir para a cassação do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO). Bate-bocas infrutíferos à parte, a comissão recolheu uma soma importante de documentos, como milhares de grampos telefônicos e dados bancários inéditos da empreiteira Delta, que, segundo a Polícia Federal, tem como sócio oculto o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

O problema é que, apesar de estar recheada de documentos em seu arquivo, a CPI mesmo não produziu fatos novos relevantes para apurar além do que a PF fez nas Operações Monte Carlo e Vegas, centradas nos jogos ilegais em Goiás. As operações da PF esbarraram na ação do esquema junto aos poderes da República – foi assim que obtiveram os indícios que levaram à cassação de Demóstenes. Mas não tinham autorização para se aprofundar nessa apuração. Essa seria a tarefa da CPI. E, nesse ponto, a verdade é que a investigação sobre as relações de Cachoeira e da Delta com fraudes em licitações, doações ilegais para campanhas eleitorais e suspeitas de tráfico de influência, corrupção e violações de sigilos continuam em ritmo lento.

Rastro do dinheiro

Os rastros do dinheiro das contas da Delta são pistas em potencial. Mas até agora pouco exploradas pela comissão. O material sai a conta-gotas em reportagens como a que revelou que R$ 133,8 milhões foram pagos a dez empresas de fachada – e nove criadas em anos eleitorais, 2008 e 2010.

Alguns parlamentares da CPI, como o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), confiam na possibilidade que o período de recesso sirva para ajudar a organizar o material recolhido. E que a volta dos trabalhos produza fatos relevantes, especialmente a partir de depoimentos esperados, como o do ex-diretor da Delta Fernando Cavendish e o do do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot.

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Ocorre, porém, que na sua volta, a CPI do Cachoeira terá que dividir a atenção com concorrentes de peso. O primeiro é o julgamento do mensalão, que começa no dia 2 de agosto. O segundo são as eleições municipais. Noventa e dois deputados e senadores disputarão as eleições para prefeito. Mas, além deles, todos os parlamentares de alguma forma estarão envolvidos com o pleito. O temor é que, assim, se esfrie o interesse pela CPI. Os congressistas poderão se dar por satisfeitos em tirar do Legislativo aquele que, nas palavras de Jorge Viana (PT-AC), era “o melhor senador do Brasil”, homem até então acima de qualquer suspeita.

Na tentativa de produzir efeitos práticos para a CPI, o presidente do colegiado, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), determinou que a subsecretaria responsável por apoiar a comissão continue funcionando no recesso parlamentar. “Aproveitaremos duas semanas para anteciparmos os trabalhos que são permitidos pela Constituição Federal ao longo do recesso parlamentar”, disse o peemedebista.

Segundo Vital, ele e o relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), continuarão trabalhando durante o recesso.

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