Zé Maria: “Lula nunca foi de esquerda”

Rudolfo Lago


Entre os dias 19 de abril e 20 de maio de 1980, o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, hoje presidente do Brasil, esteve preso nas celas do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo, com base na Lei de Segurança Nacional, da época da ditadura militar. Lula presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Liderava greves que serviram para demonstrar, na ocasião, a fragilidade da ditadura, que já vivia seus últimos momentos. As greves lideradas por Lula se tornaram fatores fundamentais para o fim do regime em 1985, com a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Criaram o caldo para que, na redemocratização, se fundasse o Partido dos Trabalhadores e para que, Lula, naturalmente, se tornasse a sua principal referência e conquistasse, em 2002, a Presidência da República.

Ao lado de Lula naquelas celas do Dops estava o metalúrgico José Maria de Almeida. Operário da fábrica de amortecedores Cofap, em Santo André, Zé Maria, como é conhecido, foi também um dos comandantes daquelas históricas greves do ABC. Pregava a necessidade de criação de um partido dos trabalhadores quando Lula ainda era reticente sobre o assunto. E foi, com o hoje presidente da República, um dos fundadores do PT. Na segunda-feira, 26 de julho, Zé Maria estava em Brasília, para eventos da sua candidatura à Presidência pelo PSTU. Na ocasião, visitou a redação do Congresso em Foco e concedeu a entrevista abaixo. E, na condição de quem conviveu com o ex-líder sindical e hoje presidente Lula, Zé Maria o fulmina: “Lula nunca foi de esquerda”.





“Fui preso com Lula. Mas ele brincava sobre isso. Dizia: ‘Não sou socialista. Sou torneiro mecânico’.”
Segundo Zé Maria, Lula sempre foi um líder sindical pragmático, que até gostava de ressaltar, de forma bem humorada, sua condição apolítica: “Não sou socialista, sou torneiro mecânico, gostava de dizer ele”, lembra Zé Maria. Talvez essa situação, com a ascensão cada vez maior de Lula perante os demais líderes petistas, seja uma explicação para o fato de que, dos nove candidatos à Presidência, cinco tenham ligações com o PT. E, deles, Dilma Rousseff, a candidata petista, seja a quem tem menos tempo de militância no partido. “O PT foi perdendo a sua identidade. Foi deixando de lado as suas bandeiras”, diz Zé Maria.

De fato, é difícil imaginar o PT defendendo as propostas radicais de Zé Maria. Ele, por exemplo, prega a estatização de todas as empresas e setores que hoje remetem capitais para o estrangeiro. Zé Maria sequer teme a reação internacional que certamente haveria se tal medida fosse tomada.

Mas o candidato reclama mesmo é do pouco espaço que tem para divulgar suas ideias. O PSTU terá pouquíssimo tempo na propaganda de TV. Zé Maria não é chamado para os debates. E pouco aparece nos jornais. “As eleições são um jogo de cartas marcadas”, reclama. Leia abaixo a entrevista de Zé Maria:

Congresso em Foco – Além de Dilma Rousseff, disputam as eleições presidenciais este ano nada menos que quatro outros candidatos que têm no PT as suas origens: você, Marina Silva (PV), Plínio de Arruda Sampaio (Psol) e Rui Costa Pimenta (PCO). Cinco candidatos com passagem pelo PT em nove. A que o senhor atribui esse fenômeno?
Zé Maria de Almeida – O PT foi perdendo a sua identidade. Foi deixando de lado as suas bandeiras. E não é de hoje. Já era assim quando deixamos o PT em 1992. Nossa expulsão do PT, partido que ajudamos a fundar, como Convergência Socialista, foi um dos marcos importantes nesse processo do PT de se aproximar dos setores mais conservadores da política.

O PT não é mais um partido de esquerda?
O PT não é mais um partido de esquerda. Não é mais um partido preocupado em construir uma solução socialista para o Brasil. Na verdade, eram os setores mais progressistas ligados ao partido que o tornavam de esquerda. Porque o Lula nunca foi de esquerda.






“Não é verdade que Lula governa para os trabalhadores”
Lula nunca foi de esquerda?
Nunca foi. Ele foi um importantíssimo líder sindical. O país viveu um momento importante na greve do ABC, um momento que nós vivemos juntos. Fui preso com Lula. Mas ele mesmo vivia brincando sobre isso. Dizia: “Não sou socialista. Sou torneiro mecânico”. Por outro lado, não é verdade que Lula governa para os trabalhadores. Seu governo manteve a política econômica do governo tucano, manteve o superávit primário para pagar os juros da dívida pública, aprofundou os benefícios ao agronegócio, enquanto se paralisa a reforma agrária. Fez alianças com José Sarney, Collor e Renan Calheiros, ao invés de mobilizar os trabalhadores para garantir as mudanças que o país necessita. Defendemos um governo da classe trabalhadora. Não um governo com os banqueiros e grandes empresários como faz Lula, mas contra eles.

Nas eleições de 2006, os partidos de esquerda estiveram unidos, numa mesma aliança em torno da candidatura da então senadora Heloisa Helena pelo Psol. Agora, ficaram divididos. Todos saíram com candidatos próprios. Isso não acaba por enfraquecer as forças de esquerda? Serão vários pequenos candidatos sem nenhuma chance...
Infelizmente, não foi possível repetir a união que houve em 2006. O Psol passou boa parte do tempo acenando para a hipótese de apoiar Marina Silva. E nós não podíamos aceitar a hipótese de apoiar Marina Silva.






“Marina tem os mesmos defeitos de Dilma e de Serra. Não ataca os temas principais.”
Por que não?
Porque a candidatura de Marina tem os mesmos defeitos das candidaturas de Dilma e de Serra. Não é uma candidatura de esquerda. Não ataca os temas principais que precisam ser abordados para, de fato, mudar esse país. Nem mesmo na questão ambiental. Os transgênicos e a lei de concessão de florestas públicas são atos de quando ela era ministra. O próprio Psol acabou por perceber isso.


Mas, então, quando o Psol desistiu de apoiar Marina, não era possível fazer a união?
Não temos nada contra Plínio de Arruda Sampaio, mas ele próprio vem enfrentando dificuldades na sua candidatura no Psol.


Qual seria hoje o principal problema do país?
É preciso mudar a lógica que mantém o Brasil e romper com o pagamento das dívidas. As multinacionais dominam nossa economia. Só até maio deste ano, foram remetidos ao exterior US$ 10,8 bilhões. Esse volume é 40% superior ao enviado no ano passado. Esses recursos são enviados por multinacionais, como as de automóveis, bancos. É preciso estatizar esse setores. É a forma de garantir que esses recursos fiquem no país.


Mas esses setores investem no país.
O que essas empresas visam é lucro. É um erro achar que elas contribuem com investimentos, como se fosse uma atividade filantrópica para ajudar um país subdesenvolvido. Estatizar essas empresas significará, primeiro, que essas remessas que elas enviam para o exterior ficarão no Brasil. E, com uma gestão menos voltada para o lucro, possibilitará avanços como melhoria salarial, redução da jornada de trabalho, geração de empregos. Enfim, a atividade dessas empresas ficaria mais voltada a atender às reais necessidades do país.


Mas, hoje, dentro da economia globalizada, isso seria possível? Certamente, uma nacionalização desse porte geraria reações no mundo todo, que retaliariam o Brasil. O país resistiria a isso?
O Brasil tem uma imensa quantidade de recursos próprios. A maior produção agrícola do mundo. Já é autossuficiente em petróleo. Isso ainda irá crescer imensamente com o petróleo do pré-sal. Tem reservas de água. O mundo hoje é que precisa do Brasil. Além disso, acredito que esse tipo de iniciativa serviria de exemplo para a América Latina, muitos países poderiam ser tencionados a fazer o mesmo.






“Se rompermos com o pagamento dessa dívida, será possível duplicar o orçamento da saúde e educação.”
E setores básicos, como saúde e educação?
Esses têm de ser serviços oferecidos pelo Estado. No entanto, o governo continua destinando a riqueza do país ao pagamento das dívidas externa e interna. No ano passado, foram pagos aos banqueiros R$ 380 bilhões da dívida pública, segundo a Auditoria Cidadã da Dívida. Isso significa 36% de todo o orçamento geral do país, ou ainda quase cinco vezes mais do que se gastou com saúde e educação juntas. Apesar disso, a dívida pública segue aumentando. No total, Lula já pagou mais de R$ 2 trilhões em juros e amortização da dívida pública, nos últimos dez anos. Diante desse valor astronômico, é impressionante escutar o governo dizer que não tem dinheiro para acabar com o fator previdenciário ou conceder reajuste aos servidores públicos. Se rompermos com o pagamento dessa dívida, será possível duplicar o orçamento da saúde e educação. 


O senhor tem feito um movimento para poder participar dos debates entre os candidatos à Presidência. Já não participou do debate na TV Band ocorrido na quinta-feira (5). As emissoras que produzem os debates alegam que seria impossível fazer um programa com um mínimo de organização com todos os candidatos. Como o senhor responde a isso?
As eleições são um jogo de cartas marcadas. Já se define, de saída, quem tem e quem não tem chance. Isso não é democrático. Essa polarização entre Dilma e Serra é falsa, ambos tem o mesmo programa econômico para o país. Ela é produzida por um sistema falso que não permite que os demais candidatos, como nós, possam divulgar suas ideias. As campanhas dos grandes partidos são financiadas pelo dinheiro de empresários e banqueiros, que depois cobram a fatura. Com exceção de pequenas oportunidades, como esta entrevista ao Congresso em Foco, como vou expor aos eleitores as nossas ideias? Não se permite a minha participação nos debates, só vou ter uns poucos segundos de propaganda na TV.

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