Viviane Mosé: “Não basta gritar, é preciso propor”

Atraso do Congresso reflete a atual incapacidade do brasileiro de elaborar alternativas, diz filósofa. Para ela, Brasil vive crise moral e ética no setor público e privado

As manifestações que tomaram conta do país a partir de 2013 revelam que o brasileiro sabe gritar, mas ainda não consegue propor. O resultado dessa incapacidade está na eleição de um Congresso Nacional “atrasado”, um dos mais polêmicos das últimas décadas. O diagnóstico é feito pela psicóloga, psicanalista e poeta Viviane Mosé, mestra e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para ela, o atual momento do país tem forte componente ético: “Temos crise moral e ética, que envolve o setor público e o privado”.

Sócia da consultoria Usina de Pensamento e comentarista da CBN, Viviane vê a crise no Brasil como parte de uma crise maior, global, envolvendo as questões ambiental e econômica.  Para ela, o governo Dilma tem responsabilidade direta pelo mau momento enfrentado pelo Brasil, mas está longe de ser o único culpado. As dificuldades da conjuntura, no seu entender, são frequentemente exageradas.

O mais complexo, na sua visão, é enfrentar a crise estrutural, que ela relaciona tanto à falta de mecanismos de controle da corrupção quanto à incapacidade da sociedade de articular os seus interesses. “Conseguimos gritar, mas não conseguimos propor”, observa.

Na avaliação de Viviane, não adianta mudar os atores e manter o sistema. “Senão quem hoje clama contra a corrupção será o corrupto de amanhã”, afirma. A saída, indica Viviane, está na escola: “Temos de formar cidadãos na educação brasileira”.

A nova edição da Revista Congresso em Foco destaca a visão de sete pessoas dos mais diversos perfis sobre a atual crise política e econômica e os caminhos apontados por elas para tirar o país da atual encruzilhada. Interpretações diferentes à parte, todos concordam em um ponto: nunca o Brasil viveu uma crise como a atual.

Assine a revista para saber o que pensam sobre o crise brasileira atual momento Renato Janine Ribeiro, Denis Rosenfield, Chico Whitaker e Mansueto Almeida, entre outros.

Com a palavra, Viviane Mosé:

“Vivemos uma crise das instituições, a corrupção no país é vergonhosa. Temos crise moral e ética, que envolve o setor público e o privado. A Lava Jato está mostrando que no Brasil ambos os setores são muito corruptos. Sabemos que isso é muito antigo e temos de lutar contra essa situação com todas as armas. Nossa crise é ética, uma crise que envolve um Estado corrupto.

E não é só o Brasil que está em crise, o mundo também. Há uma crise ambiental gravíssima, uma crise econômica sem precedentes. Temos 30% de desemprego em vários países da Europa. Aqui, com 9% de desemprego, parece que o mundo está desabando. Então, há um exagero na ‘venda’ dessa crise. Muita gente ganha com isso. Por exemplo: você pode ser contra a política do governo porque ele é corrupto, e isso é um fato, existe corrupção séria no governo. Mas alguém pode ser contra o governo só porque ele investe no social?

É preciso construir sistemas de controle que impeçam que as pessoas roubem, com o uso da tecnologia e a favor da transparência. O banco consegue controlar o sistema para que o gerente não roube e uma multinacional evita que seu diretor financeiro não dê golpes. Então, por que o Estado brasileiro é tão aberto à corrupção? Porque nasceu para ser corrupto. Isso vem desde a família real, que distribuía títulos de nobreza para qualquer um. Isso não é atual. Por que o Brasil não faz uma reforma administrativa? Não adianta mudar os atores e manter o sistema, senão quem hoje clama contra a corrupção será o corrupto de amanhã.

Temos de pensar no coletivo e ter consciência de que a gente vive bem quando está envolvido nesse tipo de processo, o que nos traz a sensação de pertencimento. Também é importante que não se leia a crise apenas pelos jornais, porque há muitos interesses envolvidos nisso. E a crise econômica tem, sim, raízes em políticas errôneas do governo. Mas também existe a crise dos emergentes, que cresceram muito e estão caindo. O maior exemplo é a China, o mais bem-sucedido dentre os emergentes, que também vive uma crise econômica complicada e ainda ajuda a agravar a nossa.

É preciso tempo. Os problemas que vivemos são históricos. Na educação, por exemplo, hoje temos uma rede escolar estruturada, mas não há qualidade no processo educativo. Precisamos de pessoas que arrastem essa educação para o contemporâneo, que proponham uma educação voltada para a vida, para a ética, depende de uma mudança pedagógica. Temos de formar cidadãos na educação brasileira. Não é só investir financeiramente. As coisas vão mudar quando nós formarmos a escola não para o mercado, mas para a vida, a ética e a cidadania. Há grupos organizados na internet, espaços onde os jovens podem exercitar a cidadania e a participação. Não foi o governo quem criou a crise, ele contribui para o problema, ao permitir esse desmando político.

As reformas serão feitas pelo Legislativo, mas hoje temos um Congresso retrógrado. Há um velho hábito de se culpar só o governo, porque simboliza o pai, mas e o Judiciário? E a corrupção de juízes, por exemplo? Na verdade, nós não conhecemos o nosso país, nossa organização política. Não conseguimos agir como cidadãos e mal conhecemos as leis. O jovem precisa entender que temos três poderes. Nunca deve pedir a um deputado para quebrar um galho, porque ele existe é para fazer leis. Precisamos de uma mudança estrutural.

As manifestações que aconteceram no Brasil a partir de 2013 mostram a nossa impotência política. Conseguimos gritar, mas não conseguimos propor. O resultado foi um Congresso atrasado. E na sociedade houve até manifestações a favor do retorno da ditadura militar. Um retrocesso político. Acabou na radicalização de grupos de esquerda encontrados com bombas em casa. Não basta gritar, é preciso elaborar.”

 

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