Um contracheque de meio milhão líquidos

Servidores dizem que pagamentos foram legais e que retribuíram à sociedade os valores recebidos como salários. Câmara lembra que pagamentos foram eventuais

Do grupo de 14 servidores da Câmara que receberam mais de R$ 1 milhão brutos entre janeiro de 2010 e junho de 2011, um contracheque é expressivo. Por meio dele, a analista legislativa aposentada Jane França obteve num único mês R$ 527 mil. Ela deixou a Câmara em fevereiro do ano passado, um mês antes de receber os valores. Na ocasião, seu vencimento líquido foi de nada menos que R$ 513 mil.

Em um ano e meio, ela recebeu R$ 1,2 milhão brutos, ou R$ 958 mil líquidos, o melhor “desempenho” do grupo. Os valores recebidos por ela foram engordados quando ela se aposentou. Licenças-prêmio transformadas em dinheiro viraram R$ 417 mil nos holerites.

O ex-diretor-geral Adelmar Sabino conseguiu receber um salário com seis dígitos nos últimos dois anos mais de uma vez. Em dezembro de 2010, foram R$ 106 mil brutos. Em fevereiro do ano passado, mais R$ 303 mil.

Em dezoito meses, Sabino ficou com R$ 1,03 milhão. Ele disse ao site que os valores altos se devem à pagamentos de licença-prêmio que viraram dinheiro. Ele afirma que só conseguiu receber os mais de R$ 250 mil com um recurso no Superior Tribunal de Justiça. “A Câmara pagou com má vontade. Acabou pagando juros e correção monetária”, contou. Mesmo sem as licenças e férias indenizadas, os salários dele bateram na casa dos R$ 774 mil brutos. Sabino destacou que seus pagamentos foram todos legais. A reportagem não localizou seu processo no STJ.

Líder

Líder em salários recebidos da Câmara no período, Cristina de Fátima Queiroz, ex-assessora do hoje vice-presidente Michel Temer teve dois contracheques com seis dígitos. A aposentada Cristina de Fátima Queiroz ganhou R$ 104 mil em dezembro de 2010 e R$ 458 mil no mês seguinte. Nos dezoito meses, ganhou R$ 1,23 milhão, parte desse total gerada pela conversão em dinheiro de licença-prêmio.

Durante o período em que esteve no Legislativo, Cristina atuou de perto com importantes parlamentares. Assessorou o falecido Luís Eduardo Magalhães (PFL), ex-presidente da Câmara e, não fosse sua morte,teria sido candidato à Presidência da República. Depois, trabalhou com Temer. Em 2009, o hoje vice-presidente da República indicou-a para receber a Medalha do Mérito Legislativo. A honraria foi concedida em novembro daquele ano.

Retribuição social

O ex-consultor Vilson Vedana teve salário de R$ 100 mil em dezembro de 2010, quando se aposentou. No mês seguinte, ganhou R$ 427 mil nas mesmas datas. No período todo, ele ficou em segundo lugar nos rendimentos recebidos. Foram R$ 1,21 milhão brutos em 18 meses. O valor líquido na conta de Vedana foi de R$ 912 mil.

Vedana foi representante da Câmara no Consultivo da Agência Nacional de Telecomunicações durante três anos. Ele disse ao site que os pagamentos foram feitos por determinação do Legislativo de forma legal e que há vários anos ele tinha descontos na remuneração para evitar o estouro no teto salarial. Mesmo com as retenções para se enquadrar no limite constitucional, porém, ele ficou com R$ 1,17 milhão, ou seja, média de R$ 65 mil por mês.

Aprovado num concurso em que havia três vagas e 450 candidatos, Vedana entende que trabalhou de forma proporcional à renda recebida. “Acho que fiz um bom trabalho, publiquei artigos e estudos como a universalização da internet. Retribuí à sociedade com o meu trabalho pelo salário que recebia”, afirmou ele.

A reportagem buscou contato com todos os funcionários por mensagem eletrônica ou telefone, mas nem todos atenderam aos pedidos de entrevista. “Não vou me manifestar”, disse José Botelho. Não foi possível localizar Adão Leite de Souza. O sindicato que representa os servidores, o Sindilegis, não retornou os pedidos de esclarecimento.

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