Tucanos contrários a Temer tiram de deputado governista análise da segunda denúncia

 

Insatisfeitos com a escolha de Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) na relatoria da segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer (PMDB) na Câmara, por obstrução de Justiça e organização criminosa, o PSDB decidiu retirar o parlamentar da função na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), na qual era suplente. Assim, a vaga dos tucanos no colegiado não será preenchida e, segundo o líder do PSDB na Câmara, deputado Ricardo Tripoli (SP), continuará sem ser ocupada para "evitar constrangimento".

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Confirmaram a estratégia, além de Tripoli, o líder do PSDB no Senado, Paulo Bauer (SC), e o presidente da legenda em exercício, Tasso Jereissati (CE), em informações divulgadas no início da tarde desta quinta-feira (5). Eles explicaram que qualquer outro partido poderá convidar Bonifácio para que ele relate a matéria ainda como membro do PSDB, mas a decisão caberá ao presidente da CCJ, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG). Por meio de nota o peemedebista já sinalizou o que pode acontecer nos próximos dias.

“A escolha do deputado federal Bonifácio de Andrada teve critérios próprios e já amplamente divulgados, sem motivação partidária. Portanto, ele permanecerá relator caso se mantenha na CCJ pelo PSDB ou qualquer outro partido”, ponderou o presidente da CCJ, mais importante comissão da Câmara.

Por meio da rede social do PSDB no Twitter, os líderes da legenda informaram que iriam justamente sugerir ao presidente da CCJ que Bonifácio relate a denúncia na vaga de outro partido no colegiado. “Os dirigentes informaram que vão sugerir ao presidente da CCJ que Bonifácio relate o processo contra Temer na vaga de outro partido na Comissão”, diz a postagem no perfil tucano, depois de reunião do comando partidário para discutir o impasse – rachado quanto à permanência na base de sustentação a Temer, o chamados tucanos de “cabeça preta” deram 21 votos a favor da primeira denúncia contra o presidente, por corrupção passiva, enquanto outros 22 se opuseram à continuidade das investigações.

Impasse na origem

Bonifácio de Andrada também participou da reunião com a cúpula da legenda. O parlamentar já estava sob ameaça de ser retirado do colegiado caso permanecesse com a relatoria da denúncia – impasse que, aliás, teve início tão logo a relatoria lhe foi conferida por Rodrigo Pacheco. Antes mesmo do anúncio de Bonifácio como relator, os tucanos já haviam pedido, nos bastidores, que a escolha não recaísse sobre qualquer membro da legenda na CCJ. No entanto, Pacheco decidiu não acatar a demanda tucana e convidou Bonifácio, que aceitou a missão na última semana, e passou a defender a indicação publicamente.

Logo após a conversa com a cúpula do PSDB, Bonifácio afirmou que continua no partido, mas reafirmou que sua permanência na relatoria dependerá de Rodrigo Pacheco. “Eu estou vinculado ao presidente da CCJ. Estou aqui para prestar serviço. Agora, o fundo dessas conversações vai ocorrer depois. Eu não sei o que vai acontecer”, ressalvou.

Ricardo Tripoli também afirmou que a legenda não tem objetivo de abrir mão de Bonifácio como integrante da bancada tucana. “Nós ponderamos para ele a dificuldade que seria ele fazer esse relatório pelo PSDB, embora a gente queira ele no partido. Mas, obviamente, talvez uma solução seja o desligamento do deputado numa combinação com o presidente da CCJ, que obviamente deve ter uma vaga de outro partido que possa acomodá-lo”, sugeriu.

Partidos menores

Andrada vinha sendo pressionado por peessedebistas a deixar a relatoria ou se licenciar do partido. No entanto, Bonifácio resistia e era sempre incisivo ao dizer que não abandonaria  a missão. Ele chegou a dizer que “a Câmara é maior que os partidos”. A declaração não foi bem vista pelos tucanos. Para a legenda, a escolha de Bonifácio teve a influência de Temer, já que a sigla não queria se envolver na denúncia e segue em cima do muro quanto ao posicionamento sobre permanecer ou sair do governo. Além disso, Andrada votou favorável a Temer na primeira denúncia.

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As defesas de Temer e seus ministros Eliseu Padilha, Casa Civil, e Moreira Franco, Secretaria-Geral da Presidência, foram entregues à CCJ na tarde de ontem (quarta-feira, 4). Pacheco já havia anunciado que a primeira reunião do colegiado, na qual deveria ser lido o parecer do relator Bonifácio de Andrada, foi convocada para a próxima terça-feira (10). Se assim ocorrer, a primeira reunião de discussão e votação do parecer está prevista para o dia 17 de outubro. Andrada ainda tem a opção de migrar para algum partido com cadeira no colegiado que aceite sua permanência na relatoria. Ele já declarou que aceitará o convite.

Bonifácio de Andrada, que está em seu décimo mandato, representa a quinta geração de um clã que começou a trajetória parlamentar em 1821, ainda nas Cortes Portuguesas, em Lisboa. Lá se vão 196 anos. Desde 1894 não houve uma legislatura sequer em que um Andrada tivesse ficado de fora do Congresso.

Na Câmara desde 1979, Bonifácio começou a trajetória política na década de 1950 pela UDN, do qual migrou para a Arena, o partido de sustentação da ditadura militar. Filiado ao PDS, apoiou a candidatura de Paulo Maluf à Presidência da República no colégio eleitoral em 1985.Ele está filiado ao PSDB desde 1997, depois de passagem pelo PTB.
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