Troca na Fazenda derruba bolsa e agrada PT

Críticas públicas de Joaquim Levy ao governo alimentam desconfiança do mercado

A decisão da presidente Dilma Rousseff de escolher o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, para substituir Joaquim Levy no Ministério da Fazenda provocou duas reações: a queda vertiginosa do Ibovespa, que fechou esta sexta-feira (18) com uma contração de 3% no dia, o menor nível desde abril de 2009; e a comemoração no PT que defende o afrouxamento no ajuste fiscal.

As notícias veiculadas desde o início do dia, inicialmente com as críticas de Levy ao governo e depois com as especulações sobre sua possível substituição por Barbosa, derrubaram o mercado financeiro e as bolsas fecharam abaixo dos 44 mil pontos. O dólar, que começou a semana a R$ 3,88, disparou, fechando esta sexta com cotação de R$ 3,95.

O mercado considera Barbosa um economista heterodoxo, que admite flexibilizar o ajuste fiscal e até trabalhar com um orçamento sem previsão de superávit, a economia anual na execução orçamentária para o pagamento do serviço da dívida.

Outra consequência foi a forte baixa dos recibos de ações (ADRs) brasileiros negociados na Bolsa de Nova York, refletindo o mau humor dos investidores com a substituição de Levy. O índice ADRs Brazil Titans, que reúne os 20 papéis brasileiros mais negociados em Nova York, fechou em baixa de 3,87%.

Já o líder do governo na Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), festejou a troca do ministro da Fazenda por Barbosa. Segundo ele, foi uma decisão acertada da presidente Dilma Rousseff e que deve acabar com as divergências sobre a gestão fiscal. Pimenta foi o principal defensor da redução do superávit de 0,7% do PIB, como queria Levy, para 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), como foi afinal aprovado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2016. “Barbosa na Fazenda é a pessoa certa, na hora certa, para enfrentar a crise com uma visão desenvolvimentista”, disse Pimenta.

A troca do ministro da Fazenda era uma das principais bandeiras dos movimentos sociais ligados ao governo, ao PT e aos partidos de esquerda que apoiam a gestão Dilma Rousseff. Nas manifestações desta semana contra o impeachment da presidente, grupos ligados ao MST defenderam a saída de Levy. Aliás, o ex-ministro foi criticado duramente por parlamentares do PT e do PC do B, que são contra um ajuste fiscal rigoroso. O argumento deles é que a contenção dos gastos públicos e dos salários, aliada aos elevados juros praticados pelo Banco Central, agravaram os problemas econômicos do Brasil, mergulhando a economia em recessão profunda.

Os críticos de Nelson Barbosa e de outros economistas de linha desenvolvimentista costumam acusá-los de ter, em primeiro lugar, um problema sério com a aritmética, por não entenderem que um princípio econômico básico é que não se pode gastar mais do que se recebe. A projeção de despesas acima das receitas produziu a primeira grande crise envolvendo Joaquim Levy, que à época ameaçou deixar o cargo. Foi no final de agosto, quando, contrariando os alertas de Levy, Nelson Barbosa e o então ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante (hoje na Educação), convenceram Dilma a enviar ao Congresso uma proposta de orçamento com déficit. Dias depois, confirmando a reação prevista pelo ministro da Fazenda, o Brasil perdeu o grau de investimento da agência Standard & Poor's.

Como mostrou o Congresso em Foco, Levy e Barbosa vinham se confrontando ostensivamente em debates sobre os rumos da política fiscal do governo. A demissão de Levy estava prevista para ocorrer em janeiro, dando assim tempo à presidente da República para encontrar o substituto. Dilma decidiu afastá-lo mais cedo após a entrevista publicada nesta sexta-feira pelo Estadão e depois de o ministro ter divulgado nota, em tom de despedida, na qual disse que "ninguém quer o impeachment como primeira opção, especialmente se o governo mostrar como serão as políticas econômicas nos próximos três anos".

O ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Valdir Simão, assumiu o lugar de Nelson Barbosa no comando do Ministério do Planejamento. Valdir Simão é muito ligado a Mercadante, de quem já foi assessor.

 

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