Sem testemunhas, relator do caso Vargas fala em “proteção” do PT

Na semana que vem, haverá nova tentativa de ouvir deputados na processo em que se suspeita de quebra de decoro em relacionamento de deputado com doleiro preso. Youssef será ouvido em julho por videoconferência

Nenhuma testemunha compareceu para depor no processo do Conselho de Ética da Câmara para apurar eventual relacionamento antiético do deputado André Vargas (ex-PT-PR) com réus da Operação Lava Jato. Deveriam ser ouvidas oito pessoas nesta quarta-feira (18), incluindo três membros do PT, como o presidente nacional do partido, Rui Falcão, e dos deputados Cândido Vaccarezza (SP) e Vicentinho (SP)

O relator, Júlio Delgado (PSB-MG), disse que a ausência “diz muito” e que significa “proteção” do PT mesmo após o partido pedir o mandato do ex-correligionário. O advogado de Vargas, Michel Saliba, negou a suspeita e disse que seu cliente não manteve nenhum relacionamento antiético, mas “institucional” com um empresário. Com a ausência das testemunhas, novo convite será feito para que os esclarecimento sejam prestados na semana que vem.

André Vargas pediu desfiliação do PT – embora seu pedido não tenha sido comunicado oficialmente à Câmara até hoje – para não ser expulso da legenda, depois que a Polícia Federal revelou mensagens interceptadas de seu telefone celular revelando ligações com o doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava Jato e, para a PF, um dos controladores do laboratório Labogen. Nos torpedos, o deputado intermedeia interesses de Youssef em negócios no Ministério da Saúde para o Labogen. Nas conversas, Youssef diz que o contrato garantiria a “independência financeira” dos dois. O doleiro ainda pagou um jatinho para levar Vargas e a família para passar as férias em João Pessoa (PB) no final do ano passado.

Hoje, deixaram de comparecer, alegando problemas de agenda, o secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Carlos Gadelha, que participou das negociações com o Labogen, e o dono do avião usado pelo deputado, Bernardo Tosto. Youssef será ouvido apenas em 1º de julho por videoconferência, porque está preso desde o início da Operação Lava Jato, e é necessário a autorização do juiz para falar ou se ausentar do presídio. De acordo com Delgado e o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PSD-SP), os demais não informaram o motivo da ausência. Além dos petistas, Gadelha, Tosto e Youssef, deveriam comparecer também Leonardo Meireles e Esdras Ferreira, donos do Labogen, ao menos formalmente. Para a PF, o doleiro é o verdadeiro proprietário do laboratório.

‘Proteção’ e ‘estranheza’

Delgado e Izar lamentaram a ausência das testemunhas e acusaram o deputado Sibá Machado (PT-AC) de quebrar um acordo. De acordo com eles, o petista pediu para os depoimentos de Falcão, Vaccarezza e Vicentinho serem adiados da semana passada para hoje.

O advogado de Vargas, Michel Saliba, pediu para que os depoimentos fossem tomados apenas após os autos da Operação Lava Jato – parte na Justiça Federal do Paraná e parte no Supremo Tribunal Federal – chegassem ao Conselho de Ética. Mas Delgado rejeitou o pedido. Saliba deve recorrer ao plenário do colegiado. Delgado entende que a medida é para atrasar o processo e que o caso vai andar mesmo com a Copa do Mundo e as eleições. “Às vezes o silêncio diz muita coisa. Seria bom que eles dissessem alguma coisa. Senao, a contaminação eleitoral não vai pra mim, mas para eles”, disse o deputado, possível candidato a governador em Minas Gerais, contra Pimenta da Veiga (PSDB) e Fernando Pimentel (PT).

Além disso, o advogado lembrou que não existem denúncias contra seu cliente, mas apenas trechos do inquérito - que não é dirigido especificamente contra Vargas - publicados em reportagens da imprensa. Saliba afirmou que o deputado não teve relação com ‘o doleiro Youssef”, mas com "o empresário Yossef”. “Ele não tinha bola de cristal para saber que o empresário ainda agia como doleiro”, justificou o advogado.

Michel Saliba disse que o PT não protege em nada seu cliente, ao contrário, quer tomar seu mandato. “Como uma ‘proteção’ dessas...”, ironizou o advogado de Vargas. Ele disse que há um clima eleitoral nas afirmações de Delgado, possível candidato em Minas contra PT e PSDB, mas prefere acreditar na independência do Conselho de Ética. “O destaque dado a esse processo às vezes me causa estranheza”, disse Saliba.

Testemunhas

Para sua defesa, a defesa de Vargas listou oito testemunhas, quase todas residentes no Paraná. Pelo regimento, ele terá que arcar com as despesas de locomoção dessas pessoas. São elas, o presidente do PT paranaense, o deputado Ênio Verri, o prefeito de Apucarana, Beto Preto, o próprio Alberto Youssef, sua assessora parlamentar Cleide Amorim, além de Altair Zampier, Jãoo Carlos Peres, Luiz Flores e Roberto Veloso.

O Conselho de Ética tem que terminar o processo até 5 de setembro.

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Atualizada às 13h38

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