Suplicy se arrepende de sunga e pensa em voltar ao Senado

Senador atribui derrota a “tsunami” antipetista em São Paulo e à falta de dinheiro para a campanha, diz que se arrepende de ter se fantasiado de Super Homem e cogita concorrer ao Senado em 2018. Veja trecho em vídeo da entrevista

Primeiro petista a se eleger para o Senado, em 1990, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) se despede da Casa, após 24 anos de mandato, misturando sensações de tristeza, alegria, arrependimento e esperança. Prestes a retornar à sala de aula, na Universidade de São Paulo (USP), onde lecionará este ano no campus da Zona Leste, o professor aposentado da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) admite, aos 74 anos, voltar ao Congresso daqui a quatro anos. “Vai depender muito de como eu estiver do ponto de vista da saúde e do meu relacionamento com os eleitores e o partido. Tudo pode acontecer”, revela nesta entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.

Enquanto 2018 não chega, Suplicy promete continuar “soprando ao vento” suas convicções, tal como sugere a letra de sua canção favorita, Blowin' in the wind, de Bob Dylan. Mesmo que nem sempre seja compreendido – como nas vezes em que cantarolou esta e outras músicas em plenário, quando ergueu um cartão vermelho contra o senador José Sarney (PMDB-AP) ou vestiu sobre o terno uma sunga de super-herói. Esta cena, que lhe custou inédita ameaça de processo por quebra de decoro no Conselho de Ética em 2009, é a única da qual o senador se arrepende de ter protagonizado em seus três mandatos consecutivos.

“O episódio relativo à roupa do Super Homem ocorreu porque a Sabrina Sato, do Pânico, queria vesti-la na minha pessoa. Acabei, por gentileza, aceitando. Se eu pudesse refazer esse episódio, não teria feito aquilo”, conta o senador. A gravação não foi ao ar, a pedido do petista. Mas o estrago já estava feito, acredita.

“Aquilo não foi passado no programa, me respeitaram. Mas, só de ter saído a fotografia na imprensa, me prejudicou. Mas não foi por causa disso que perdi as eleições”, acrescenta. De seu maior arrependimento, Suplicy traz o momento que classifica como o de maior tristeza de sua trajetória parlamentar: a derrota na eleição de outubro. Um resultado que ele atribui à falta de recursos financeiros para a campanha, já que não recebeu ajuda financeira do PT, ao pequeno espaço de que dispunha no horário eleitoral e, sobretudo, aos efeitos do que ele chama de “tsunami” antipetista em São Paulo.

Uma onda avassaladora formada, segundo Suplicy, principalmente pelas denúncias do mensalão e da Operação Lava Jato, e impulsionada pelas condenações na Justiça de ex-dirigentes petistas e pelas “críticas formuladas pelos meios de comunicação”. “Isso tudo representou um movimento de desgaste muito forte para o Partido dos Trabalhadores”, avalia o parlamentar, que perdeu 2,8 milhões de votos em relação à sua eleição anterior, em 2006, e foi superado por José Serra (PSDB), que teve 11 milhões de votos. Ainda assim, os 6,17 milhões de votos obtidos por ele no ano passado representaram a maior votação de um petista no estado de São Paulo em 6 de outubro. No primeiro turno, Dilma recebeu 5,9 milhões de votos no maior colégio eleitoral do país. Candidato a governador pelo partido, Alexandre Padilha ficou na terceira colocação, com 3,8 milhões de votos.

Veja trecho em vídeo da entrevista concedido pelo senador ao Congresso em Foco:

À espera de Dilma

Nesta entrevista exclusiva ao Congresso em Foco, o senador evita tecer críticas ao seu partido e à presidente Dilma Rousseff, com quem sempre manteve uma relação, digamos, de via única. No final de 2010, Suplicy não conseguiu entregar pessoalmente as orquídeas que levou até a residência da então presidente recém-eleita – barrado na portaria sob a alegação de que a petista descansava. Quatro anos depois, ele jamais foi recebido pela companheira de partido, a quem dedicou lealdade nas votações no Congresso. Mas não perde a esperança. “Tenho a convicção de que ela vai me receber”, diz. Uma fé que tem prazo para acabar: 31 de janeiro, último dia de mandato do senador.

Na cerimônia de diplomação, em dezembro, lá estava ele de novo para cumprimentá-la. E para lembrá-la que aguardava havia um ano e meio resposta a um pedido de audiência no Planalto. “Ela me disse que era mais que justo. ‘Vamos marcar’.” No encontro, que espera para os próximos dias, Suplicy pretende tratar de dois assuntos.

O primeiro deles, desdobramento daquilo que ele considera ter sido sua maior alegria no Congresso: a lei de sua autoria que institui a chamada Renda Básica de Cidadania, benefício que garante a todo brasileiro, independentemente de classe social, uma ajuda mínima do Estado. A lei, sancionada em 2010 pelo então presidente Lula, ainda depende de regulamentação para que os recursos comecem a ser distribuídos. O senador quer sugerir à presidente a criação de um colegiado para tratar do assunto: “É para formar um grupo de estudos que venha discutir como serão as etapas para a instituição gradual da Renda Básica de Cidadania”.

A pauta da audiência ganhou um segundo ingrediente no último dia de 2014, quando Dilma vetou outra proposta de autoria de Suplicy que instituía a linha oficial de pobreza no país – um parâmetro considerado fundamental por ele para a adoção da Renda Básica de Cidadania. A rejeição integral ao projeto levou o senador a enviar uma carta a Dilma reclamando de não ter sido consultado sobre o veto. Segundo ele, ao contrário do que alega o governo, seu projeto não contraria o interesse público e é compatível com a política do salário mínimo e com os programas sociais.

Leia a entrevista:

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